Palestras com Estudantes Americanos — J. Krishnamurti
Transcrição dos encontros com universitários de Porto Rico, Califórnia e Nova York
Tradução em português

PALESTRAS NA UNIVERSIDADE DE PORTO RICO 
SAN JUAN 

O PODER DO AUTOCONHECI MENTO 
( 1 ) 

A maioria de nós, que vive neste mundo brutal e confuso, esfor- 
çamo-nos em talhar para nós mesmos uma vida individual, uma 
vida em que possamos fruir felicidade e paz, conservando, todavia, as 
coisas deste mundo. Em regra julgamos que nossa vida cotidiana, vida 
de luta, de conflito, de dor e sofrimento, aparta-se do mundo exterior 
de aflição e confusão. Supomos que o indivíduo difere do resto do 
mundo com todas as suas crueldades, guerras e tumultos, desigualda- 
de e injustiça, e que tudo isso se distancia de nossa vida pessoal, 
individual. Se considerardes com mais atenção, não só o vosso viver, 
mas também a humanidade, vereis que o que sois — a existência 
diária, o que pensais, o que sentis — é o mundo externo, o mundo 
em derredor. Vós sois o mundo, sois o construtor deste mundo de 
extrema desordem, deste mundo que em seu imenso sofrer clama em 
vão. Fostes vós quem o criou. Por conseguinte, o mundo exterior a 
vós não difere daquele em que pessoalmente viveis. 

Na realidade, não existe, absolutamente, essa separação entre o 
indivíduo e a sociedade. Quem procura talhar sua própria vida particular 
não difere da comunidade em que vive. Porque o indivíduo, o ser hu- 
mano, formou a comunidade, a sociedade. Devemos ver clarámente, 
desde o começo, que tal divisão é ilusória, irreal. 

Ao efetuardes uma mudança radical no homem, em vós mesmos, 
estais naturalmente realizando uma mutação profunda na estrutura e 
natureza da sociedade. Importa ficar ciaramente entendido que a men- 
te humana, com toda a sua complexidade, seu complicado funciona- 
mento, faz parte deste mundo externo. Sois o mundo e, operando uma 
revolução fundamental (não revolução comunista ou socialista, mas 
uma revolução de espécie totalmente diferente), estareis produzindo 
uma revolução social. Essa revolução não deve começar exteriormente, 
porém interiormente, porquanto o exterior resulta de nossa própria 
vida interior. Quando ocorrer uma revolução radical na natureza mesma 

do pensamento, do sentimento e da ação, haverá, então, obviamente, 
uma mutação na estrutura da sociedade. Essa mudança completa da 
estrutura social é impreterivelmente necessária, A moralidade social 
não é moral. Para ser completamente moral, um ser humano deve re- 
negar a moral social. Significa isso o que o indivíduo, o "vós”, terá de 
penetrar toda a sua própria estrutura; terá de compreender a si pró- 
prio, não em conformidade com nenhum filósofo ou sacerdote ou ana- 
lista, quem quer que ele seja. Deverá compreender-se tal como é, e 
não de acordo com outrem. Quando compreendermos a nós mesmos, 
deixará de existir a autoridade dos especialistas, psicossociólogo, ou 
outro qualquer. Devemos todos cientificar-nos disso, antes de pros- 
seguirmos. Principalmente quando estamos aplicados a examinar a 
questão da autocompreensão, questão de fundamental importância, não 
pode haver autoridade de espécie alguma, porque tendes de compre- 
ender-vos, e não a outrem ou aquilo que outrem vos diz a vosso respei- 
to. Parece-me sumamente importante entender isso, porque, como aca- 
bo de dizer, estamos sempre prontos a aceitar, a obedecer, a ajustar- 
nos, submeter-nos à autoridade, seja a autoridade da Igreja, seja a de 
qualquer líder espiritual ou especialista analítico. Tudo isso deve ser 
de todo abandonado, porque a autoridade que se tem exercido e a obe- 
diência, por parte de cada um de nós, a um ideal conceptual, tem 
causado imensa aflição neste mundo. 

Não sei se já observastes como o mundo está divididoP): nacio- 
nalidades, grupos religiosos, categorias raciais, preconceitos, religiões 
antagônicas, deuses antagônicos. Já o deveis ter observado. E, toda- 
via, apesar de terdes observado esse fato, apesar de saberdes as afli- 
ções e conflitos e discórdias que ele está produzindo em todo o mun- 
do, continuais apegados a vossas nacionalidades, vossos conceitos re- 
ligiosos, vossas crenças, tudo isso fatores de separação entre os 
homens, infelizmente, aceitamos a autoridade estabelecida pela tra- 
dição social ou pela Igreja, pelos ditames da hierarquia autoritária da 
religião organizada. Entretanto, rejeitamos decididamente a tirania po- 
lítica. Não admitimos que se nos negue o direito de falar livremente 
ou de pensar o que quisermos. Mas, infortunadamente, não fazemos 
valer essa mesma liberdade em relação aos assuntos espirituais. Isso 
tem conduzido, de modo geral, a inenarráveis aflições e à separação 
entre os homens. 

Se queremos pensar racionaimente, com integral discernimento, 
temos de compreender-nos a fundo, descobrir por que razão somos (*) 

(*) "Dividido" implica, aqui, a idéia de antagonismo, hostilidade (Cf. Dic. Wobstor: 
divide - 4. to make hostiie). N. do T. 

agressivos, brutais, dominadores, ávidos de posse, porquanto essas ca- 
racterísticas são, todas juntas, as causas do conflito entre as pessoas. 
E, se desejamos promover uma mudança social — a qual é necessária 
— essa mudança, decerto, deve começar na mente humana, e não na 
estrutura externa da sociedade. Com efeito, revela compreender que 
para se produzir uma completa mudança na estrutura social — para 
que os entes humanos sejam livres, não haja mais guerra, nem a se- 
paração dos povos em cristãos, hinduístas, mulçumanos, etc. — há 
necessidade da verdadeira autocompreensão, ou seja, da compreensão 
de nós próprios tais como somos, tanto biológica como psicologica- 
mente. Então, no mesmo processo de compreender-nos, efetuaremos 
uma mudança que será natural, e não uma revolução sanguinolenta. 
Todas as revoluções políticas, religiosas, econômicas causaram gran- 
de aflição e confusão no mundo. Podeis ver o que se está passando 
no mundo comunista — repressão e o retorno a um estado burguês. 

Vendo tudo isso, guerras, tirania, opressão, injustiça social, fome 
no Oriente, contrastando com extrema riqueza, vendo tudo isso, não 
apenas intelectual, porém realmente, observando-o em vós mesmos, na 
vossa vida diária, reconhecereis, inevitavelmente, a necessidade de 
uma revolução na ação mesma de vossa vida diária. E, para se realizar 
tamanha mudança, necessita-se de autoconhecimento; precisais co- 
nhecer a vós mesmos, tal como sois, as causas de vossas ações, por- 
que sois agressivos, brutais, invejosos, rancorosos, já que tudo isso se 
expressa no mundo exterior. Espero que esteja claro isto, não apenas 
lógica, verbal, racionalmente, mas também porque o sentis. Se não 
sentis agudamente, intensamente, o verdadeiro estado do mundo, o 
verdadeiro estado de vossa vida, há então a fuga para as ideologias 
e teorias. 

As ideologias, quer comunistas, socialistas, capitalistas, quer reli- 
giosas, não têm em verdade significação nenhuma. As ideologias — 
o pensamento conceptual, com suas palavras — têm separado o ho- 
mem do homem. Todos vós tendes diferentes ideologias e não perce- 
beis claramente, por vós mesmos, a insensatez de nutrir ideologias. 
Elas impedem-nos de ver o que de fato está sucedendo, o que de fato 
é. Por que termos ideologias, de qualquer natureza, se sabemos que 
elas estão dividindo os homens, não importa que sejam cristãos, hin- 
duístas, muçulmanos ou de outras religiões, cada um apegado com 
todas as forças à sua própria crença? Sem questionar, aceitamos ideo- 
logias. Se questionardes e investigardes profundamente este problema 
das ideologias, vereis que elas existem unicamente para proporcionar- 
-nos a fuga à realidade. 

Considere-se, por exemplo, a questão da violência que com es- 
pantosa rapidez se está alastrando pelo mundo. Nós somos violentos: 
os entes humanos, em qualquer parte, são violentos, agressivos, bru- 
tais. Eis um fato derivado, herdado do mundo animal. Somos entes hu- 
manos violentos. Não enfrentamos essa violência, não tratamos de 
descobrir porque somos violentos, a fim de transcendermos esse es- 
tado. Mas temos idéias a respeito da violência, ideologias a ela relati- 
vas. Dizemos que devemos ser não-violentos, que devemos ser bondo- 
sos, delicados, ternos, etc., etc.; isso é mero pensamento conceptual, 
que nos impede de entrarmos em contato conosco quando somos 
violentos. Isso é bem claro, não achais? 

Estamos perguntando por que os entes humanos se entregam aos 
ideais, e por que consideramos uma coisa tão insólita não ter ideais. 
Pensais que — tende a bondade de escutar atentamente — pensais 
que viver sem nenhum princípio, sem crenças, sem ideologias, é ser 
mundano, é ser materialista. Pelo contrário, a maioria dos que têm 
ideais, crenças, princípios, são os maiores materialistas do mundo, 
porque não estão em contato com a realidade, não estão em contato 
com a violência, não se relacionam com os fatos tais como são. De- 
certo, muitos de vós credes em Deus, embora alguns talvez não 
creiam. Podeis dizer que sois atèus, o que é uma outra forma de crença. 
Nunca indagais por que razão credes em Deus, porém O aceitais, por- 
que isso faz parte da tradição, da autoridade, da propaganda; tendes 
esse ideal e dizeis “Vosso Deus e meu Deus, vossa forma particular 
de ritual e a minha". Essas crenças e rituais estão separando os ho- 
mens. Para descobrir a realidade, descobrir se existe essa coisa cha- 
mada Deus, experimentã-la, alcançar esse estado extraordinário, deve 
o indivíduo pôr completamente à margem toda espécie de crença. 
Do contrário, não estará livre para investigar e só quem está livre 
para indagar, observar, poderá alcançar aquela realidade não cons- 
truída peia mente amedrontada. 

Por que tendes tantos ideais e princípios e de acordo com eles 
estais tentando viver? O homem moderno pouco se importa com prin- 
cípios e crenças. No mundo atual, o que a cada um interessa é gozar 
a vida, progredir, ter sucesso, etc. Mas, examinando-se as coisas mais 
profundamente, vê-se que no fundo de tudo isso está o medo. É o 
medo que nos faz agressivos. É o temor que nos faz apegar-nos a 
nossa forma particular de segurança e de crença. Se o homem não 
teme, se vive completamente, integralmente, sem nenhuma contradi- 
ção dentro de si próprio, observando o mundo com toda a sua bruta- 
lidade, penetrando, assim, em si próprio e libertando-se do medo — 
esse homem pode então viver sem nenhuma crença, sem um único 

pensamento conceptual. Penso ser esta a principal característica de 
nossa vida: o medo, não só o medo de coisas tais como a perda de 
um emprego, mas também o medo de estarmos psicologicamente, 
ínteriormente, na insegurança. 

Desejo agora dizer uma coisa que considero importante: é de 
suma relevância a maneira como escutais. Em geral, ou ouvis só as 
palavras, concordando ou discordando, intelectualmente, ou ouvis com 
a mente ocupada em interpretar, traduzindo, desse modo o que ouvis 
em conformidade com vossos preconceitos pessoais. Escutais compa- 
rativamente, isto é, comparando o que ouvis com o que já sabeis. Essa 
maneira de ouvir impede-vos o escutar, não? Se dizeis “Ora, tudo 
Isso é absurdo ", não estais escutando. Afinai de contas, vós e eu vie- 
mos aqui com o fim de considerarmos assuntos de nosso mútuo inte- 
resse. E, se tendes vossos próprios preconceitos, conclusões, convic- 
ções, que vos impedem de escutar o orador, nesse caso levareis 
daqui apenas um montão de palavras sem nenhuma significação. Mas 
se, ao contrário, escutardes sem condenar nem aceitar, se escutardes 
com um certo grau de atenção, assim como escutais o murmúrio do 
vento entre as folhas, se escutardes com todo o vosso ser, com vosso 
coração e vossa mente, então talvez possamos estabelecer entre nós 
um estado de comunicação. Teremos então a possibilidade de enten- 
der-nos mutuamente, de maneira muito simples e direta, embora este- 
jamos considerando um problema humano altamente complexo. Interes- 
sa-nos a integral estrutura de nossa vida diária, vemo-nos às voitas 
com nosso sofrimento, nossa aflição, luta e dor. E, se souberdes 
escutar, neste momento, ao orador, quando voltardes a casa sabereis 
escutar vossa esposa, vosso marido, vossos filhos, ou a outro qual- 
quer; começareis a descobrir, diretamente, a verdade relativa a estas 
questões. Vossa mente se tornará muito simples e clara; tereis uma 
mente lúcida, capaz de observar e de aprender, e não uma mente con- 
fusa ou assustada. E nós temos problemas bem complicados. Nossa 
vida é extremamente confusa, e para compreendermos esta com- 
plexa estrutura de nós mesmos, devemos observar-nos com muita 
atenção, ver por que é que cremos, por que é que olhamos, e somos 
agressivos, e nos separamos em nacionalidades. 

Assim, como disse, se escutardes com interesse, com zelosa 
atenção, vereis que o assunto de que o orador está tratando é o 
descobrimento de vós mesmos. O orador está meramente a pintar vosso 
próprio retrato. Para observar bem esse retrato, tendes de olhá-lo 
com atenção e interesse, sem condenar nem justificar, sem vos en- 
vergonhar daquilo que vedes. Só quando olhamos o que realmente 
está sucedendo em nossa vida, quando o observamos atentamente, sem 

condenação ou avaliação de espécie alguma, só então podemos vê-lo 
exatamente como é. Ver é o maior dos milagres. Percebei isso, por 
favor. Nós não vemos, porque nos olhamos com olhos que estão 
sempre a condenar, a comparar, a avaliar, e, por conseguinte, jamais 
nos vemos tais como somos. E ver-nos tais como somos é produzir 
uma radical transformação em nós mesmos e, por conseguinte, na 
ordem e na estrutura sociais. 

Nós mesmos andamos confusos e em completa desordem. Não há 
ordem nenhuma dentro de nós. Não me refiro à ordem aparente obtida 
pela imitação e pelo ajustamento; essa ordem é desordem e, indivi- 
dualmente, podeis ver que a vida está fragmentada, segmentada. Sois 
negociante, sois marido, sois esposa, sois isto mais aquilo, vossa 
vida está toda fragmentada. Cada fragmento tem seu desejo próprio, 
sua própria intenção e motivo, todos opostos entre si, de modo que há 
contradição. Nossa vida é uma contradição, um desejo oposto a outro 
desejo, um prazer a atrair-nos numa direção, e outro prazer a atrair- 
mos noutra direção, tornando nossa vida contraditória, confusa e de- 
sordenada. Esse é um fato óbvio, e cumpre-nos estabelecer a ordem, 
não de acordo com determinado plano ou teoria, porém aquela ordem 
que vem ao observarmos as causas da desordem em nós existente. 
Espero estar-me fazendo claro. Não se trata aqui de uma questão de 
retórica ou de teorias, o que nos interessa é o que está sucedendo 
reaímente em nós mesmos. Porque em nós está o mundo. Não podemos 
separar-nos dele. Nós somos o mundo. E para transformarmos o mun- 
do — e há necessidade dessa transformação — temos primeiro de 
transformar-nos. Para promovermos uma mudança em que haja ordem, 
cumpre-nos compreender as causas da desordem em nós existente. 

Para observar, necessita-se de liberdade. Em regra estamos for- 
temente condicionados pela sociedade em que vivemos, pela cultura 
em que crescemos. A sociedade é o produto de nossa vida, de nossa 
maneira de pensar. A cultura é nossa própria obra. A sociedade con- 
dicionou-nos, determinando-nos o que pensar e como pensar, as cren- 
ças que devemos ter e a maneira como devemos comportar-nos. Esta- 
mos fortemente condicionados e, por conseguinte, não somos livres. 
Este é um fato real e óbvio. Com a mente condicionada, evidentemen- 
te, não temos liberdade para observar. E, estando condicionados, quan- 
do observamos o nosso verdadeiro estado, assustamo-nos. Não sabe- 
mos o que fazer. A questão, pois, é se a mente tem alguma possibili- 
dade de descondicionar-se — atentai para isto — se a mente tem 
alguma possibilidade de descondicionar-se, para que possa ser livre. 
Se dizeis que tal possibilidade não existe, que nenhuma mente humana 
é capaz de libertar-se de seu condicionamento, nesse caso já fechastes 

o caminho a vós mesmos, impedindo-os de Investigar mais a fundo o 
problema. E, se dizeis que é possível, isso também constitui uma 
barreira, impedindo-vos de examinar a questão. 

Cumpre, pois, compreender esse condicionamento. É bem claro o 
que entendemos pela palavra “condicionamento”: estais condiciona- 
dos como cristãos, fostes criados numa determinada cuitura, uma cul- 
tura que aceita a guerra, que segue um certo padrão de existência, 
etc. Esse é o vosso condicionamento, tal como a gente da índia está 
condicionada peia sua cuitura, sua religião e superstição, sua maneira 
de vida. E a palavra “condicionamento" é uma palavra bem clara e 
muito simples, com um profundo significado. 

Pois bem; é possível descondicionar a mente, é possível descon- 
dicionardes a vossa mente para que ela seja livre? A liberdade é uma 
coisa perigosíssima, porque seu comum significado é que cada um 
pode fazer o que quiser. A liberdade, para a maioria das pessoas, é 
um ideal, uma coisa remota, inatingível. E há os que dizem que para 
serdes livres deveis ser altamente disciplinados. Mas, a liberdade não 
se acha no fim do caminho; ela se encontra exatamente no primeiro 
passo. Se não sois livres, não podeis observar a árvore, as nuvens, as 
águas rutilantes, não podeis observar vossa relação com a esposa, o 
marido ou o vizinho. Em geral, não queremos observar, porque temos 
medo do que possa acontecer se observarmos muito atentamente. 

Não sei se já observastes vossas relações; por exemplo, as rela- 
ções com vossa esposa ou vosso marido. Este é um negócio bem 
perigoso. Porque, observando-se com total atenção, vê-se que deve 
haver uma maneira de vida completamente diferente, para vós desco- 
nhecida. O que observamos são as imagens que formamos um do 
outro, e essa imagem estabelece uma certa relação entre um homem 
e uma mulher. Essa relação entre imagens é o que chamamos “estar 
em contato", “estar em relação". Assim, se investigarmos a questão 
do descondicionamento, do libertar a mente de seu condicionamento, 
o que em primeiro lugar desejamos saber é se isso é possível. Se não 
é possível, então seremos escravos para sempre; e eis por que inven- 
tamos um céu, um Deus. Só no céu podemos ser livres, e não aqui. 
Mas, para libertarmos a mente de seu condicionamento — e eu digo 
que isso é possível — devemos tornar-nos cônscios de como pensa- 
mos, de por que pensamos, e dos pensamentos que temos. Estar côns- 
cio, não condenar, não julgar, porém, simplesmente, observar, assim 
como se observa uma flor. Ela está diante de nossos olhos; de nada 
serve condená-la, de nada serve dizermos “Gosto dela", “não gosto 
dela"; ela está a nossa frente, para a olharmos. E, se tiverdes “olhos 
de ver", enxergareis a beleza dessa flor. Desse mesmo modo, se 

estais cônscios de vós mesmos, sem condenar, sem julgar, vereis a in- 
teira estrutura e a causa de vosso condicionamento; e, se continuardes 
aprofundando, descobrireis pessoalmente que a mente pode ser livre. 

Isso suscita outro problema: Estamos acostumados a pensar em 
função do tempo, isto é, estamos habituados ao gradual processo de 
mudança, ao gradual processo de consecução de um fim, ao tempo que 
se requer para mudar disto para aquilo. Esse processo gradual é o 
tempo. Existe, não só o tempo marcado pelo relógio, o tempo crono- 
lógico, mas também o tempo psicológico, o tempo interior, que nos 
faz dizer: "Sou irritadiço, ciumento e gradualmente me livrarei disso.” 
Eis a gradualidade, o lento processo de mudança. Mas, interiormente, 
psicologicamente, não existe tal coisa — gradualidade. Ou a pessoa 
muda imediatamente, ou não mudará nunca. A gradual mudança da 
violência para a não-violência implica que, durante esse tempo, a 
pessoa está lançando a semente da violência, não é verdade? Se digo 
entre mim que, se sou violento, poderei, gradualmente, um belo dia, 
tornar-me não-violento, fico na dependência do tempo. Nesse intervalo 
de tempo, estarei de contínuo a semear os germes da violência; isso 
é perfeitamente óbvio. 

Esta questão, pois — seriamente falando, num mundo que se está 
despedaçando, desintegrando, e todo entregue a divertimentos — esta 
questão diz respeito não só ao tempo, mas também ao conflito do es- 
forço. Espero que isto não se esteja tornando difícil demais. Talvez 
esteja, se não estamos acostumados a essa maneira intensiva de 
pensar e sentir. Mas a questão aí está, e incumbe-vos esclarecê-la. 
Quando uma casa está a arder, quando nossa casa — nosso mundo — 
está em chamas, não ficamos a discutir em torno de teorias nem a 
perguntar quem ateou o incêndio (se o comunista, o capitalista, o 
católico ou o protestante ou quem quer que seja). O que interessa é 
extinguir o fogo e tratar de construir uma casa que nunca possa ser 
Incendiada. Isso requer uma grande abundância de seriedade e de 
intensidade, e não que tratemos de agir só para estarmos em ação, 
de prestar alguns "bons serviços", ou mudar de uma religião ou con- 
ceito para outro. 

Tendes, pois, de ser "sérios”, o que significa que deveis ser 
livres para observar a vida, observar vossa maneira de vida, vossas 
relações com outros, e ver bem tudo o que está acontecendo. Ora, não 
podeis observar se há um espaço entre vós e a coisa observada. En- 
tendeis? Vou explicar-vos o que quero dizer. Para observardes, verdes 
muito claramente, deveis estar em íntimo contato com a coisa que 
observais. Deveis ser capazes de tocá-la, de senti-ia, deveis ser capazes 
de estar em total relação com ela. E, se há espaço entre vós — o 

observador — e a coisa observada, não estais em contato com ela. 
Assim, para vos observardes tal como sois — deveis escutar, ficar 
só escutando — para tal observação não deve haver separação entre 
o observador e a coisa observada. Tem sentido isto? Vê-lo-eis. Se 
olho a mim mesmo e há separação entre mim e a coisa observada, e 
vejo que sou ciumento, irritadiço, violento, o observador e a coisa 
observada são duas entidades diferentes, não? Há a violência e o 
observador que diz “Eu sou violento". Duas coisas distintas. Essa se- 
paração entre o observador e a coisa observada gera conflito. Observai 
isso em vós próprios, e com simplicidade o compreendereis. Se vos 
separais do medo, tendes então de dominá-lo, de combatê-lo, lutar con- 
tra ele, fugir dele. Mas, se vedes que vós sois o medo, que o observa- 
dor é a coisa observada, cessa então o conflito entre ambos. 

O que estamos dizendo é que o homem já fez uma viagem tão 
longa, e sua vida foi sempre um campo de batalha, não só dentro dele 
próprio, mas também externamente; todas as suas relações estão em 
conflito: na fábrica, no escritório, no lar, é uma luta, uma batalha in- 
cessante. E nós estamos dizendo que uma vida assim não é vida 
absolutamente. Podeis ter vossos deuses, vossas riquezas, possuir 
extraordinárias capacidades, mas não estais vivendo, não sois entes 
felizes. Não há felicidade, não há bem-aventurança na vida. E para 
alcançar essa felicidade, essa bem-aventurança, a pessoa tem de com- 
preender a si própria, necessita de liberdade para olhar. Para olhar 
com justeza, não deve haver separação entre o observador e a coisa 
observada. E, quando isso acontece, desaparece por inteiro o espírito 
de luta por nos tornarmos alguma coisa, sermos alguma coisa. Vós 
sois o que sois. Ao observá-lo, ocorre de pronto uma mudança radical. 
Isso põe fim à idéia do tempo e da gradualidade. 

10 de setembro de 1968. 

DA TRANSFORMAÇÃO DO HOMEM 
(2) 

Dissemos outro dia que nossas relações com os outros entes hu- 
manos devem sofrer uma radical mudança. Por todo o mundo se es- 
palha, assustadoramente, a violência: guerras, tumultos raciais, con- 
flitos, fora e dentro de nós. Nossa vida é um campo de batalha, uma 
luta incessante, do momento de nascermos à hora da morte, e temos 
a esperança de encontrar, em algum lugar, uma certa espécie de paz, 
um refúgio seguro. É isso, mais ou menos, o que buscam as pessoas — 
um certo refúgio no exterior, na sociedade, e um certo grau de segu- 
rança interior. Eis uma das causas principais do conflito, o anseio 
humano, em todo o mundo, de encontrar um pouso, um estado de re- 
lação isenta de atritos, uma ideologia infalível. E trata, assim, o homem 
de inventar uma ideologia de religião, de crença organizada, de dogma, 
que lhe porporcione uma esperança profunda e alegradora. Mas, como 
se pode notar em toda a parte, a religião organizada, tal como o na- 
cionalismo, separa os homens. Guerras incontáveis já se travaram em 
nome de Deus, em nome da religião, em nome da paz, em nome da 
liberdade. Deveriam todos compreender que qualquer espécie de re- 
lação baseada no pensamento conceptual levará infalivelmente ao caos 
e ao conflito. Já tratamos desta matéria na reunião precedente. Vem- 
-se procurando descobrir uma certa espécie de realidade que seja ab- 
solutamente verdadeira e não uma invenção da mente; uma certa coisa 
que dê significado à nossa vida, à nossa triste existência de cada dia. 
Creio ser isso o que a maioria dos indivíduos, tanto intelectuais como 
religiosos, estão sempre tentando encontrar: um significado para a 
vida. Porque, com efeito, nossa vida de agora é bem triste e insignifi- 
cante, oferecendo-nos minguados prazeres e satisfações, sexuais e 
outras. Ora, o homem exige muito mais, aíguma coisa de mais ver- 
dadeiro, de mais profundo, de mais significativo. 

Por conseguinte, trata de inventar ou de dar significado à vida, 
intelectual ou conceptualmente; e esse significado, mais uma vez, se 

revela improfícuo, porque é uma mera invenção, uma teoria, uma pos- 
sibilidade. É inútil es*orçar-nos por descobrir alguma coisa efetivamen- 
te verdadeira, coisa não-inventada nem concebida, porém uma reali- 
dade, uma realidade não destruível pelo pensamento. Para alcançar- 
mos essa coisa, temos de estabelecer as relações corretas neste 
mundo, corretas relações humanas, uma sociedade correta, uma es- 
trutura social, uma cultura que nos possibilite viver com plenitude, 
que nos torne a vida agradável e feliz, uma vida isenta de conflito, 
uma vida genuinamente morai. Pois é só quando se lançam as bases 
corretas que podemos descobrir pessoalmente o verdadeiro. 

Nosso empenho deve ser o de vivermos completa e totaimente 
neste mundo, vivermos de tal maneira que nossas relações com o 
próximo — esteja ele a mil milhas de distância ou na casa vizinha — 
não sejam geradoras de conflito. É necessário que se torne existente 
uma sociedade em que não haja competição, brutalidade, agressão, 
destruição, uma sociedade não-produtiva de guerras. A sociedade é o 
produto de nossa vida diária. O que somos no viver cotidiano, a ma- 
neira como agimos, as coisas a que atribuímos valores, nosso com- 
portamento, tudo isso concorre para formar uma sociedade em que é 
inevitável a guerra, o ódio, o antagonismo. Destarte, cumpre-nos des- 
cobrir por nós mesmos (e não de acordo com nenhum moralista) como 
viver plenamente e a um só tempo com dignidade; viver com entes 
livres, de modo completo e com paz interior, para que assim possa 
nascer uma sociedade na qual se tornem inexistentes os choques ra- 
ciais e econômicos, e haja igual oportunidade para todos. Isso só se 
tornará possível quando os seres humanos sentirem a absoluta ne- 
cessidade de viverem de maneira tal que a vida de cada um seja uma 
expressão de paz e de liberdade. Esta é a verdadeira questão, ou seja 
se, vivendo nesta sociedade, temos possibilidade de alterá-la (não por 
meios violentos, pois tais meios nunca produziram uma sociedade ba- 
seada na liberdade e na paz), de convertê-la numa sociedade que torne 
livres os indivíduos, fazendo que cada um seja a luz de si próprio. 

Nossa questão, pois, é esta: a sociedade atual deve ser transfor- 
mada. Isso é evidente. Os comunistas não conseguiram fazê-lo, em- 
bora tenham assassinado milhares e milhões de pessoas. Tampouco 
o conseguiram os capitalistas. Conseqüentemente incumbe-nos desco- 
brir uma nova maneira de viver — não segundo um sistema socialista 
ou de outra espécie: uma diferente maneira de viver. E isso só será 
realizável, conforme antes dissemos, quando nos compreendermos, 
não apenas como indivíduos, mas também em nossas relações com 
a sociedade. Porque nós somos a sociedade, nós somos o mundo; o 
mundo não difere de nós. A cultura que vos condiciona, a sociedade 

que vos escraviza, vos molda, é a vossa luta, a vossa maneira de vida. 
A questão, por conseguinte, é de vermos se é possível alterarmos nossa 
vida de cada dia tão radical e fundamentalmente, que todo o processo 
de nosso pensar se modifique. Por natureza, por herança, por ins- 
tinto, somos violentos. Somos egocêntricos — primeiro eu, e depois 
o resto; minha segurança, minha posição, meu prestígio importa mais 
do que o de outro. Isso é que gera o espírito de competição que pro- 
duziu esta sociedade de divisões raciais e econômicas. Assim, a me- 
nos que se verifique uma profunda mutação na própria psique, a mera 
reforma exterior, à custa de sangue derramado ou a poder de legisla- 
ção, não estabelecerá, por fim, uma maneira de vida em que o homem 
esteja em paz dentro em si; possa viver virtuosamente; uma vida na 
qual ele possa buscar e descobrir a realidade. 

Afinal de contas, todos nós buscamos a felicidade. Mas a felici- 
dade é um "derivado”!*), um resultado, e não um fim em si. Nosso 
problema, pois, é este: É possível modificar o homem? Consegui- 
lo-emos por um processo analítico, pelo exame de seu comportamento, 
de sua violência, sua agressividade, analisando-os atentamente, a 
fim de descobrir-lhes as causas e, depois, pelo processo gradual do 
tempo, operar a mudança? É este o caminho certo? Compreendeis esta 
pergunta? Isto é, pode cada um de nós, entes humanos, mudar total- 
mente sua norma de vida peia compreensão das causas de sua ma- 
neira de comportar-se, pública e particularmente, secreta e aberta- 
mente, peio desconhecimento do por que somos agressivos, por que 
somos competidores, por que somos violentos? Ainda que analisemos 
mui cuidadosamente, passo a passo, de modo que não se cometam 
erros, isso poderá produzir alguma mudança? Esse processo analítico 
requer tempo, não é verdade? Necessita-se de muitos dias, talvez de 
muitos anos, para uma análise feita com o maior cuidado. E pode ser 
que, à força de desejá-lo, consigamos mudar. Mas eu duvido disso. O 
homem nunca mudou, embora conheça a causa da violência; conquanto 
tenha passado pela experiência de milhares de guerras, não cessou de 
matar. Mata animais para comer e mata seus semelhantes por causa 
de ideologias. 

Se queremos servir-nos do tempo, precisaremos de muitos anos 
para mudar. Por favor, penetrai nisto junto comigo, não vos limiteis 
a escutar o que digo como se fosse uma série de idéias; não temos 
nenhum interesse em idéias: só nos importa o viver de cada dia e a 
realização de uma mudança radical nesse viver. Assim, peço-vos que 

(*) “Derivado", no sentido industrial: produto secundário, subproduto. (N. do T.). 

não vos limiteis a concordar ou discordar, a refutar ou aceitar. Como 
temos acentuado, devemos escutar atentamente, não as palavras do 
orador, porém dele nos servir como se fosse um espeiho no qual nos 
estamos vendo, tornando-nos cônscios de nós mesmos. A questão, 
pois, é esta, se o processo analítico liberta a mente. Ele requer tempo; 
cronologicamente, poderá necessitar de muitos dias, de vários anos. 
Assim terá de ser, se queremos proceder analiticamente. E, já que são 
necessários tantos anos, estareis, no decorrer deles, ajudando a pro- 
duzir mais caos, mais guerras, mais agressões, no mundo. Portanto, 
não é este o caminho certo. O processo analítico, baseado no desco- 
brimento das causas do comportamento humano, exige tempo e nós 
não temos tempo a perder quando a casa está em chamas, quando há 
tanta brutalidade, tanto ódio, em nossa existência. Com a casa a 
arder, não há mais tempo a perder: tendes de transformar-vos imedia- 
tamente. Esta é a verdadeira questão. O processo intelectual, ou seja, 
o processo analítico, não é, com efeito, o caminho certo. E as pessoas 
religiosas de todo o mundo dizem, em sua peculiar fraseologia, que 
deveis esperar pela graça de Deus, o que, mais uma vez, é um ab- 
surdo. Deve, pois, haver uma outra e bem diferente maneira para o 
homem que percebe as condições do mundo, que observa os aconteci- 
mentos, não teórica nem intelectualmente, porém venúo a violência, a 
brutalidade, o ódio, as guerras e matanças pelas quais ele próprio é 
responsável. Vede a guerra do Vietnã: por ela é responsável cada um 
de nós. E cada um de nós é também responsável pelos tumultos e 
preconceitos raciais. Vós, que habitais esta próspera ilha, com seus 
encantadores e verdejantes montes, seu mar azul, viveis num aparente 
isolamento; mas não estais isolados, fazeis parte do mundo, participais 
em todas as suas aflições. E t compreendendo isso, compreendereis 
também que o processo analítico, o processo intelectual de exame, 
não resolve de modo nenhum o problema. Nem o resolverá a maneira 
de ver religiosa, como tampouco a revolução sanguinolenta, a implan- 
tação da anarquia no mundo. 

Por conseguinte, deve haver uma diferente maneira de operar uma 
imediata mutação na mente. Achais, talvez, não ser isso possível. Di- 
reis: “Eu, que tão condicionado estou pela sociedade, pela cuitura em 
que vivo, vejo-me tão fortemente agrilhoado que não tenho nenhuma 
possibilidade de me transformar imediatamente. Abandonar o hábito 
de fumar, por exemplo, é uma coisa que vos parece sobremodo difí- 
cil, E abandonar, lançar à margem um completo condicionamento ideo- 
lógico, Isso é infinitamente mais difícil. Dizeis, pois, que não há pos- 
sibilidade de libertar instantaneamente a nossa mente, para vivermos 
livres de toda espécie de antagonismo, brutalidade e violência. Mas, 

eu o reputo possível, não como idéia, não como teoria utópica, porém 
na realidade. Tem a mente humana, condicionada por milhões de anos, 
possibilidade de mudar radicalmente, instantaneamente? Vou explicar- 
-vos o que quero dizer — (Depois conversaremos sobre a matéria). 
Em primeiro lugar, todo pensamento, toda atividade pensante, resulta 
do passado, assim como do passado vem todo conhecimento. Todo 
pensamento é reação da memória, e a memória pertence sempre ao 
ontem. Isso podeis observar diretamente, não é nenhuma extrava- 
gância mística, porém um fato científico que vós mesmos podeis per- 
ceber ao vos fazerem uma pergunta: vossa mente vai procurar na 
memória o que já sabeis e, depois, de acordo com essa memória, res- 
ponde. Estou-me expressando rápida e concisamente, embora se trate 
de um problema sumamente complexo. O pensamento é sempre con- 
dicionado e sempre velho. E aqui temos um problema novo, totaímente 
novo, um novo desafio, ou seja que temos de nos transformar incon- 
tinenti, de mudar imediatamente, porque, do contrário, nos destrui- 
remos. E, naturalmente, a reação a esse desafio é a reação do "velho”. 
Se reagis de acordo com os velhos sistemas de pensamento, não 
estais procedendo adequadamente em face do desafio. Espero esteja 
claro isto. 

Assim, em presença desse desafio que exige que vos transfor- 
meis imediatamente (porque a outra alternativa é de destruirdes a 
vós mesmos, pois bem sabeis que novas guerras virão, mais bruta- 
lidade, mais opressão; que a extrema esquerda vai ganhando terreno e 
a extrema direita se vai tornando mais poderosa, e que isso só pode 
levar a mais morticínios, mais guerra, mais ódio), e percebendo tudo 
isso objetivamente, chegareis à inevitável conclusão de que o homem 
deve mudar de pronto e integralmente. Disso é capaz o pensamento, 
sendo, como é, uma reação do passado. E, quando reagis a uma coisa 
nova em conformidade com o velho, não há contato entre o novo desa- 
fio e vós. Não sei se me estou fazendo claro. 

O novo desafio que se apresenta aos entes humanos, que há 
tanto tempo vivem em tamanha aflição, agora aumentada por terríveis 
meios de destruição, o novo desafio é este, que deveis mudar instan- 
taneamente. E se vossa reação não for nova, ver-vos-eis num conflito 
maior e estareis contribuindo para aumentar as desgraças do homem. 
Está visto, pois, que deveis reagir ao novo desafio de maneira nova. E 
tal só será possível quando compreenderdes toda a estrutura e natu- 
reza do pensamento. Se reagis intelectualmente, verbalmente, concep- 
tualmente, trata-se então de reação e ação do “velho". Assim (tende a 
bondade de escutar isto; ainda que vos pareça absurdo, escutai-o pri- 

meiro), é possível reagirmos sem pensamento, reagirmos com todo 
o nosso ser, e não apenas com uma parte dele? Estamos vendo, pois, 
que o pensamento, o intelecto, é evídentemente um fragmento de nos- 
so ser; e quando uma parcela, um fragmento, reage a um desafio 
imenso, cria-se mais conflito. Dessarte, o pensamento, o intelecto, 
sendo um fragmento do ente humano total, nunca produzirá uma mu- 
dança efetiva, e, portanto, não é o meio de irmos ao encontro do de- 
safio. Só quando a mente humana — formada que é de reações nervo- 
sas, de emoções, de tudo o que constitui a pessoa — só quando a 
mente humana reage integralmente, verifica-se uma ação de nova es- 
pécie. Se reajo ao desafio de modo intelectual ou verbal, minha rea- 
ção será apenas fragmentária, não será uma reação humana, total. Só 
se torna possível essa reação quando a eia me entrego por inteiro, 
isto é, para enfrentar o desafio de maneira adequada e completa só há 
uma reação, uma reação única ( é ), reação que não é intelectual, nem 
verbal, nem teórica; esta reação (se posso empregar uma palavra que 
tanto se tem adulterado), esta reação é o amor. 

Sabeis quanto esta palavra tem sido corrompida por nós; corrom- 
pida pelos sacerdotes, pelos políticos; corrompida pelo marido e pela 
esposa — de tal forma corrompida que, ao dizermos que amamos a 
Deus, não O amamos. Falamos de amor à pátria, amor ao Ideal, e 
assim tornamo-lo uma palavra feia. Se pudermos despi-la de toda a 
fealdade que lhe demos, poderemos então ver o que ela significa. 
Porque, quando se ama, ama-se totalmente, com todo o ser. E amor 
não é prazer. Para a maioria de nós, a maioria dos entes humanos, a 
palavra “amor* sugere prazer, sexual ou de outra ordem. E corrompe- 
mos também o amor caracterizando-o como divino e não-divino. Mas o 
amor é uma coisa que cumpre apreender, compreender, viver e 
sentir, sem fracioná-lo em amor físico, amor emocional, amor intelec- 
tual. Ele é uma reação total. E só essa reação é capaz de operar uma 
radical transformação na mente. Acho agora que, para mim, basta. 
Quereis fazer perguntas? Vamos conversar sobre a matéria. 

Mas, antes de começardes, peço-vos formulardes perguntas breves 
e precisas, porque eu terei de repeti-las. E, se eu o fizer incorreta- 
mente, queiram ter a bondade de me corrigir. Se falais italiano, fran- 
cês, espanhol ou inglês, talvez eu vos entenda. Fazei, pois, perguntas 
breves e pertinentes à matéria de que estamos tratando; não per- 
guntas teóricas, porém perguntas relativas a como operar a funda- 
mental transformação do homem. 

O “Única", no sentido de "superior a todas as demais". (Cf. Dlc. Seguler). (N. do T.) 

INTERROGANTE: Como comunicar a outrem este sentimento, o 
significado fundamental da palavra “amor”? 

KRISHNAMURTI: Como comunicar isso ao mundo, ao resto da 
humanidade — é isto que estais perguntando? Não vos preocupeis 
em comunicá-lo aos outros. Possuí-o! Temos sempre muita pressa 
em comunicar aos outros as nossas descobertas, queremos convencé- 
mos, ensiná-los; o amor não é uma questão de propaganda, não é uma 
coisa que se possa divulgar pela palavra; só podemos comunicá-lo 
com nossa própria vida, pela maneira como vivemos cada dia. Se 
uma centena de pessoas, dentre os presentes nesta sala, lograrem 
compreendê-lo realmente, que maravilha! Senhor, uma flor perfumo- 
sa, bela e colorida não se preocupa em M propagar-se”, com coisa ne- 
nhuma se preocupa; ela é o que é. E se sois sensível e alertado, e, 
portanto, capaz de olhar aquela flor, tanto basta. Por conseguinte, o 
que importa não é o outro, a pessoa que não está aqui; o importante 
é quem está presente. 

INTERROGANTE: Que é que distingue o verdadeiro amor? 

KRISHNAMURTI: Isto é bem simples, não? Se sois ciumento, 
ciúme, obviamente, não é amor. Se temeis, evidentemente não há 
amor. Se dominais alguém, isso também não é amor. Se nele falais 
e na vossa profissão fazeis mal a outrem, isso mostra que não amais. 
Assim, ao sabermos o que não é amor e o lançamos fora (não teori- 
camente, mas realmente, em nossa vida), e quando já não há ódio 
nem medo, então o amor existe. 

INTERROGANTE: Não devemos, em primeiro lugar, amar a nós 
mesmos? 

KRISHNAMURTI: Acho ser exatamente isso o que fazemos. E 
este é que é o mal. É imenso o nosso amor próprio, somos egocên- 
tricos, amamos nossa pátria, nosso Deus, nossas crenças, nossos dog- 
mas, nossas posses — e somos essas coisas todas. Vede o caos que 
isso gerou no mundo. Não demonstramos perceber a gravidade ou 
seriedade do que ocorre em toda a pa.te, e não parecemos cônscios 
de nossas próprias vidas. Vivemo-las rotineiramente, cheios de tédio, 
temendo a solidão, o não sermos amados. E, assim, as nossas ações 
produzem ódio e antagonismo. Não percebemos nada disso. E todas 
as religiões, com suas crenças organizadas, só nos têm ajudado a 
fugir de nossa vida diária, impedindo-nos de olhar. Não se pode falar 
sobre o amor. Bem sabeis o que ele não é. E se examinardes e lan- 
çardes à margem, dentro de vós mesmos, o que ele não é, então — 
tê-lo-eis. 

INTERROGANTE: Dizem os budistas do Zen que devemos morrer 
todos os dias e que, então f talvez encontremos a realidade. 

KRISHNAMURTi: Não sei por que vos preocupais em repetir os 
dizeres alheios. O que dizem os budistas Zen, os hinduístas, ou a 
Bíblia cristã, ou os especialistas — precisais de tais autoridades? 
Pensai nisto. Somos pessoas sem originalidade, repetimos o que 
outros dizem, o que ensina o Zen, ou o Vedantismo ou o ioga, etc. 
Nunca somos nossa própria luz. Somos tão medíocres! Diz o inter- 
rogante que, morrendo todos os dias, alcançamos a realidade. Sabeis 
o que isso significa? Sabeis o que significa morrer para tudo, morrer 
para um prazer predileto? É necessário penetrar fundo nesta com- 
plexa questão. A mente, sendo contínua, repete, enreda-se em hábi- 
tos, funciona como mente condicionada; nada do que é contínuo pode 
ver alguma coisa nova. Só quando há um findar, um findar total, 
pode-se perceber o novo. E morrer para os prazeres, para certas 
recordações é quase impossível para a maioria das pessoas. 

Esta questão suscita outra bem mais importante: a questão da 
morte. Não sei se a hora é oportuna para a considerarmos. Porque 
nos restam mui poucos minutos. Entretanto, talvez possamos exami- 
ná-la em nossa próxima reunião. Para se compreender o que é a 
morte, deve-se compreender o que é o viver. Nós não compreende- 
mos o viver; o viver é para nós um campo de batalha, conflito, bruta- 
lidade, às vezes, em raros intervalos, um lampejo de alegria e de 
felicidade. Eis o que chamamos viver. Se não compreendemos o 
que é o viver, como compreenderemos o que é morrer? Temos medo 
de viver e tememos morrer. E o Zen, isto é, um certo sistema de 
meditação, vos diz que deveis morrer diariamente. Evidentemente, 
devemos morrer em cada dia, e nisso há beleza, porque então tudo 
é novo. Isso significa morrer para toda a experiência. E, repetimos, 
não há mais tempo para tratarmos disso agora, e espero não vos 
desgostar com isso. Na próxima vez em que nos reunirmos talvez 
possamos tratar deste assunto. 

INTERROGANTE: Deus participa em nossa vida? Se tal não acon- 
tece, que podemos fazer? 

KRISHNAMURTI; Esta é, também, uma questão das mais comple- 
xas. Muito complexa, como toda questão humana. Vós credes em 
Deus. Alguém aí diz “Eu sou Deus". Temos duas coisas que consi- 
derar, não? Porque, crendo em Deus e dizendo “Eu sou Deus", vós 
o dizeis deveras, ou trata-se meramente de uma idéia? Olhai! O 
Importante é descobrirdes a respectiva verdade, e não o que credes 
e o que eu creio. A crença, diante do verdadeiro, é sem realidade. 

Para descobrir o que é verdadeiramente Deus [ou o que quer que 
exista), não pode haver medo, não pode haver espírito de posse, de 
aquisição, não pode haver inveja — entendeis? — deve haver virtude 
completa. A floração da bondade — eis a base; não o que credes 
ou a religião que tendes, ou o vosso condicionamento, ou o que a 
propaganda vos diz que existe ou não existe. Se pretendeis dizer 
que sois Deus, não o digais, porque não sabeis o que estais dizendo. 
Esta é uma das coisas que dizem os hinduístas, na índia, que são 
Deus, apenas revestido de matéria, para manifestação no mundo... 
mas isto é compiicado demais. Para descobrirdes se existe uma 
realidade, não afirmeis nada, não pertençais a nenhum grupo. O ho- 
mem deve estar livre para descobrir, taí como o cientista, o bom 
cientista, e não aquele que se serve de sua capacidade para aumentar 
os males do mundo: o verdadeiro cientista. O autêntico cientista é 
livre, e pode examinar sem nenhum preconceito, pode olhar sem ne- 
nhum condicionamento. Se nos abeirarmos das coisas dessa maneira, 
e se tivermos boa sorte, poderemos descobrir o que é a realidade. 
Nenhuma afirmativa conceptual de que ela existe ou não existe tem 
valor para esse descobrimento. Isso requer muito amor e beleza; 
requer humildade. E quando dizemos que há Deus ou que não há 
Deus, isso é uma absoluta falta de humildade. 

INTERROGANTE: O medo e a fuga são idênticos? 

KRISHNAMURTI: Diz o interrogante: "Temos uma imagem do me- 
do e uma imagem da psique, do "eu"; há a imagem de "mim mesmo" 
e a imagem que tenho do medo". Ora, diferem essas duas coisas? 
Compreendeis esta pergunta? Há a imagem própria. — "Eu devo ser 
bom, ou eu não sou bom, eu tenho vergonha, eu tenho medo", etc. 
— e crio uma outra imagem na qual estão presentes os vários atri- 
butos pessoais. Digamos a coisa de maneira bem simples: Vós ten- 
des uma imagem de vossa esposa ou de vosso marido, não é ver- 
dade? Deveis tê-la. A imagem que tendes de vossa esposa, ou a 
que tem a vossa esposa a vosso respeito, é diferente dela ou de vós? 
Segui, por favor, o que vou dizer. A imagem que tendes de vossa 
pessoa formou-se em razão da experiência, e a imagem que a vosso 
respeito tem vosso marido ou esposa formou-se de igual modo. A 
experiência, portanto, é o "fabricante de imagens”. Estais-me acom- 
pahando? Há clareza no que digo? Pois bem; a experiência é a base 
das imagens que faço sobre mim e acerca de minha esposa; e minha 
esposa faz a mesma coisa em relação a mim. Essa formação de ima- 
gens é obra da experiência. Mas, estar relacionado significa estar em 
relação com outro ente humano sem imagem alguma, e essa ausência 
da imagem significa ausência da experiência. A experiência consti- 

tuiu, talhou a imagem que tenho de mim próprio e formou também a 
imagem que tenho de minha mulher e a que ela tem de mim. Estar 
verdadeiramente em relação com outros entes humanos significa não 
ter imagem nenhuma. Isto não é uma teoria; vede-o, assim como ve- 
des este microfone, objetivamente, concretamente, isto significa que 
qualquer coisa que minha mulher me diga num momento de cólera, 
ou de prazer, ou de ternura, não deve deixar resíduo nenhum, marca 
nenhuma, senão se tornará experiência. Estais percebendo? Se ela 
me diz uma coisa agradável, gosto de ouvi-la. É uma experiência 
que me é grata e que quero conservar. E essa experiência cria uma 
imagem de minha mulher, e cria também uma imagem de meu pró- 
prio deleite. 

Agora, se minha esposa me diz uma coisa desagradável, isso tam- 
bém cria uma imagem. A questão, portanto, é esta: É-me possível, 
quando minha mulher me diz alguma coisa agradável, olhar esse fato 
tão completa e plenamente que ele não deixe experiência de espécie 
alguma? Estais seguindo? Viver dessa maneira exige muita atenção 
e percebimento, não importa se ela me insulta ou lisonjeia, se me 
importuna ou domina, ou se eu a domino. Dessa maneira, minha rela- 
ção com ela é sempre pura, sempre nova; do contrário, não existe 
uma relação real, porém apenas relação entre duas imagens, portanto 
sem validade nenhuma. As imagens, nesse caso, são símbolos, e um 
estado de relação entre dois símbolos nada exprime. Mas é assim 
que nós vivemos, numa relação sem nenhum significado, desculpai- 
-me dizê-lo tão brutalmente — sem nenhum amor. O amor é uma coisa 
sempre pura, sempre nova, juvenil, inocente. 

SNTERROGANTE: Se uma pessoa estabelece um alvo para si pró- 
pria e se esforça por atingi-lo, como pode ela manter-se livre de 
condicionamento? 

KRISHNAMURTI: Não sei por que precisais de alvos. Um alvo 
implica distância, uma certa coisa situada no futuro. Estabelece-se 
o alvo como uma finalidade, e a pessoa fica toda a vida a ajustar-se, 
a batalhar dentro de si, a fim de corresponder ao padrão. É o que 
se entende por "um alvo", não é verdade? Um fim, uma finalidade, 
um alvo, é uma coisa distante que para vós fixais; pode ser uma 
imagem, pode ser uma idéia, pode ser uma ideologia, mesmo nobre. 
Mas, em primeiro lugar, por que necessitais de alvos? Como vedes, 
não podeis responder. 

INTERROGANTE: Temos necessidade de alvos? 

KRISHNAMURTI: Boa pergunta. Nós necessitamos de alvos por- 
que estamos condicionados, precisamos visar a alguma coisa. Por 

que fazemos isso? Sei que nós estamos condicionados, mas por que 
necessitamos de alvos? Não podeis penetrar nisso um pouco mais 
profundamente? 

INTERROGANTE: Visto que não somos perfeitos, fazemos da per- 
feição nosso alvo. 

KRISHNAMURTI: Considerai isso, senhor. Vós tendes a imagem 
da perfeição, que vos diz que sois imperfeito, mas por que precisais 
de qualquer espécie de imagem? Sois imperfeito, e desejais mudar 
esse estado. Por que precisais de um alvo? "Eu sou imperfeito" 
— que significa isto? Encolerizo-me, sou brutal, sou invejoso, tenho 
medo. Por que desejo um alvo, a perfeição? Eis um fato: Eu tenho 
medo. Por que não sou capaz de libertar-me do medo? Mas nós 
queremos um ideal. A perfeição é uma mera fuga ao "imperfeito". 
Viver sem alvos significa viver com “o que é" e levar a efeito uma 
mudança radical em "o que é n . Tai mudança não é possível se ten- 
des um princípio, um escopo, uma imagem da perfeição. Isto é 
“romantismo", não tem nada de espiritual. Espiritual é ver o fato 
tal como é, e transformá-ío. Se sou violento devo tornar-me cônscio 
desse fato, conhecedor de sua natureza e estrutura, de seu porquê. 
E o próprio ato de vê-lo é seu imediato findar. 

INTERROGANTE: Pode a mudança ser, em si, um alvo? 

KRISHNAMURTI: Não, senhor. Vede, quando tendes uma dor de 
dentes, quereis pôr-lhe fim, não é verdade? Não tendes a idéia ou 
imagem do bem-estar perfeito, da total ausência da dor. Estais sen- 
tindo dor: este, e não o alvo, é o fator principal. 

12 de setembro de 1968. 

TRÊS QUESTÕES FUNDAMENTAIS 
(3) 

Uma das nossas grandes dificuldades resulta de nunca fazermos 
perguntas básicas. E, se as fazemos, contamos que outro a elas res- 
ponda. Jamais encontramos por nós mesmos a completa solução de 
um problema. Mas talvez tenhamos tempo, ^esta tarde, para pegar 
três ou quatro problemas e ver se somos capazes de resolvê-íos di- 
retamente, sem dependermos do orador nem de ninguém mais. Em 
geral aceitamos muito prontamente a autoridade, porque supomos ser 
esse o caminho mais fácil. Mas, observando-se bem, pode-se ver que 
a autoridade, nessas coisas, causa enorme confusão e contradição. 
Portanto, não há aqui nenhuma autoridade para dizer-nos o que deve- 
mos fazer ou como pensar a respeito de questões fundamentais. 
Tendemos a passá-las por alto ou não dar-lhes atenção, a não nos 
deixar preocupar multo por elas. Eu tentarei provocar as perguntas 
essenciais e nelas penetrar. A vós incumbe trabalhar tanto quanto o 
orador, examinar a fundo as questões, sem aceitar, nem momentanea- 
mente, a autoridade deste orador. 

Para mim, há em nossa vida três problemas fundamentais que, 
se pudéssemos resolver ou explorar, graças a essa própria exploração 
teríamos talvez a solução das confusões e aflições do mundo. Talvez 
então eles percam a enorme importância que agora lhes estamos 
dando. Estes três problemas são: que é viver, que é a morte, e que 
é a vida? Cabe-nos aprofundá-los e por nós mesmos resolvê-los, 
porquanto constituem um grande desafio a que de maneira nenhuma 
podemos furtar-nos. Temos de examiná-los com toda a seriedade. 
Neste exame deve prevalecer, antes de tudo, uma certa liberdade 
para explorar, investigar, porque, do contrário, não nos será possível 
ver ou descobrir onde se encontra a verdade. Não podemos ter 
teorias ou ideologias. Para descobrir a verdade relativa a essas ques- 
tões necessitamos estar livres para olhar, observar e investigar. De 
outro modo, estaremos meramente percorrendo a senda da tradição, 

da autoridade, da obediência, que, a nenhum respeito, resolveram 
os problemas de nossa vida. 

Assim — que é viver? Que significa viver? Para descobrirmos 
o seu significado temos de examinar o que realmente é viver. Se 
dizemos que viver deve ser isto ou aquilo, trata-se então meramen- 
te de uma suposição, de uma teoria. Já, se pudéssemos olhar o que 
nossa vida é realmente, a vida que vivemos cada dia, entra ano sai 
ano, se pudéssemos vê-la tal como efetivamente é, estaríamos en- 
tão em condições de enfrentá-la, de “atracar-nos” com efa. Mas, se 
dissermos "ela deve ser assim”, ou pensarmos segundo certas con- 
dições, princípios ou ideologias, nesse caso estaremos desperdiçando 
o nosso tempo. Se, entretanto, pudermos oihar nossa vida tal como 
é e não como gostaríamos que fosse, talvez então eia possa ser 
fundamentalmente alterada. Observando o que ela é, pode-se ver 
que estamos no encalço do prazer. Para nós, o prazer é uma das 
coisas mais importantes da vida, uma coisa quase essencial. E é o 
prazer o que quase todos nós estamos buscando. Nossos valores 
morais, éticos, nossas leis interiores, baseiam-se todos neste princí- 
pio do prazer. E, quando há prazer, quando o estamos buscando como 
a mais alta forma de existência, haverá então, não só medo, mas 
também tristeza. Nossa vida está concentrada na busca do prazer 
(eia o está, hoje) e não estamos condenando este fato; estamos me- 
ramente a olhá-lo, a observá-lo, a investigar por que razão o homem 
busca incessantemente o prazer. 

Que é o prazer? Esta pergunta deve ser respondida por cada 
um de nós, e devemos também descobrir por que buscamos o prazer, 
mas sem dizermos que não deveríamos buscá-lo ou que ele deve ser 
suprimido ou controlado. Que é o prazer? Por que devemos ou não 
devemos buscá-lo? Temos, pois, aí, três questões. Nossos valores 
estão baseados no prazer. E por que razão se tornou ele uma coisa 
tão urgente, tão imperiosa? Que é o prazer? (Existe o prazer físico, 
gozar boa saúde, o prazer sexual, o prazer de realizar algo impor- 
tante, ter sucesso, ser famoso. Tende a bondade de observar-vos, e 
não ficar meramente a ouvir o orador. Observai como vossa mente 
invariavelmente se dirige ao prazer.) Aceitamo-lo como uma parte 
de nossa vida. Por que razão se tornou o prazer uma coisa de tão 
subida importância? A vida, como sabeis, é uma série de experiên- 
cias. A todas as horas, estamos tendo experiências, e evitamos a que 
causa dor, ou a ela resistimos. E a experiência que nos causa prazer, 
essa nós buscamos tenazmente, ardorosamente. Que é o prazer? 
Como se origina ele? Vedes o poente e, ao vê-lo, sentis um grande 
deleite. Vós o experimentais, e essa experiência deixa uma "me- 

mória". Foi uma experiência encantadora e aprazível o assistir àquele 
pôr-do-sol, por cima dos montes, com as nuvens todo iluminadas. 
Essa experiência deixa uma imagem de prazer; no dia seguinte, de- 
sejareis senti-lo de novo. Porém, não se trata apenas do prazer que 
se experimenta observando o entardecer, mas também do prazer 
que se experimenta sexualmente; quereis repeti-lo. Essa repetição se 
verifica, como se pode notar, quando o pensamento “pensa” naquele 
prazer. Assististes àquele ocaso e isso vos deu prazer; o pensamen- 
to “pensa” nesse prazer e lhe dá vitalidade, continuidade. O mesmo 
em relação ao sexo, o mesmo em relação a outras formas de prazer 
físico e psicológico. O pensamento “pensa” ou cria a imagem desses 
prazeres e nela contínua a pensar, perseverantemente. E o pensa- 
mento também, como se pode observar, gera medo. Tenho medo do 
que irá acontecer amanhã, tenho medo de que sejam descobertas 
coisas que pratiquei há anos, de pensar no que acontecerá no fu- 
turo e no que aconteceu no passado — coisas de que não gosto, de 
que me envergonho; isso gera medo. 

O pensamento, pois, cria e dá continuidade ao prazer e dá ainda 
continuidade ao temor. Este é um fato óbvio. O pensar, por conse- 
guinte, gera o sofrimento, atrai o sofrimento, e também busca o 
prazer. Assim, a nossa vida — a que vivemos todos os dias, inde- 
pendentemente de teorias, independentemente das religiões a que 
pertencemos, das ideologias — nossa vida é uma luta constante en- 
tre estas duas coisas — o prazer e o medo. E nossa vida, conforme 
a observamos, está cheia de aflições, não só as causadas fisicamen- 
te pela dor, mas também as que são geradas psicologicamente, in- 
teriormente. Nossa vida, pois, tal como é, é batalha entre o prazer, 
o temor e o sofrimento. Psicologicamente, interiormente, nossa vida 
é um conflito, uma luta que se expressa exteriormente como socie- 
dade. Nossa vida atual é constante contradição, dor e tristeza, com 
fortuitos clarões de alegria. 

E assim, perguntamos — e espero também o pergunteis a, vós 
mesmos — se essa vida, com seu ódio, seu ciúme, sua inveja, sua 
ambição e avidez, pode ter fim, se pode ser transformada numa vida 
diferente, de diferente dimensão. Pode um homem morrer para todo 
o passado? Porque — observando bem — vê-se que o prazer se encon- 
tra no passado ou no futuro. O momento de prazer é traduzido em 
função do passado ou do amanhã. Não sei se alguma vez observastes 
isso. E perguntamos a nós mesmos, seriamente, se podemos viver 
uma vida em que não haja conflito nenhum, nenhum conflito entre o 
prazer e o medo. Isso não significa que não haja prazer quando se 
vê uma coisa bela — o pôr-do-sol, uma nuvem, um belo rosto, 

uma árvore ao luar. Há um grande deleite em ver tais coisas; tais 
experiências não podem ser negadas. Mas, o pensamento entra em 
cena e "diz": "Que beleza foi aquilo, quero-o de novo!” Por conse- 
guinte, fica pensando naquele deleite, tal com fez em relação à dor 
e à tristeza. 

A questão, pois, é se o pensamento, que dá continuidade à dor 
e ao prazer, pode cessar de nutrir o passado e o futuro como prazer, 
dor ou medo. Estou-me fazendo claro? 

Perguntamos qual era a função do pensamento. O pensamento 
tem realidade, o pensamento deve funcionar? Em todo o campo tec- 
nológico, em todas as invenções o pensamento é de imensa impor- 
tância. Quanto mais claramente, lógica e equilibradamente pensa- 
mos, tanto maior se torna a importância do pensamento. Sem ele, não 
poderíamos achar o caminho de casa, não poderíamos ir ao nosso 
escritório; todo o saber científico acumulado acabaria se não exer- 
cêssemos o pensamento. Mas, tem o pensamento alguma outra fun- 
ção? Entendeis esta pergunta? Sei que tenho de pensar para vos 
dizer alguma coisa; para aprender uma língua tenho de pensar, de 
acumular vocábulos, regras de gramática, etc., a fim de servir-me 
do pensamento como meio de expressão. O pensamento é necessá- 
rio. Mas, psicologicamente, interiormente, há lugar para o pensa- 
mento? Vede, por favor, que esta é uma questão muito séria. Por que 
deve o pensamento interferir ou dar continuidade a uma experiência 
deleitávei? Vistes ontem aquele ocaso, uma coisa imponente — co- 
res maravilhosas, vitalidade, beleza! Vistes — e isso basta. Mas, 
por que deve o pensamento ingerir-se, "pensar" nessa coisa e con- 
vertê-la num prazer que desejais se repita amanhã? Ao olhardes no 
dia seguinte o poente, vosso desejo é repetir o prazer da véspera 
e, portanto, não o estais olhando. O que olhais é a lembrança do cre- 
púsculo, de ontem, que tanto vos deleitou. A mesma coisa, exata- 
mente, se pode dizer em relação ao sexo, em relação a toda e qual- 
quer forma de prazer. 

E tem o pensamento, que gera medo e sofrimento, e também 
prazer, tem o pensamento alguma função interior, psicológica? O 
pensamento é indispensável às funções de nossa vida. Mas, interior- 
mente, psicologicamente, o pensamento (que gera medo, sofrimento, 
e esta constante busca do prazer, que traz suas peculiares frustra- 
ções, desenganos, cólera, ciúme, inveja) não tem função alguma; não 
há lugar para ele, nesse nível, nessa dimensão. Bem desejável seria 
só exercermos o pensamento quando absolutamente necessário e, 
nas demais horas, tratarmos de olhar, de observar, de tal maneira 
que o pensamento, que é sempre velho e nos está agora impedindo 

a real experiência do olhar, cessasse de funcionar e nos fosse pos- 
sível viver a pleno aquele momento que é sempre “o agora”: 

Eis a questão que ora desejo considerar convosco: Que é a 
morte? Por que temos tanto medo de morrer? Todos tememos morrer. 
A ciência poderá inventar algum medicamento ou uma nova terapêuti- 
ca que dê ao homem a possibilidade de prolongar sua lastimosa e 
desgraçada vida. Mas, no fim, lá estará sempre a morte. No presente, 
dela não se fala, porque todos lhe têm horror. E nós queremos des- 
cobrir a verdade acerca da morte, o fato relativo à morte; descobrir 
por que o pensamento criou essa imagem de medo. Vede a vossa vida, 
vida tão feia, confusa e contraditória, com suas guerras, destruições 
e ódio. Mesmo o homem dotado de grandes talentos e capacidades, 
que lhe proporcionam grande prazer, está sujeito a grandes dores. 
Tal é a nossa vida; a ela estamos ajustados. E o pensamento “diz" 
entre si: “Não sei o que é a morte; quero-a o mais longe possível de 
mim." Tendo horror ao desconhecido, inventa uma infinidade de teo- 
rias. Todo o mundo asiático crê na reencarnação, isto é, no renascer, 
com todas as complicadas teorias que essa idéia inspira. E o mundo 
cristão, por sua vez, tem seus próprios meios de fuga à realidade 
da morte. O medo à morte é criado pelo pensamento, porque o pen- 
samento “diz”: “Só conheço o passado, o conhecido, a vida cotidiana, 
as “memórias" ou lembranças de coisas, de prazeres e de dores. Só 
conheço o passado, o velho. Não sei o que acontecerá amanhã ou 
daqui a trinta anos. Por isso, mantenho o mais distanciada possível a 
idéia da morte." Por essa razão, o pensamento se fragmenta. 

Assim, é possível descobrir o que significa, psicologicamente, 
morrer? O organismo físico, sujeito a constante desgaste, constante 
tensão, etc., a doenças, acidentes, velhice, inevitavelmente se dete- 
riorará. E que coisa estranha, o medo que temos da velhice! Temo-lo, 
não é verdade? E, envelhecendo, como nos tornamos feios, e co- 
brimo-nos de jóias e adornamo-nos com fantásticos penteados, ten- 
tando aparentar Juventude. Isso é muito triste, porque significa que 
nunca vivemos, não sabemos sequer o que é viver, e por isso a ve- 
lhice nos aterra. É posível, pois, morrermos psicologicamente pára 
tudo o que conhecemos? É isso o que acontecerá quando morrermos 
fisicamente. Deixaremos nossa família, nossas realizações e sabe 
Deus o que mais. Não se pode argumentar com a morte, pedir-lhe 
um adiamento da hora fatal. Podemos tentar fugir-lhe por meio do 
pensamento, dizendo: “viverei uma vida futura, ressuscitarei, serei 
isto ou aquilo". Isso são puras teorias, fantásticos conceitos psicoló- 
gicos, sem nenhuma realidade. 

Mas, é possível morrermos psicologicamente para todas as coi- 
sas conhecidas? Já tentastes fazê-lo, morrer para um prazer, morrer 
para uma determinada experiência que vos é muito cara, largá-la da 
mão, facilmente, alegremente, sem nenhuma luta? Isso, salvo se feito 
sem nenhum esforço, seria uma coisa mórbida, uma espécie de ma- 
soquismo. Mas, se o não fizerdes, não sabereis o que é viver. Olhai 
em que estado de confusão pusemos a vida: fragmentação, malevo- 
lência, inimizade, violência, etc. Mas se, interiormente, pudéssemos 
morrer para todo apego à família, à posição, às coisas realizadas, 
ficaríamos então livres do conhecido, que é sempre o passado, que 
se projeta e se torna futuro, mas continua a ser passado. Se puder- 
mos morrer para o conhecido, saberemos então, talvez, o que signi- 
fica viver. O viver se tornará uma coisa inteiramente nova; será 
então possível criar uma sociedade de nova espécie, diferente desta 
sociedade homicida, cheia de injustiça, de guerras e de imoralidade. 
Porque, morrendo para o conhecido, sabereis o que é o amor. O 
amor não é essa coisa que agora conhecemos — ciumenta, invejosa, 
desconfiada, integrante, sequiosa de prazer. Quando há o verdadeiro 
amor, o prazer é coisa inteiramente diferente. Mas, se pomos em 
primeiro iugar o prazer, o amor “foge pela janela”. E, sem essa base 
do amcr, sem se morrer a cada minuto para as coisas que se acumu- 
laram, não se pode viver uma vida virtuosa. É esta a base correta. 
Estamos, então, aptos a ingressar numa dimensão bem diversa. A 
meditação tem então um significado todo diferente. Porque medita- 
ção não é nenhuma dessas fantasias de que se fala; meditação é 
esvaziar a mente do conhecido, para que ela seja nova, pura, ino- 
cente, viva; livre das malhas do conhecido, mas servindo-se do co- 
nhecido como instrumento, e não por o considerar importante. En- 
tão, nesse vazio, a verdade tem um significado completamente novo 
— não é um produto da mente, do intelecto. Agora, já que é limitado 
o nosso tempo, podemos conversar sobre o que acabamos de dizer; 
ou, se desejardes, podeis fazer perguntas sobre outros assuntos. 

INTERROGANTE: Temo a morte porque amo a vida. 

KRiSHNAMURTi: “Temo a morte porque amo a vida.” Comen- 
temos essa asserção. Amais a vida? Deveras? Há o soldado que luta 
no Vietnã, e na Tcheco-Eslováquia os tchecos estão sendo oprimidos, 
privados da liberdade. O homem que se acha no campo de batalha 
podo ser morto a qualquer momento. E os que, como vós, têm de 
froqüontnr um escritório todos os dias, durante trinta, quarenta anos 
quanto tédio têm de suportar! Esta vida de conflito e aflição, é isso 
quo amais? Amnr essa medonha desordem que estamos causando! 

Não digais que não há desordem; tendes porventura uma residência 
confortável, dinheiro em abundância, ou estais a lutar por um empre- 
go, a competir, a pelejar, a invejar — é a isso que chamais amor? 
Se amásseis a vida, seríeis capaz de odiar alguém, seríeis capaz de 
destruir outra vida? Ora, por certo, quando dizemos “amo a vida”, 
nós mesmos, que o dizemos, somos essa mixórdia de prazer, dor e 
sofrimento que chamamos “a vida”. É isso o que ela é. 

Oxalá pudesse a mente libertar-se de tudo isso, ficar livre, va- 
zia do conhecido! Em geral tememos estar sós; queremos viver ro- 
deados de gente; temos medo de andar sós, de ser nós mesmos, 
de estar em íntima solidão — porque poderíamos ver-nos tais como 
somos e nos assustarmos. Por isso nos cercamos de coisas tais como 
televisão, telefone, e sabe Deus o que mais — de deuses, de es- 
crituras, de livros, de conhecimentos de uma multidão de coisas real- 
mente sem nenhuma importância. E é a isso que chamamos vida, a 
isso que estamos apegados. 

Temos naturaímente medo da morte, não porque amamos, mas 
porque têm de acabar nossas insignificantes ambições, nossas ativi- 
dades e divertimentos. E esse é o lado triste de nossa existência — 
o enorme medo que sentimos. Por causa desse medo, inventamos 
atraentes teorias, porque jamais consideramos que viver significa 
morrer. Viver plena e completamente equivale a morrer para todos 
esses absurdos. 

1NTERROGANTE: Pode-se justificar o medo? 

KRISHNAMURTI: Não entendo bem esta pergunta. Os ouvintes 
a entendem? Estais dizendo que a autoproteção, no plano físico, é ne- 
cessária? Uma pessoa não se joga sob as rodas de um ônibus, a 
não ser que seja um tanto “excêntrica”. Pode-se justificar o medo? 
Não sei que necessidade há de justificá-lo. Se fiz uma certa coisa 
e não desejo que alguém o saiba, há medo. Não desejo que saibais 
que anteriormente cometi alguma grande asneira ou pratiquei algum 
ato vergonhoso. Ora, se o souberdes, que importa isso? Por que devo 
ter medo do que pensais? É porque tenho uma imagem de mim 
mesmo, uma imagem virtuosa, muito nobre, uma imagem própria ma- 
ravilhosa. E não desejo que outro saiba que essa imagem não é tal 
como eu penso que ela é. 

Perguntar é relativamente fácil. Mas, formular corretamente uma 
pergunta é sobremodo difícil. Entretanto, isso não significa que de- 
sejo impedir-vos de interrogar-me. Só podeis fazer uma pergunta cor- 
reta após investigardes estas relevantes questões, ou seja depois de 
tê-las examinado com inteira atenção. Então, fazendo a pergunta 

correta, tereis a exata resposta, e nem mesmo é necessário apre- 
sentá-la. Mas, todos nós devemos fazer perguntas, não só a respeito 
do governo, das relações conjugais, etc., mas também perguntas de 
vital significação, como, por exemplo “Que são relações”? Já alguma 
vez a fizestes? Eu a faço agora. Que são relações, não só com vossa 
esposa ou marido, mas também com vosso próximo, com a socie- 
dade? Que são relações? Vamos examinar esta questão? Desejais 
fazê-lo? Tendes certeza de que isso não causará muita perturbação? 
Causará, sim senhor, e vou prová-lo neste minuto. 

Que são relações? Qual a relação entre as estrelas e vós? Não 
estou aludindo a coisa de astrologia; refiro-me às estrelas, simples- 
mente. Qual a relação entre vós e a nuvem que vedes por uma bela 
tarde, toda cheia de luz? Qual a relação entre vós e vossa esposa, 
e vosso próximo? Relacionai-vos com vossa esposa? Entre aquela 
nuvem e vós há uma relação, porque já vistes muitas nuvens e tendes 
a memória delas, a palavra. Mas, quando dizeis “esta é minha mulher", 
“este é meu marido" — qual a relação existente com ela ou ele? 
Vós tendes uma imagem de vossa esposa, e ela tem uma imagem 
de vós. O marido formou, no decurso de anos, uma imagem da ee- 
posa — com as respectivas associações de prazer, sexo, conforto, 
aborrecimentos, avidez, importunações, etc. Há relação entre as duas 
imagens, a que tendes de vossa esposa, e a que ela tem de vós. 
A relação é entre essas duas imagens. Eis o que chamais relações. 
Esse relacionamento gera ansiedade, temor, ciúme, medo da soli- 
dão, medo de perder o companheiro. Assim, consolidamos iegalmen- 
te esse estado de relação, e ele se torna altamente respeitável. E, 
ao olhardes uma nuvem, uma árvore, uma linda flor, as olhais com 
as imagens que tendes da flor. da nuvem, da árvore. 

Pois bem; estamos realmente em relação uns com os outros? Es- 
tar em relação significa estar em contato. Podeis estar em contato 
sexualmente, fisicamente, mas isso não constitui um estado de rela- 
ção. Estamos falando de relações nas quais não haja imagens entre 
vós e outrem. Não sei se alguma vez experimentastes tal coisa. Ex- 
perimentai-a. Ficai sem nenhuma imagem de vossa esposa, de vosso 
marido, de vosso vizinho, de outro qualquer; sem a imagem, o sím- 
bolo, a memória de ontem, do que vossa esposa vos disse, do que 
a ela dissestes, de suas importunações, etc., etc. Tiradas todas essas 
coisas, há possibilidade de relações corretas. Porque, em tal estado 
de relação, tudo é novo; as relações já nada têm com o passado 
morto. 

1NTERROGANTE: Que se sente após a morte? 

KRISHNAMURTI: 0 interrogante deseja saber quaf é a minha 
idéia, minha opinião, o que eu penso que acontece ao morrermos. 
Não é isto? Desconfio que não acompanhastes o que estive dizendo. 
Senhor, por não sabermos o que é viver, queremos saber o que é 
morrer e o que acontece depois da morte. Nós não sabemos viver. 
Quando soubermos viver, saberemos morrer. Porque, então, viver é 
morrer, e de outra maneira não se pode viver. Sentir é, com efeito, 
um fato real. Sentir cólera, sentir intensamente, é uma coisa efetiva, 
presente. Mas, que acontece? Encolerizo-me, há um estado a que 
chamo "cólera". Prestai atenção a isto, por favor: a própria palavra 
"cólera" relaciona-se com o passado; reconheceis esse estado como 
de " cólera" e lhe dais esse nome, porque ]á o experimentastes antes. 
Assim, ao lhe chamardes “cólera", o estais olhando com a memória 
de outras ocasiões de ira. Podeis olhar o momentâneo sentimento 
sem o classificar, sem denominá-lo? Que acontece após a morte? 
— eis a pergunta. Podemos nutrir opiniões, dizer "isto é o que eu 
penso, isso é o que pensais". De um lado, temos a opinião Intelec- 
tual, racional, materialista: “A morte é o fim; quando morremos, mor- 
remos.” E, a outro lado, temos os chamados espiritualistas com suas 
idéias, opiniões, crenças. Mas, nem o materialista que diz: “Vive- 
se a vida e quando a gente morre, morre; está tudo acabado", nem 
aquele que diz: "Há uma coisa maravilhosa após a morte" — nem um 
nem outro está dando a verdade, porém meras opiniões. Nesta ma- 
téria, para descobrir a verdade não deveis pertencer nem aos crentes, 
nem aos “explicadores" puramente intelectuais, racionalistas; a mente 
deve ser muito mais sutil, muito mais sensível, para descobrir a 
realidade. E, descobrindo-a, sabe o que significa viver, porque morre 
todos os dias. 

INTERROGANTE: Que valor têm para vós as ciências sociais e a 
compreensão do homem? 

KRISHNAMURTI: Se tendes o laboratório, inteirinho, dentro de vós 
mesmo, por que quereis "estudar o homem"? Estudai-vos, o ente 
humano total, toda a complexidade, e beleza, e sensibilidade em vós 
existentes. Por que desejais estudar o que outro diz a respeito do 
homem? Resumis a humanidade. E, em relação com outrem, cons- 
tituís a sociedade. Criastes este mundo terrível, medonho, que tão 
ínsignificativo se tornou que em toda parte a juventude se está revol- 
tando contra ele. Para mim, é uma vida tão sem significação, esta! 
A sociedade que o homem criou é o produto de suas exigências, de 
seus impulsos, de seus Instintos, ambições, avidez, inveja. Pensais 
que, lendo os livros escritos sobre o homem, mergulhando em estudos 
sociais, vos compreendereis? Não seria muito mais simples come- 

çardes em vós mesmo? Olhai-vos, sem condenação ou Justificação; 
olhai, observai, simplesmente, vossa maneira de falar, de argumentar, 
de discutir; observai todos os vossos oreconceitos e ambições, Olhai 
tudo isso com simplicidade. Em vosso interior tendes toda a história 
humana, e, se primeiramente não vos conhecerdes, não tereis nenhu- 
ma possibilidade de criar uma nova ordem social. Não vos estou 
"proibindo” de estudar a sociedade e o que outros escreveram sobre 
o homem, etc. Eu, pessoalmente, nunca estudei nada disso, pois a 
coisa está, toda inteira, dentro de nós. Olhai-vos, senhor, e muito 
aprendereis. 

INTERROGANTE: Os entes humanos são iguais? 

KRISHNAMURTI: Nós somos iguais? Vós sois muito talentoso, e 
eu não sou. Sois um ente sensível, fora do comum. Sabeis pensar 
claramente, recionalmente, com beleza; e eu sou preconceituoso, cheio 
de idiossincrasias, temperamental, o que me são empecilhos. Tendes 
um emprego melhor, um maior carro, uma casa mais bela. Vosso 
cérebro é mais poderoso. Existe igualdade? Poderá haver iguais 
oportunidades. Mas, por que comparamos, por que digo, de mim para 
mim: “Sois mais inteligente do que eu" — Por quê? Por que vos in- 
vejo? Devido à comparação? Obviamente, somos condicionados pa- 
ra comparar desde crianças, na escola, nos negócios, na igreja, onde 
existe o sistema hierárquico, a escala que vai do humilde vigário ao 
Papa, etc., mas, por que ó que vivemos sempre a comparar? Pode 
a mente deixar de comparar? Então, sim, haveria uma possibilidade de 
igualdade; mas, não como somos agora. 

INTERROGANTE: Dissestes que viver é morrer: mas que acontece 
à alma após a morte? 

KRISHNAMURTI: Primeiro: viver é morrer. Consideremos isto, 
Estou vivendo se vivo sempre no passado? Quando o passado está 
sempre presente, com suas memórias, suas lembranças — isso é vi- 
ver? Ou, ao viver no futuro, ao pensar no que eu "deveria ser", no 
que devo "vir a ser", na posição que terei, ou no poder maior que 
tive antes, ou terei posteriormente — estou na realidade vivendo? Só 
estou vivendo quando estou morrendo para o passado e para o futuro. 
Tenho então a possibilidade de viver completamente no presente, quer 
dizer, de viver na eternidade. E, se vivo na eternidade, existe morte? 
Temos esta divisão de alma e espírito, e há o mundo comunista, edu- 
cado com ideologias diferentes, diversamente condicionado; lá, não se 
crê em espírito e corpo, ou em espírito e alma. Vós credes porque 

para Isso fostes preparados. Existe alma? Prestai, por favor, aten- 
ção; não digais qie Isto é absurdo: olhai-o, examinai-o! “Alma” — 
que significa isto? Uma coisa permanente, a que algo se pode acres- 
centar ou tirar, mas de natureza perdurável? Existe, como dizem os 
hinduístas e demais asiáticos, “Atman”? No Oriente, todos estão 
condicionados por esta palavra, e aqui vos condiciona a palavra "alma". 
Cumpre-nos examinar esta matéria com atenção, sem medo, inda- 
gando, descobrindo a verdade respectiva — e isso significa ser 
livre de condicionamento, capaz de olhar, Existe em vós um es- 
tado contínuo, uma entidade permanente chamada "alma", “es- 
pírito"? Existe alguma coisa permanente? Ou o pensamento é que 
dá permanência a uma certa coisa? Vós dais continuidade ao pas- 
sado com o pensardes nele — o passado, ou vossa esposa, vosso 
marido, vossa casa, qualquer coisa. E essa coisa se torna perma- 
nente. O pensamento é capaz de perpetuar as coisas. Não sei se 
alguma vez já tivestes a idéia de colocar sobre vossa lareira um pe- 
daço de pau e diante dele depositar todos os dias uma flor. Experi- 
mentai fazê-lo, por uns dias, fazê-lo com muita devoção, muito res- 
peito àquele pedaço de pau, para verdes como ele se torna de imensa 
Importância. Assim também nossos deuses, nossas almas, se a seu 
respeito pensamos. Vivemos no meio de gente cheia de alma e de 
espírito. Os hinduístas, com seu “Atman", são verdadeiros materia- 
listas, porque endeusaram o pensamento, que é sempre velho, nunca 
novo; o pensamento é a reação da memória, e “memória" são as cin- 
zas frias de ontem. 

Quando pudermos olhar, sem separação, a alma, o espírito, o 
“Atman", poderemos então olhar o todo da vida sem fragmentá-lo, 
sem secioná-lo. Vereis então que há uma beleza que transcende o 
tempo e o pensamento. 

INTERROGANTE: Tenho razão em dizer que a vida é eterna, 
que a morte não existe? 

KRISHNAMURTI: A morte não existe? Vós morrereis, um belo 
dia. Podeis esperar que isso não aconteça, mas todos nós temos de 
morrer. E dizeis que a morte não existe! No Vietnã, há gente que 
está sendo morta. Dizem eles que a morte não existe? Quando 
morre meu filho, meu irmão, minha irmã, digo então que a vida é 
eterna? A vida, esta vida? A vida que consiste em freqüentar um 
escritório todos os dias? Luta, preconceito, ódio, inveja, agonia, 
sofrimento — desejais que isso seja eterno? Nós só conhecemos 
essas coisas — a não ser que para todas elas morramos, não teo- 
ricamente, mas realmente pqnhamos fim a uma determinada ambição, 

à nossa avidez, inveja, preconceito ou opinião. Se o fizerdes, podereis 
ir muito longe, vossa mente poderá viajar infinitamente. Mas, viver- 
mos a vida que estamos vivendo, e chamá-la eterna, isso só nos 
levará à divisão, à hipocrisia, a um estado de irrealidade. 

INTERROGANTE: O homem sabe que tem de morrer; por que 
então não pôr logo fim a “isto”, soltar-se da sociedade? 

KRISHNAMURTI: Quereis dizer que, como terei de morrer da- 

qui a uns dez ou quinze anos, tanto faz que eu me suicide agora 
mesmo? E, posso soltar-me da sociedade? Vós podeis? Sabeis o que 
significa estar fora da sociedade? Significa não ter nenhuma função, 
nenhuma posição na sociedade, negar completamente a moral social 
com seus ódios e invejas; negar a sociedade e ficar fora dela sig- 
nifica não odiar, não ter preconceitos. Então, sim, poderemos estar 
fora da sociedade, dela estaremos livres. Sois capaz disso? Senhor, 
morrer para o passado não significa suicidar-se. Se morrerdes para 
vossas futilidades, vossa brutalidade e arrogância, vosso orgulho e 
violência, se isso fizerdes, estareis imediatamente fora da sociedade, 
psicologicamente, interiormente, ainda que continueis a usar gravatas 
e calças e a freqüentar um escritório para ganhar dinheiro. Fazendo-o, 
já não pertencereis a essa estrutura. 

INTERROGANTE: Conheço os efeitos do passado, mas continuo 

do mesmo modo. 

KRISHNAMURTI: Sim? Conheceis o passado? Sabeis o que 

nele está implicado? Vós — não vossa pessoa, minha senhora, estou 
falando impessoalmente — vós sois casada, tendes um marido, sobre 
ele tendes uma imagem, e ele a tem a respeito de vós; podeis que- 
brar essa imagem, extingui-la imediatamente? Não o podeis, pois es- 
tais apegada a essa imagem; ficaríeis inteiramente transtornada se 
não tivésseis imagem de espécie alguma. Tendes a lembrança de um 
certo prazer, e essa lembrança vos acompanha pela vida, e vós sois 
ela, fazeis parte dela. E, assim, perguntais por que razão, embora 
saibais que o passado, em parte, é estúpido, continuais com ele, 
continuais a conservá-lo. é por temerdes abandonar uma certa coisa, 
por temerdes ficar só, porque sois apenas a memória do que fostes. 
Atentai para isto: o que agora sois é a soma de vossas “memórias", 
e sem essas memórias não existis. Que sois vós? Não sei se alguma 
vez já vos olhastes. Se o fizestes, tereis visto que sois um feixe de 
recordações do passado, ou do que esperais ser no futuro, dele 
projetado. Nada mais sois. Desculpai-me o dizê-lo tão francamente, 
Mas, se simplesmente afirmais que não morrereis ou que rporrereis 

ou ainda que alijareis o passado e o futuro, em que ficais? Eis a 
verdadeira questão. Deste modo, que sois na realidade? Para o des- 
cobrirdes, tendes de efetivamente morrer para o passado e para o 
futuro. Então, por vós mesma o descobríreis, naquela região onde não 
impera o pensamento, naquele estado mental que é constantemente 
novo. 

17 de setembro de
PALESTRAS E DEBATES EM MORCELO 
PORTO RICO 

A COMPREENSÃO NÃO É UM PROCESSO MENTAL 

(D 

Não sei se olhastes para aqueles morros, pontilhados de vivendas 
e de aspecto tranqüilo e belo. E aqui viestes com o desejo de ser 
ensinados, de ouvir discursos, de ser instruídos, doutrinados em 
certas idéias. Esperais ser persuadidos e devo dizer-vos que nada 
vou fazer nesse sentido. Antes da reunião, estáveis aqui sentados, 
numa quietude bem fora do natural; alguém deve ter-vos dito “Man- 
tende-vos quietos, em silêncio, esta é uma reunião séria ", e imedia- 
tamente vos aquietastes. Antes, da casa em que estou hospedado, 
estive ouvindo o barulho que então se fazia e, depois daquela ordem, 
subitamente silenciastes. Isso é terrível! Precisais que vos digam o 
que deveis fazer. Se fôsseis pessoas verdadeiramente sérias, have- 
ríeis de ficar quietos, por alguns momentos, sem necessidade de 
alguém vos dizer que deveis ficar sossegados, sem aplaudir, sem 
fazer isto ou aquilo. Quando somos naturais e refletidos, instintiva- 
mente nos aquietamos diante daqueles montes, daquelas formosas 
nuvens, daquele céu azul. Assim, não vos deixeis persuadir, não vos 
limiteis a ouvir discursos, não desejeis ser doutrinados numa nova 
ordem de idéias. Em vez disso, conversemos sobre nossos assuntos 
como se fôssemos dois amigos que se encontram para examinar a 
fundo os numerosos problemas humanos; dois amigos que não pre- 
tendem convencer um ao outro acerca de determinado ponto de 
vista, ou qualquer deles persuadir o outro de que só ele tem razão. 
Deve isto ficar claro: que sois livres para examinar, livres para di- 
zerdes o que vos aprouver, livres, não só para observar os montes e 
as nuvens e o céu azul, mas também para olhardes a vós mesmos 
com honestidade. Do contrário, sois hipócritas, pensando uma coisa 
e sentindo outra, pondo uma máscara de silêncio ou de seriedade, ou 
afetando coisas que não sentis absoiutamente. 

Desejo examinar certos problemas e, se vos aprouver, poderemos 
explorá-los juntos, ver não só a beleza de cada problema, mas tam- 

bém sua complexidade e f se possível, resolvê-lo. É para isso que 
estamos aqui reunidos. Antes de mais nada, permiti-me dizer-vos: 
nós nos deixamos persuadir muito facilmente; facilmente obedece- 
mos e nos ajustamos. Este é um dos nossos condicionamentos, im- 
posto pela sociedade, pelas sanções religiosas e inibições sociais 
de toda ordem; somos incapazes de, por nós próprios, conhecer 
nossos problemas, os verdadeiros sentimentos ou o grau de clareza 
de nosso pensar; e, dessarte, tornar-nos cônscios de nós mesmos, 
daquilo que somos realmente e não o que outros nos dizem, nem o 
que nos forçaram a pensar a sociedade e as igrejas, em todas as 
partes do mundo; despojar-nos de tudo isso, retirar todas as máscaras 
e capas com que nos cobriram; fazer-nos autoconscientes, tais como 
somos — eis um dos nossos problemas. 

Sabeis o que entendo por “cônscio"? Esta é uma palavra multo 
simples e comum, que significa “estar consciente, ver, observar" 
tudo o que existe fora de nós, as folhas agitadas pelo vento, os 
montes, suas formas, aquelas casas ostentosas, as estradas, que 
sâo como cicatrizes a enfear os montes; observar, simplesmente as 
coisas exteriores. Fazei-o, à medida que formos prosseguindo. Ver 
as cores, as formas das nuvens, aqueles ciprestes, a cor de sua 
folhagem, e aquelas borboletas azuis e amarelas. Tudo observar: as 
pessoas sentadas ao nosso lado, seus casacos, os vestidos e adornos 
das senhoras, as cores, e vossas reações. Observar o exterior, per- 
ceber as coisas externas e, em seguida, se possível, vossas próprias 
reações — por que gostais disto e não gostais daquilo, por que vos 
agrada uma determinada cor ou determinado morro e os contornos 
daqueles montes; observar as próprias reações e descobrir por que 
as tendes; observá-las, apenas, sem dizer: “isto é certo ou errado"; 
observar simplesmente as vossas reações. Isso não é difícil, porque, 
ao olhardes a árvore ou os morros, deles podeis ficar conscientes 
sem nenhum julgamento, porquanto não vos atingem pessoal e pro- 
fundamente. Mas, olhar e observar a vós mesmos e as reações que 
tendes, isso já é muito pessoal, subjetivo, íntimo, e por essa razão 
sois incapazes de olhar-vos com objetividade. 

Este é um dos nossos problemas: olhar o mundo exterior, os 
políticos, seus absurdos, suas inanidades, suas promessas, suas am- 
bições pessoais. Observar todas as coisas que vos circundam e depois 
tornar-vos cônscios de vossas reações, sem julgamento, o que é bas- 
tante difícil. Porque, ao olhardes para qualquer coisa, ao olhardes para 
uma daquelas árvores, instintivamente lhe dais um nome, não é ver- 
dade? Dizeis: “Esta árvore é um cipreste, aquela uma laranjeira, 
aquela outra uma bananeira." O próprio ato de denominar os objetos 

que vedes vos Impede de observá-los. Olhar, observar — fazei isto, 
por favor, enquanto falamos; talvez até o acheis divertido. 

Quando dais nome a uma coisa, a própria palavra atua como 
uma distração da observação. Empregando a palavra "cipreste", estais 
olhando a árvore através da palavra; portanto, não olhais realmente 
a árvore. Estais a olhá-la através da imagem que formastes, e essa 
imagem vos impede de olhar. Do mesmo modo, se procurardes olhar- 
-vos sem nenhuma imagem, isso vos parecerá muito estranho e pro- 
fundamente perturbador. Olhai para vós mesmos ao sentirdes cólera, 
ao sentirdes ciúme; olhai para o sentimento sem lhe dar nome, sem 
o colocardes numa certa categoria. Porque, quando o classificais ou 
denominais, estais olhando para o estado presente, o sentimento 
presente, através da memória, do passado (não sei se me estais se- 
guindo); não estais olhando realmente o sentimento; olhais através 
da memória, acumulada noutras ocasiões em que se apresentaram 
sentimentos análogos. 

Assim, como vemos, nunca estamos em contato com a árvore 
ou com nós mesmos. Está bem claro? Isto é importante, como vereis 
mais adiante com suficiente penetração. A palavra, que é o símbolo, 
a descrição, não é a coisa descrita. A palavra “árvore” não é a árvore 
real e, se nos deixamos enredar na palavra, esta nos impede o íntimo 
contato com a árvore. E se, ao nos contemplarmos (se alguma vez 
o fazemos), dizemos: “Isto é certo ou errado, tenho o direito de sentir 
ciúme ou inveja” — tais alegações obstam ao direto contato com o 
sentimento, resultando daí a separação entre o observador e a coisa 
observada. Compreendeis? Quando tal acontece, há conflito, não é 
verdade? Encolerizo-me; a palavra "cólera" já é uma palavra conde- 
natória e, deste modo, quando digo "sinto cólera", já me separei do 
sentimento a que dei esse nome. E, por causa dessa divisão, surgem 
outras complicações. Vou explicar-vos melhor. Dizendo estou irado, 
exteriorizei a minha ira; portanto, há separação entre o observador 
e a coisa observada. Em virtude dessa separação, condeno a ira. No 
estado de separação há condenação ou justificação e, por conseguin- 
te, conflito; tentais reprimir ou justificar a ira, o rancor. Conseqüen- 
temente, a causa do conflito existente na mente humana é essa divi- 
são entre o observador e a coisa observada. 

E enquanto existe conflito, luta de qualquer espécie, há defor- 
mação mental. 

Eliminar a deformação ou falta de clareza e, por conseguinte, o 
conflito — libertar-se do conflito é não deixar haver nenhuma sepa- 
ração entre o observador e a coisa observada. Desse modo, a mente 

é capaz de olhar as coisas sem nenhuma distância de tempo. Isto 
vos parece “grego”? Quando, referindo-nos a alguém, chamamo-lo 
comunista ou russo, ou, falando sobre o que os russos fizeram na 
Tcheco-Eslováquia, nos irritamos com esse fato ou o justificamos; 
se nós somos o observador e o russo a coisa observada, então a 
nossa ideologia pessoal e a dele impedem-nos de olhar um para o 
outro sem separação. 

Há muita gente que toma L.S.D. Eu nunca tomei esse droga, 
por sentir que isso seria imaturo e infantil. Mas, falando com várias 
pessoas que já o fizeram, verifiquei que o que ocorre é exatamente 
isto: desaparece o espaço entre o observador e a coisa observada; 
daí vê-se a árvore com espantosa clareza, as cores como nunca 
foram vistas; “quimicamente", a pessoa está a mover-se numa dife- 
rente dimensão. E eis por que essa droga se tornou tão popular! Pro- 
porciona uma impetuosidade, um sentimento de extraordinária vita- 
lidade, maior observação; o que se vê é muito mais vivo, bem mais 
intenso, as cores são incríveis. Por não haver conflito, não há sepa- 
ração, a percepção é imediata. Analogamente, ao sermos capazes de 
olharmos com clareza e sem haver separação entre o observador, o 
pensador e os pensamentos observados, vemos então o que real- 
mente é, e, nesse estado, todo conflito desaparece. 

Se pudesse perceber isso, cada um descobriria por si próprio que 
a compreensão não é um processo mental, uma asserção intelectual, 
verbai. 

INTERROGANTE: Podeis identificar-vos com a árvore? Podeis 
Identificar-vos, subjetivamente, com a cólera, etc.? 

KR1SHNAMURTI: Que se entende pela palavra “identificar”? — 
Identificar-me com uma coisa; identificar-me com a índia, com os su- 
cessos que lá se observam, com a pobreza, a corrupção, o medonho 
estado em que se acha aquele infeliz país; identificar-me com a índia, 
tal como vós vos Identificais com esta nação, com o cristianismo ou 
com o que quer que seja? Por que queremos, antes de tudo, identifi- 
car-nos com alguma coisa? Muito Importa considerar isto. Por que 
queremos identificar-nos com “minha esposa”, “minha pátria”, “meu 
Deus", com o que quer que seja? Por quê? 

Em primeiro lugar, por que desejo identificar-me com alguma coi- 
sa? Se não me identifico com meu país, que sucede? Fico um tanto 
desorientado, não? Sinto-me só, sinto-me como um forasterio*. tenho 
um certo medo, vejo-me desprezado, posso perder meu empfégo.' Por 
conseguinte, identifico-me com meu país; isso me dá uma determinada 
vitalidade, alguns meios de resistência e sinto-me integrado no rebq- 

nho. Estar só é bem difícil, porque atrai muitos problemas. Pois bem; 
esse é o processo de identificação com uma coisa externa, o qual, na 
realidade, é a ação interna de identificar-me com uma coisa a fim de 
ter segurança. Essa segurança proporciona uma certa satisfação. 

Pois bem; quando observo aquela árvore, isto é, identificação com 
a árvore? Eu não sou a árvore, é claro; isso seria o cúmulo do ab- 
surdo. Eu não sou aquele porco que vai ali. Observo, olho, o espaço 
entre o observador e a coisa observada desaparece e vejo a coisa 
muito mais intimamente, vejo-a melhor, com mais energia, vitalidade, 
intensidade. Isto não significa que estou identificado com ela. 

INTERROGANTE: Há graus de percebimento? 

KRISHNAMURTl: Não. Ou estais cônscio da árvore, ou não es- 
tais. Damos a esta palavra um extraordinário significado. Eu estou 
cônscio daquela árvore. Ela está ali, e eu aqui. Dela só estou cons- 
ciente quando lhe dou atenção. Mas, posso olhá-la indiferentemente 
e continuar meu caminho. Sejamos bem simples a este respeito. 
Observo o político com suas promessas, sua vaidade e ambição, sua 
ânsia de poder; ele não crê em absolutamente nada do que está di- 
zendo; está todo interessado em si mesmo. Observo-o e vejo o que 
ele é. Se desejo ser como ele, político, nesse caso me identifico 
com ele. Como, no fundo, quase todos nós somos políticos, é muito 
fácil a identificação. Mas, se vejo todos os seus absurdos e artifí- 
cios e as Inanidades que diz, nesse caso não estou em relação com ele. 

INTERROGANTE: A gente torna-se o objeto? 

KRISHNAMURTl: Não. A gente não se torna objeto. Santo Deus! 
Pensai nisso! 

INTERROGANTE: ...o observador e a coisa observada são uma 
só entidade. 

KRISHNAMURTl; Não, senhor, eu não disse que o observador e 
a coisa observada são uma só entidade. O que eu disse foi que, 
quando desaparece o espaço entre o observador e a coisa observada, 
torna-se existente uma dimensão completamente diferente. Eu não 
posso converter-me em árvore. Como ente inteligente, não posso 
tornar-me aquela árvore. Este é, com efeito, um assunto difícil, se- 
nhor, e tendes toda a razão em persistir nessa pergunta, porque, em 
verdade, nós não experimentamos ou adquirimos o sentimento de que 
o observador e a coisa observada são uma só entidade. 

(1) Omitida, por Inaudível, a primeira parte da asserção do Interrogante. (N. do T.) 

INTERROGANTE: Quando não justifico ou condeno, o espaço de- 
saparece. 

KR1SHNAMURTI: Digamos isso de outra maneira, senhor; talvez 
então possais ver mais distintamente, mais intimamente. Se uma 
pessoa é casada, identifica-se com sua mulher ou seu marido; e, en- 
tão, que acontece? Quando vos identificais com vossa esposa, ficais 
sendo eia? 

INTERROGANTE: ...a gente se torna escravo dela. 

KRISHNAMURT1: Eu não sei; desta matéria, vós sabeis mais do 
que eu. Prestai atenção; não digais: “Tornar-me-ei seu escravo, eia 
me domina, ela é isto ou aquilo." Observai, primeiramente. Por que 
me identifico com minha esposa ou com meu marido? Que significa 
isso? 

INTERROGANTE: Necessidade de segurança, ou de prazer. 

KRISHNAMURTI: Considerai isso, diretamente, por um minuto. 
Examinai-o vós mesmo. Quando digo de mim para mim: "Esta é mi- 
nha casa", identifiquei-me com a casa. Ela é minha casa; possuo-a 
legalmente. Mas, por que essa insistência em identificar-me com 
ela? Ao mencionar "Aquela é minha casa”, a casa é mais importante 
do que eu. Os móveis nela existentes são meus móveis. Esses mó- 
veis também representam mais do que eu. Assim, as coisas possuí- 
das importam mais que o possuidor. Eis o que somos. 

Ao dizer este é "meu cavalo", o homem que o monta significa 
menos que o próprio cavalo, tanto em tamanho como em dignidade. 
Não sei se já observastes isso; provavelmente já o fizestes. 

Deste modo, a questão é que ao me identificar com minha mu- 
lher, ou com minha casa, eu o faço porque... não, não o digo; dizeí- 
-me, vós mesmo, por que eu o faço? 

INTERROGANTE: Parecemos mais importantes. 

KRISHNAMURTI: Não, não. Investigai um pouco mais. Acabo 
de dizer que, se possuímos uma coisa — e isso é uma forma de iden- 
tificação — a coisa que possuímos se torna bem mais relevante do 
que nós. Não? Dizei-me então o que pensais — eu posso estar en- 
ganado, minha senhora. Ao me identificar com a bondade dele ou 
dela, essa identificação é o reconhecimento de minha própria falta 
de bondade e de meu desejo de possuí-la. É isso? Então, por que 
razão não me Identifico com ela quando ela me aborrece? Vós vos 
identificais com aquilo que chamais "bom", mas não vos identificais 
com o que chamais "mau”. 

INTERROGANTE: Procuro fixar aquele sentimento... 

KRISHNAMURTI: Vede, senhor, tudo isso implica falta de liberda- 
de, não achais? “Minha família", “minha casa", “minha pátria”, “meu 
Deus", “minha crença". Evidentemente, a identificação com qualquer 
coisa é uma condição de prisioneiro: não dá liberdade para olhar. 
Quando o russo se identifica com seu Governo, ele não pode, de 
modo nenhum, ver o que o seu Governo está fazendo na Tcheco-Eslo- 
váquia. E, identificando-me com minha mulher, não posso ver o que 
ela é. E isso significa que não sou livre. Não quer isso dizer “não 
estar livre dela”, mas sim, que não existe em mim um estado de 
liberdade. 

INTERROGANTE: (Inaudível). 

KRISHNAMURTI: Naturalmente, senhor, isso está implícito. Por aí 
se vê que só em liberdade podemos olhar, 

INTERROGANTE: Qual é então a realidade do tempo e do espaço? 

KRISHNAMURTI: Dizem alguns filósofos que isso (tempo e es- 
paço) é coisa da mente. Talvez possamos considerar este assunto 
quando acabarmos de examinar a questão do observar. 

INTERROGANTE: Que é que nos impede de ter essa liberdade? 

KRISHNAMURTI: Nada, a não ser vós mesmo. 

INTERROGANTE: ...chamar as coisas pelos seus nomes... 

KRISHNAMURTI: Exatamente, senhor. Há uma reação automática 
às coisas quando as chamamos pelos nomes. Como se pode impedir 
isso? Não se pode impedir. Tendes de perceber quando estais con- 
dicionado, ao vos encontrardes com um negro ou um homem de faces 
rosadas. A reação, qualquer que ela seja, é imediata, porque vossa 
cultura, vossa educação, vos condiciona profundamente. Na índia, 
esse condicionamento não existe, como aqui, só há dois mil anos, 
mas há uns dez mil anos. É um tremendo condicionamento, velho 
de muitos séculos. Libertar-se dele não é questão de tempo; pode- 
mos cortá-lo. Vendo quanto ele é absurdo, acabamos com ele. 

INTERROGANTE: Podemos examinar aqui a questão do tempo? 

KRISHNAMURTI: A pergunta é esta: Podemos cortá-lo imediata- 
mente, mas isso dura? Pois bem; vamos examinar esta questão do 
tempo, que há pouco suscitastes? — a questão do tempo e do espaço? 
Ora, diz o interrogante, eu posso ficar livre imediatamente, mas isso 
dura? “Duração" é tempo. O tempo é duração, não? Isto é, posso 

(1) Omitida a parte citada por Krishnamurtf: “Podemos cortá-lo ímedlatamente, mas 
Isso dura? [N. do T.) 

ficar imedíatamente sem cólera, mas esse estado não dura: posso 
tornar a encolerizar-me daqui a um minuto. Temos, pois, de averi- 
guar o que é o tempo; não o que dele dizem os filósofos — porque 
eu não sei o que eles dizem; não leio livros de espécie alguma, graças 
a Deus. Vejamos o que é o tempo. Que é tempo? Há o tempo me- 
dido pelo relógio, o tempo cronológico, o tempo de que precisamos 
para ir daqui a uma certa casa; o tempo implica o espaço que tenho 
de transpor daqui a vossa casa. A casa é um objeto fixo. Escutai- 
-me atentamente, por favor: A casa é um objeto fixo, e o tempo neces- 
sário para transpor aquela distância é mensurável. Temos, pois, aqui, 
o tempo medido pelo relógio. Isto é claro. O tempo como ontem, 
hoje e amanhã, isso também faz parte do tempo cronológico. Ontem 
eu estava em Londres, hoje estou aqui, amanhã estarei em Nova Iorque. 
Isso também implica uma distância de tempo, medida pelo relógio. 
Eu não sou filósofo; portanto, peço-vos desculpar-me. Existe alguma 
outra qualidade de tempo? 

INTERROGANTE: O tempo que passa durante nossa vida. 

KRISHNAMURTI: Que é isso? Os dias que passamos, vivendo? 
Envelhecer, morrer, atravessar um espaço e acabar? Tende a bon- 
dade de escutar o que vou perguntar: Existe outro tempo, fora o tem- 
po cronológico? 

INTERROGANTE: O tempo psicológico. 

KRISHNAMURTI: Há uma espécie de tempo que se chama "tempo 
psicológico*. Há, pois, duas qualidades de tempo: o tempo de on- 
tem, hoje e amanhã, a distância, o tempo necessário para irdes daqui 
a vossa casa; esta é uma das qualidades. É necessário tempo para se 
aprender uma língua, reunir uma porção de palavras, aprendê-las de 
cor; isso leva tempo. Aprender uma técnica, aprender um ofício, 
uma habilidade — tudo isso requer tempo, tempo cronológico. E há 
o tempo psicológico, o tempo que a mente inventa. A mente que 
diz “Serei Presidente", “amanhã serei um homem bom, realizarei meus 
alvos, terei sucesso, serei mais próspero, alcançarei a perfeição, me 
tornarei comissário, serei isto e mais aquilo". Aí, existe o tempo 
entre o objetivo e o estado presente. Esse objetivo que me propus 
alcançar exige tempo; terei de lutar, de esforçar-me, ser ambicioso, 
ser brutal, empurrar os que me barrem o caminho. Tudo isso são 
projeções da mente e daquilo que ela deseja alcançar; essas coisas 
constituem o tempo psicológico. Temos, pois, estas duas qualidades 
de tempo: tempo cronológico e tempo psicológico. 

INTERROGANTE: E*i$te alguma diferença? Eu serei Presidente 
ou aprenderei italiano, digamos, daqui a seis meses ou seis anos. 

KRISHNAMURT1: Sim, de fato o tempo é necessário. Reconheço 
os dois estados: o cronológico e o psicológico. Mas, o tempo psico- 
lógico é verdadeiro ou é uma ilusão? Não entendestes, senhor? Per- 
gunto a mim mesmo: Existe realmente o tempo psicológico? 

INTERROGANTE: (Inaudível). 

KR1SHNAMURTI: Sim, senhor, compreendo; mas nós temos de en- 
trar bem profundamente neste assunto, e temos de ir muito devagar. 
Não afirmemos nada; não digamos que o tempo psicológico é ilusão, 
que não é ilusão, que é isto ou aquilo; não nos deixemos cair neste 
absurdo. Aqui estão dois fatos: um deles é que “eu sou isto", e o 
outro, que “desejo ser aquilo" — não importa se uma coisa importante 
ou uma coisa insignificante. O fato é que sou isto e desejo ser 
aquilo. E isso implica também o espaço e o tempo. E o outro fato 
é que para ir daqui a vossa casa, percorrer uma certa distância, pre- 
ciso de tempo. Digo entre mim que ambas as qualidades de tempo 
parecem verdadeiras; verdadeiras, no sentido de que tenho um obje- 
tivo, quero ser poderoso, quero ser rico, quero ser famoso, e para 
alcançar este objetivo tenho de esforçar-me. Tornar-me famoso exige 
tempo, porque a imagem da fama que eu criei está “lá longe" e eu 
preciso transpor essa distância através do tempo; no momento não 
sou essa imagem, mas a serei no futuro; não estou agora em casa, 
porém aqui; para ir lá preciso de tempo. Agora desejo ser um ho- 
mem famoso. Psicologicamente, isso é uma projeção minha: A ima- 
gem que criei da fama. Ela está “lá”, e eu a “projeto"; é minha 
própria imagem, porque eu me comparei com homens famosos e de- 
sejo igualá-los. E isso implica luta, competição, crueldade, O que 
eu desejo é uma coisa real, não? Quero-a, e luto por obtê-la. Não 
indago por que criei essa imagem; digo apenas: "Quero ser aquela 
imagem." Há, aí, portanto, uma grande porção de conflito, de dor, 
sofrimento e brutalidade. E isto é meu condicionamento, porque des- 
de criança me têm dito que devo ser isto ou aquilo, um grande ho- 
mem, um grande negociante, advogado, professor, etc. Criei, pois, 
aquela imagem, e não verifiquei por que razão a criei. Se percebo 
quanto é absurda tal imagem, se percebo quanta futilidade, agonia, 
ansiedade, etc., ela envolve, não a crio. Por conseguinte, ela é abolida. 

INTERROGANTE: Que há de errado em aprender italiano através 
do tempo? 

KR1SHNAMURTI: Não, por favor, não mistureis as duas coisas; 
tende em mente. . . 

INTERROGANTE: Dois estados psicológicos: eu sou ninguém e 
amanhã serei alguém. 

KRISHNAMURTÍ: Sou uma pessoa comum, e amanhã serei uma 
pessoa importante. O amanhã está na minha mente. Estou a esperá- 
-!o. Portanto, tempo existe (ou eu penso que existe). Serei famoso: 
a palavra "serei" se refere ao futuro. Assim, pergunto a mim mesmo 
se existe de fato um amanhã. Só existe o amanhã quando desejo ser 
alguma coisa. 

INTERROGANTE: Posso libertar-me do tempo psicológico? 

KRISHNAMURTÍ: Eu vos estou explicando isso, senhor. Podemos 
libertar-nos do tempo psicológico? Descobri-o por vós mesmos, se- 
nhores; vós podeis vê-lo. Se desejo ser famoso, não posso libertar- 
-me do tempo. Se digo que sou uma pessoa insignificante e desejo 
ser uma pessoa importante, sou escravo do tempo. Se agora sou 
ninguém, por que devo ser alguém? — Eu sou ninguém. 

INTERROGANTE: (Inaudível). 

KRISHNAMURTÍ: Não, o homem importante possui um carro mais 
luxuoso, uma mais luxuosa casa. Não misturemos as palavras. Eu 
sou um homem insignificante e desejo ser um homem importante. 
Aí está contido todo o processo do tempo. Se não desejo ser im- 
portante, existe o tempo psicológico? Eu sou o que sou. Mas, se 
desejo tornar-me alguma coisa, começa a existir o tempo. Ora, eu 
preciso mudar, porque não posso continuar como estou. Estais pre- 
tando atenção? 

Vede, eu sou uma pessoa comum. Acompanhai-me, passo a pas- 
so. Sou um homem insignificante e desejo tornar-me importante. Is- 
so implica tempo, dor, etc. O desejo de ser importante, de deixar de 
ser insignificante, essa espécie de mudança eu rejeito por considera- 
da absurda, ininteligente, infantil. Assim, digo que sou ninguém. Se 
permaneço pessoa sem importância, nada acontece em mim, Sou 
ninguém: nada acontece. Mas esse estado deve mudar. O pobre 
coitado que mora naquele casebre Inão sei como tolerais tais casebres 
nestas redondezas) é ninguém. Não pode tornar-se alguém porque é 
um homem rude, porque é isto e aquilo. Ele também deseja tornar- 
-se alguém, porque vê que a casa vizinha é uma habitação melhor que 
a sua. Sempre olhamos comparativamente. Ora, pode a mente eli- 
minar de todo a comparação? Assim, nunca mais direi ü Eu sou nin- 
guém." 

Por que "projetar"? Desejo aprender italiano, e o aprenderei. 
Isao levará tempo, e eu trabalharei neste sentido. Tenho de estar em 
Nova Iorque dentro de alguns dias, faço os planos necessários, com- 
pro o passagem, etc. Não há projeção nem imagem alguma. Tenho 
do tomar as medidas práticas para lá chegar. Mas, posso dizer de 

í>4 

mim para mim: “Vou a Nova Iorque? lá encontrarei muito mais sensa- 
ções do que aqui, etc." Ora, é possível a mente deixar de comparar 
e, por conseguinte (vede quanto isto é belo!), não precisar de tempo 
nenhum? Estou respondendo à vossa pergunta, senhor? 

1NTERROGANTE: (Inaudível). 

KRISHNAMURTI; Eu disse que, quando afirmais que sois sem im- 
portância, já vos comparastes com alguém que é importante. Elimi- 
nando a comparação, mudareis compietamente. Se o homem que mo- 
ra naqueie pardieiro infecto está comparando, lá continuará a morar; 
mas, se chegar ao ponto de dizer: “Acabemos com a comparação", 
de lá sairá. 

INTERROGANTE: Como? 

KRISHNAMURTI: Trabalhará mais inteligentemente. 

INTERROGANTE: Que vontade teria eíe de trabalhar se não tivesse 
visto a casa melhor do vizinho? 

KRISHNAMURTI: Esta é que é a coisa. Se não há comparação, 
que sucede? Esta é a primeira questão: Que sucede, realmente, quan- 
do não comparais? 

INTERROGANTE: Já não estou colocando obstáculos à minha frente. 

KRISHNAMURTI: Diz o interrogante que já não está colocando 
obstáculos à sua frente. Continuemos. Por que comparais? Isso 
começa na escola: o professor vos diz que não estais indo bem nos 
estudos, não estais tão adiantado como outro aluno. Todo esse pro- 
cesso de exames, notas, etc., é comparação. Desde criança sois con- 
dicionado para comparar, comparar a casa grande com a casa peque- 
na, comparar sempre. É vosso condicionamento. E ele ocasiona uma 
série de lutas, de êxitos e malogros, de aflições impostas pela socie- 
dade e por vós mesmo. É vosso condicionamento. Um menino pobre 
chega a Presidente; eis um formidável reclamo; e dizeis: “Como é 
maravilhosa esta sociedade de competição!" É nosso condicionamen- 
to. E nós o conservamos porque, às vezes, é lucrativo, ainda que 
outras vezes doloroso; mas ele é incurável. Nunca indagamos por 
que é que comparamos. Indagai-o agora e descobri por que é que 
comparais. 

INTERROGANTE: É porque nos sentímos insuficientes. 

KRISHNAMURTI: Considerai isto: Quando vos sentis insuficientes, 
estais comparando. Como podeis saber que sois insuficientes, sem 
comparar? Examinai este ponto. Nós comparamos por que somos 
insuficientes? Comparamos por que isso faz parte de nosso condicio- 
namento? Lemos nos jornais que fulano de tal ç um homem poderoso 

e vemos que nós mesmos somos insignificantes. Conseqüentemente, 
aceitamos a comparação como a norma, inevitável processo da exis- 
tência. Eu não. Por que comparar? Se não comparo, sou uma pes- 
soa insignificante? Eu só me comparo com o que é superior. E se 
não faço comparação nenhuma, sou.,, 

INTERROGANTE: Superior? 

KRISHNAMURTI: Não, é uma coisa que nada tem que ver com 
superioridade. Como posso saber que sou superior? Como posso 
sabê-lo? Esta palavra “comparação”... tende a bondade de prestar 
atenção! Muito importa examinar esta questão. Vede, eu comparo 
duas peças de pano ao comprar um casaco. Preto e branco: Com- 
paro. Comparo este país, a índia, dizendo “Aqui faz muito calor”. 
Mas, posso dizer que neste país faz muito calor sem estar compa- 
rando. Se comparo este país com outro de clima mais frio, estou 
resistindo ao calor, que se torna então insuportável. Pode-se eliminar 
a comparação, psicologicamente, abster-se de comparações, em rela- 
ção à casa grande, à casa pequena, ao tapete maior...? 

INTERROGANTE: Ouai o mecanismo da comparação? 

KRISHNAMURTI: Pode-se ver que, em primeiro lugar, comparamos 
porque estamos condicionados e, em segundo lugar, porque pensamos 
que, peia comparação, estamos vivos. Dizemos: "Se não comparo, 
não posso tornar-me igual ao sr. Smith e, assim, meu Deus! que serei 
eu?” A comparação, pois, é o sistema em que nascemos, o qual nos 
manda: “Deveis ser um grande dirigente, possuir milhões”, ou, por 
outro lado: “Deveis ser um santo, nada possuir.” 

INTERROGANTE: Posso satisfazer-me com o que sou, e não me im- 
portar com o vizinho? 

KRISHNAMURTI: importai-vos, efetivamente, com o vizinho? Aque- 
le vizinho do andar de baixo? De fato vos importais com ele? Claro 
que não. E não estais satisfeito com o que sois. Ao usardes a pa- 
lavra "satisfeito” ou “insatisfeito”, está havendo comparação. Isso é 
óbvio. Tratai, pois, de eliminar compf lamente palavras tais como 
"melhor", "mais”. Deste modo, vê-se que o tempo psicológico só 
existe quando há um estado de comparação, e tal estado implica 
Insatisfação, sentimento de inferioridade, necessidade de realizar al- 
guma coisa, de “vir a ser"; tudo isso está implicado na compara- 
ção. E, ao dizerdes: "Sou uma pessoa insignificante”, tal palavra é 
um termo comparativo; porque, §erp comparar, não faríeis uso 
doia. Assim, o tempo psicológico só existe quando há essa mentali- 
dade comparativa, essa mente que mede, psicologicamente. Ora, 
posso ou, pode a minha mente, existir sem medir — existir, viver, e 

não apenas ficar dormindo: achar-se em extraordinária atividade, ple- 
namente viva? Isso só é possível se não há comparação. 

Só existe o tempo psicológico quando há comparação, quando há 
uma distância para transpor entre o que é e o que deveria ser — o 
meu desejo de me tornar alguém ou ninguém. Tudo isso envolve o 
tempo psicológico e uma distância a percorrer. Consequentemente, 
pergunta-se: Existe, psicologicamente, um amanhã? A esta pergun- 
ta não podereis responder. Existe um amanhã — esse “amanhã" que 
se tornou existente porque tive um momento de liberdade completa, 
do sentimento integral de uma certa coisa, e esse momento passou? 
Eu gostaria de retê-lo, de fazê-lo durar. “Fazê-lo durar" é uma forma 
de avidez. Lutamos por alcançar de novo aqueie estado. Tudo isso 
está no tempo psicológico. Quando tiverdes qualquer experiência 
de alegria, de prazer ou do que quer que seja, vivei-a completamente, 
sem desejardes que seja duradoura, porque, se o desejardes, estareis 
enredado no tempo. Pois bem; existe amanhã? Isto ó, o amanhã 
está adiante e hoje experimentei um sentimento de grande felicidade 
e desejo saber se ele perdurará. Como conservá-lo de maneira que 
dure para sempre? Desejo conservar a lembrança desse prazer, e 
se essa lembrança continuar existente, impedirá, completamente, no- 
vas experiências. Isto é bem simples, não achais? 

INTERROGANTE: (em espanhol). 

KRISHNAMURTI: Se falardes devagar o espanhol, posso entendê- 
-lo. Creio que dissestes: “Como posso compreender a resistência"? 
— e eu, por minha vez, vos pergunto: “Que entendeis pela palavra 
“resistência"? 

INTERROGANTE: (em francês). 

KRISHNAMURTI: Consideremos primeiramente aquela palavra, o 
seu significado, e não o que vós sentis, o que eu penso ou outro 
qualquer pensa. Vejamos primeiramente o que significa a palavra 
“resistir". O resistir exige tempo para nos opormos, levantarmos uma 
barreira, mantermos a coisa à distância. Resistir. . . eu resisto à 
chuva, resisto ao barulho, que me incomoda, resisto à tentação... 
resisto. Desejo uma casa maior e digo “Que estupidez desejá-Ia r pois 
não posso tê-la ! M Assim, resisto, revolto-me contra aquilo que desejo 
ou não desejo. Por que devo resistir? Perguntai, por favor, a vós 
mesmo: “Por que devo resistir?” Minha vida foi sempre assim, re- 
sistindo a isto, aceitando aquilo, não gostando disto e gostando da- 
quilo. Ergui, pois, em torno de mim uma muralha de resistência. Não 
desejo aprofundar esta matéria; vamos considerá-la apenas ligeira* 
mente. Sempre resisti a uma coisa e outra e, assim, levantei uma 

muralha em torno de mím mesmo. Essa muralha é o “eu", o “ego" 
— a verdadeira essência da resistência. Mas, por que resisto? Eu 
resisto. Resisto às tentações, etc., mas o que desejo saber é por que 
existe resistência. Por que não posso olhar uma coisa e compreen- 
dê-la? Por que devo resistir a ela? Vede, senhor, eu só resisto a 
uma coisa que não compreendo. Digo ecco^ 1 ) — isso eu compreen- 
do. A fim de manter um determinado estado, resisto a qualquer coisa 
que possa perturbá-lo. Se ontem me senti feliz, resisto a tudo que 
possa impedir-me de ter novamente essa experiência. Se eu pudesse 
olhar todas as coisas com clareza, não haveria resistência nenhuma, 
haveria? Se olho lucidamente o processo do mundo hodierno, onde 
todos querem tornar-se alguém ou ninguém; se o olho, se vejo tudo 
o que esse processo implica — dor, violência, brutalidade, fracassos, 
acerbidade; se o compreendo, ele está acabado: não resistirei a mais 
nada. Mais alguma coisa, senhores? 

1NTERROGANTE: Nós passamos de um condicionamento para outro. 

KRISHNAMURT!: Sim, o libertar-nos de um condicionamento não 
é outra forma de condicionamento? Se compreendo ou estou cônscio, 
sem escolha, de meu condicionamento, posso cair noutro condiciona- 
mento? Eu reconheço, então, todo e qualquer condicionamento, não 
importa qual seja a sua origem; reconheço-o, compreendo-o, olho-o, 
penetro-o. Passar de um para outro condicionamento semelha o que 
fazem os que mudam de religião e acreditam estarem-se tornando mais 
religiosos. Mas isso é pura infantilidade. 

O VIVER INTEGRAL 
(2) 

Um dos nossos maiores problemas parece-me ser o de produzir- 
mos em nossa vida uma ação total e completa. Nossa vida, tal como 
a estamos vivendo, está toda retalhada, fragmentada; somos cientis- 
tas, engenheiros, etc. Especializamo-nos tecnicamente, e interiormen- 
te também estamos divididos em diferentes fragmentos: ora somos 
pacíficos, ora agressivos e brutais, ora ternos e mansos. Existe, pois, 
em nossa existência, tanto interior como exteriormente, uma constante 
divisão, uma contínua fragmentação que torna a vida contraditória e, 
portanto, gera confusão e dor. Somos atraídos por um desejo, por 

(1) Ecco: (Italiano) 14 de setembro de 1968. 

um prazer, oposto a outro desejo ou prazer, etc. Isto eu acho que 
qualquer um que esteja suficientemente interessado pode reconhe- 
cer, observar; é um fato presente, essa fragmentação. Cada fragmen- 
to tem sua atividade própria, sua peculiar ação. Eis por que nossa 
vida é fragmentária, nossa existência destrutiva e contraditória. Isso 
é bem claro, não achais? 

Perguntamos a nós mesmos se existe [não teórica porém realmen- 
te) alguma possibilidade de vivermos uma vida sempre integral, não 
fragmentária, em que todas as nossas atividades, quaisquer que fo- 
rem elas, sejam completas, nunca divididas nem contraditórias, nem 
de oposição ou de resistência. Esta é uma pergunta que me parece 
inevitável, se observamos o processo da fragmentação existente em 
nossa vida. Podemos prosseguir daqui? 

Espero que a questão vos pareça bem clara. Nós somos atraídos 
em diferentes direções e há um profundo sentimento de frustração, 
de insuficiência, perante a totalidade da vida. Por exemplo, um indi- 
víduo é membro de determinado partido político, outro comunista, 
outro socialista, católico, protestante — cada um aferrado a suas cren- 
ças pessoais. E perguntamos se podemos viver uma vida total (não 
digo "integrada”, porquanto não se trata de integração), uma vida não 
fragmentária, sempre em florescimento, sem interrupção, sem divisão. 
Se está claro isto, a questão seguinte é: Que podemos fazer? Nossa 
vida está dividida entre a profissão, o lar, a ambição, etc,, fracionada. 
Podemos, pois, viver de maneira tão completa que não haja em nossa 
vida nenhuma contradição? Que dizeis a isso? Estou-me referindo 
a uma vida que não é nem espiritual nem mundana, nem religiosa 
nem secular. Existe um desafio. Como estamos reagindo? Não res- 
pondeis? 

INTERROGANTE: Não estou entendendo bem. 

KRISHNAMURTI: Não senhor, não useis de nenhuma palavra; uma 
só palavra não abrange tudo. O que nos cumpre fazer é entrarmos 
um pouco mais profundamente na questão, em vez de simplesmente 
tratarmos de cobrir tudo com um termo gerai. Qual a causa da con- 
tradição? Vejo que a vida está fracionada. Em casa sou bondoso, 
no escritório brutal; estou dividido. Antes de mais nada, cabe-nos 
averiguar qual é a causa dessa fragmentação, dessa divisão. Como 
descobri-la? Que processo empregar? Estamos conversando como 
amigos, não há aqui instrutor nem discípulo; cada um tem de ser ao 
mesmo tempo instrutor e discípulo de si próprio. Portanto, não há 
aqui nenhuma autoridade. 

INTERROGANTE: (inaudível). 

KRISHNAMURT1: Não. Estais retrocedendo ao ontem. Esquecei 
o ontem. 

INTERROGANTE: Antes de tudo, desejamos conhecer a vossa opí- 
não. . . 

KRISHNAMURTI: Este senhor diz que primeiro deseja conhecer 
minha opinião. Não nos interessam opiniões. Pode-se dizer: “Esta 
é vossa opinião, minha opinião, a opinião dele" — mas as opiniões 
não têm nenhum valor; deixemo-las aos políticos e aos iritelectuais. 
Mas, há aqui uma coisa que vós tendes de descobrir. Vós. Não 
sou eu que tenho de descobri-la e dizer-vos o que deveis fazer. Nós 
podemos investigá-la juntos, explorá-la; porém, se disserdes “Espe- 
rarei que vós a expliqueis", a coisa não terá graça nenhuma. 

INTERROGANTE: Como posso conhecer a fragmentação se des- 
conheço o todo? 

KRISHNAMURTI: Estou fragmentado: eis o fato. Vou para o es- 
critório, e lá sou brutal, invejoso, violento, competidor. Mas, em casa 
sou bem quieto, brando, dominado por minha mulher, ou dominando-a. 
Isso é fragmentação, e estamos perguntando por que razão ela existe, 
qual a sua causa. 

INTERROGANTE: Nós vivemos entre opostos, não é verdade? 

KRISHNAMURTI: Diz o interrogante que vivemos entre opostos. 

INTERROGANTE: Não há amor. 

KRISHNAMURTI: Isso não é resposta — dizerdes que não há 
amor. Nós estamos examinando a questão e, se dizeis que nã.o há 
amor, não podeis ir adiante. Estamos examinando, investigando por 
que razão vivemos num estado de dualidade, por que estamos cons- 
tantemente a osciiar de um ponto de vista para outro, entre opostos. 

INTERROGANTE: Não temos, em nossa vida, nenhum controle das 
circunstâncias. 

KRISHNAMURTI: isso ó verdade, mas não é essa a questão. 

INTERROGANTE: Estamos em busca de satisfação. 

KRISHNAMURTI: Ohl não ó isto — busca de satisfação. Deixal- 
-me sugerir-vos uma coisa: antes de manifestardes uma opinião, como 
acabais de fazer, descobri por que é que vivemos nessas condições; 
qual a causa disso? 

INTERROGANTE: Há dualidade. 

KRISHNAMURTI: Dualidade, sim — mas por quê? Estais apre- 
sentando uma nova coleção de respostas, mas em verdade não sabeis. 
Por favor, não façais conjeturas, de tentar várias coisas para ver qual 

delas dá certo. Dizendo “em verdade, não sei", estareis reconhecen- 
do que não sabeis aual é a causa. Esta é a maneira correta de pro- 
ceder, não? Não sei, realmente! Esta seria uma declaração honesta, 
pois, com efeito, não sei por que vivo num estado de dualidade. Pois 
bem; não sei, mas como irei saber? 

(Exclamações indistintas por parte dos interrogantes). 

KRiSHNAMURTI: Desistis do jogo? Quando não sabeis, que fa- 
zeis? Prossigamos, daqui. Eu não sei e vós não sabeis por que vi- 
vemos neste estado de contradição. Quando dizeis: “Não sei", como 
procedereis, então? Como ireis investigar? Um momento, vamos 
devagar, por favor. Como ireis investigar — com o pensamento? 
Ora, que entendeis por "pensar”? Analisar o problema? O problema 
envolve divisão, contradição, fragmentação. Anaíiso-o, e vejo que mi- 
nha vida está toda retalhada. Pergunto: Por quê? E respondeis: “Te- 
mos de pensar, temos de servir-nos do pensamento para descobrir- 
mos o porquê". Pensamento! Mas, que é pensamento? Antes de 
dizer que me servirei dele, preciso descobrir o que é pensamento. 
O pensamento, obviamente, é reação de memória, não? 

INTERROGANTE: É uma das causas de nosso medo. 

KRiSHNAMURTI: Não, senhor; fazeis uma asserção e barrais o 
caminho a vós mesmo. Se não estais preparado para examinar, explo- 
rar, não façais asserções. Disse um dos ouvintes que o instrumento 
da investigação, da análise, é o pensamento. Mas o pensamento es- 
clarecerá o problema? Pensais que sim, e por isso eu digo; "Verifi- 
quemos o que é o pensamento." Que é pensar? Não façais conje- 
turas, por favor: olhai! Que é pensar? Pergunto-vos onde morais, e 
vossa resposta é imediata, porque o sabeis, conheceis bem a rua, o 
número da casa, etc.; respondeis instantaneamente à pergunta. Não 
há intervalo entre a pergunta e a resposta. Mas, se vos faço uma 
pergunta um pouco mais complexa, há intervalo entre a pergunta e 
a resposta. Que sucede nesse intervalo? 

INTERROGANTE: Há uma atividade menta!, isto é, pensamento. 

KRISHNAMURTI: Que sucede naquele intervalo? Pergunto-vos a 
distância daqui a Nova Iorque. Não a sabeis — ou alguém vo-la disse 
e esquecestes. Assim, que sucede? Não sei a resposta e, por isso, 
ponho-me a rebuscar na memória; o pensamento começa a examinar 
o depósito da memória. Leio em algum lugar que há "tantas" milhas 
daqui a Nova Iorque ou peço informações e outras pessoas e, afinal, 
respondo à pergunta. É isso que chamamos “pensar". Faz-se a per- 
gunta, há um intervalo antes da resposta e, nesse intervalo, uma gran- 
de atividade de investigação, análise, indagação, expectativa, espera. 

É a Isso que chamamos atividade mental, racional ou Irracional. Pois 
bem; quando vos faço uma pergunta a que não sabeis responder, que 
sucede? Não podeis recorrer à memória. Não podeis dizer "Vou 
averiguar’ 1 . Ninguém vos pode informar. Que acontece? 

INTERROGANTE: Fazemos uso da imaginação ou da intuição. 

KRISHNAMURTI: Imaginação? Não posso imaginar uma coisa que 
desconheço. Intuição? Isto poderia ser mero conjeturar. Acompa- 
nhai-me, passo a passo, e vós mesmo descobrireis. Faço-vos uma 
pergunta que vos é familiar e respondeis imediatamente. Faço uma 
pergunta um pouco mais complexa, um pouco mais difícil, e necessi- 
tais de tempo para responder. Nesse intervalo de tempo ficais cogi- 
tando, pensando, observando, olhando, indagando. Pois bem; agora 
vos estou perguntando qual é a causa da fragmentação sobre a qual 
estivemos falando, e não sabeis responder. Se o soubésseis, seria 
de acordo com vossa memória, não? Assim, “realmente não sei n 
seria a resposta mais honesta. Realmente não sei. Um momento, 
tende paciência. Se não sei, que faço? Não posso ir perguntá-lo 
a um professor. Não posso consultar um livro. Livro nenhum pode 
informar-me. E eu tenho de descobrir a resposta, porque se trata 
de uma pergunta muito importante; descobrindo-a, poderei mudar toda 
a atividade desta vida fragmentada, viverei de maneira diferente, com- 
pletamente diferente. Portanto, como ente humano, tenho de desco- 
bri-la. Não posso depender de ninguém. A resposta dada por outro 
pode ser conjetura, pode ser errada, falsa. Eu tenho de descobri-la. 
Ora, como proceder? 

INTERROGANTE; Comparando. 

KRISHNAMURTI: Não, senhor, isso é ainda pensamento. 

INTERROGANTE: A vida de um homem pode deixar de fragmen- 
tar-se. 

KRISHNAMURTI: Isso é simples demais, senhor; pode deixar, mas 
nunca deixará. 

INTERROGANTE; Não sei aonde estou indo. 

KRISHNAMURTI: Quando dizeis que não sabeis, o pensamento 
ainda está a funcionar? Eu não sei; desejo descobrir e não há nin- 
guém que me possa informar. E não me deixarei informar por nin- 
guém, porque os informantes poderão estar totaímente errados — e 
em geral estão. Não tenho fé em ninguém, porque todos aqueles em 
quem confiei, sacerdotes, filósofos, políticos, comunistas, socialistas 
— todos falharam. Portanto, eu mesmo tenho de descobrir e o que 
eu descobrir deverá ser verdadeiro em todas as circunstâncias. Um 
momento, continuai a escutar. Como disse, não quero perguntar nada 

a ninguém, e eu próprio não sei por que estou vivendo uma vida fra- 
cionada. Mas desejo descobri-lo. Como o descobrireis? Pergunto- 
-vos como o descobrireis. 

INTERROGANTE: (inaudível). 

KRISHNAMURTI: Minha senhora, não estou perguntando como 
devemos olhar a nós mesmos; o que estou perguntando é o que fazeis 
quando não sabeis a resposta a uma pergunta sumamente importante, 
uma pergunta de vital relevância. Desistis? Um momento; não po- 
deis desistir. Quando estais com fome, com muita fome, não desis- 
tis. E se esta questão é tão importante para vós como a fome, desis- 
tis de responder, dizendo H Não sei, que me importa?" Trata-se de 
uma pergunta de real significação. 

INTERROGANTE: Isso parece muito materialista. 

KRISHNAMURTI: Materialista? Não, senhor, não é materialista. 
Não sei o que entendeis por “materialista". 

INTERROGANTE: Meu cérebro é o depósito da memória. 

KRISHNAMURTI: Sim, senhor, meu cérebro é o depósito da me- 
mória, da experiência, mas esse cérebro não contém agora resposta 
alguma. Já me servi do cérebro em ocasiões anteriores, para achar 
respostas comuns, relacionadas com pessoas, etc., mas agora ele não 
me pode servir. Assim, que podemos fazer? Já fui comunista, so- 
cialista, homem religioso, já passei por todas as espécies de fragmen- 
tação, sucessivamente, e digo: “Que estúpida maneira de viver!" 
Todavia, continuo do mesmo jeito, e quero descobrir a causa. Vivo 
uma vida de fragmentação, em cacos e pedaços, e não posso pedir a 
ninguém que me dê uma resposta. Que devo fazer? 

INTERROGANTE: Meditar. 

KRISHNAMURTI: Um momento, senhor, é isto mesmo que esta- 
mos fazendo agora. Estamos meditando, mas vós não quereis. . . não 
digo a palavra. 

INTERROGANTE: Temos de recorrer ao exame de nós mesmos. Há 
em nós falta de harmonia. 

KRISHNAMURTI: Não, senhora; nós já nos examinamos. “Falta 
de harmonia" não é resposta. 

INTERROGANTE: (Inaudível). 

KRISHNAMURTI: Vós estais citando; por favor, não o façais! 

INTERROGANTE: Buscamos a inspiração divina. 

KRISHNAMURTI: “Inspiração divina" — um momento, senhor: 
Suponhamos que sou descrente e não posso buscá-la. Inspiração! 
Credes nisso porque estais condicionado como católico, hinduísta, bu- 

dista, e conforme vosso condicionamento buscais tal inspiração. Nós 
estamos meditando. Prestai atenção: estamos meditando, estamos 
penetrando o problema com muito cuidado, passo a passo. Vós ides 
descobrir. De fato, eu não quis pronunciar a palavra “ meditação "(D, 
por ser uma palavra muito dificultosa; significa coisa sobremodo dife- 
rente do que em geral se entende por este nome. Mas, provisoria- 
mente, usemo-la, a fim de compreendermos este imenso problema. 

JNTERROGANTE: Estou “vivendo com eíe" agora. 

KRiSHNAMURTi: Estais “vivendo com ele agora”. Uma de nos- 
sas dificuldades é esta que não estamos acostumados a esta espécie 
de exame; estamos aprendendo a observar. Queremos observar por 
que é que, em nossa vida, tudo é fragmentado. Isto é bem evidente. 
Temos desejos diferentes e antagônicos, prazeres diversos; num mo- 
mento somos pacíficos, noutro momento belicosos, agressivos, em se- 
guida bondosos, etc. Queremos e não queremos; desespero e espe- 
rança se aíternam, vivemos entre contradições e opostos. De mim 
para comigo, digo: “Por quê? Por que vivo desta maneira?” — 
Minha senhora, podeis conceder-me apenas dois minutos? Deixai-me 
falar mais um pouco e, após, podereis fazer perguntas. 

Minha vida e a vossa se acham num estado de fragmentação, de 
fracionamento. Vivemos uma vida dualista, dizendo uma coisa, fa- 
zendo outra, pensando uma coisa e dizendo coisa diferente. Contra- 
dição, dualidade — eis a vida que estamos vivendo. E eu estou per- 
guntando: Por quê? Por que está a vida tão fragmentada? Não posso 
perguntá-lo a ninguém, porque todos estão com a própria vida frag- 
mentada. Farão conjeturas, dirão que é meu condicionamento, que 
é Deus, a sociedade, isto, aquilo. Portanto, se tais interrogações não 
adiantam, tenho de descobri-lo por mim mesmo. E o que descobrir 
deverá ser verdadeiro, absoiutamente verdadeiro. Ora, como desco- 
brir? Em verdade, não o sei e em toda a minha vida sempre me 
servi do pensamento como instrumento de descobrimento. Sempre me 
servi do pensamento, indagando, usando a memória, o conhecimento, 
a experiência; de tudo isso me tenho servido para descobrir. Mas 
agora não posso confiar no meu conhecimento, porque não sei. O 
conhecimento me diz que tal é a norma da vida individual. Conse- 
qüentemente, não posso depender de meu conhecimento, nem da 
experiência, nem do que dizem outros. Abandono tudo isso. E, ago- 
ra, que me cabe fazer, como irei descobrir o verdadeiro? 

(1) AlunAo n alguma coisa dita polo Interrogante e omitida no texto original. (N. do T.). 

Como olho agora a fragmentação? Compreendeis esta pergunta? 
Eu não sei, mas deve haver uma resposta correta. Que sucedeu agora 
em minha mente? Deixai-me formular a pergunta de diferente ma- 
neira. Provavelmente, a maioria de nós, aqui, estamos condicionados 
para crer em Deus, para ser o que chamais "espirituais". Se desejais 
descobrir — não repetir, ter fé, dizer “assim tem de ser" — se dese- 
jais realmente descobrir se tal coisa existe — Deus — tendes de 
abandonar todas as crenças, não achais? Tendes de estar livres de 
todas as crenças, para poderdes desvendá-lo. Cumpre livrar-nos do 
medo de investigar, de consagrar vossa vida a descobri-ío. Quero 
agora, pela mesma maneira, descobrir a verdade relativa àquela ques- 
tão. Qual é o estado de minha mente, que abandonou a autoridade, 
que desistiu de pedir informações a quem quer que seja, que repudiou 
o conhecimento, porque o conhecimento é sempre do passado? Esta 
pergunta tem de ser respondida agora, não de acordo com o passado, 
porém agora. Por conseguinte, tenho de abandonar o conhecimento 
como meio de investigação. E não devo ter medo. Pode não haver 
resposta nenhuma, pode ser que a contradição seja a norma da vida. 
Não devo ter medo, não devo temer nenhuma autoridade, inclusive a 
de minha própria experiência, de meu saber ou do saber de outros; 
necessito de completa liberdade para investigar. Pois bem; qual é o 
estado da mente que está livre para olhar? Não respondais, por favor. 

INTERROGANTE: Tende a bondade de repetir a pergunta. 

KRISHNAMURTI: Não posso repeti-la, mas a formularei de outro 
modo. Vede, senhor, tenho vivido na dependência — dependência 
do que outros dizem, do que a Igreja me ensinou, do que as autoei- 
dades me disseram a respeito disto ou daquilo, e aqui está um pro- 
blema que nenhuma autoridade pode resolver. Não confio em nenhu- 
ma autoridade, porque todas elas me levaram pelo caminho errado. 
Assim, qual é o estado de minha mente, que não quer aceitar o que 
outros dizem; quais os meus sentimentos, minhas intuições? — estas 
últimas devem ser também muito enganosas. Nada temo, porque não 
me importa se terei de sofrer. É a norma de minha vida e, portanto, 
aceito-a. 

Dessarte, não sinto medo e a mim mesmo pergunto: “Qual o es- 
tado da mente que não tem medo, que não quer aceitar nenhuma au- 
toridade, ou buscar uma resposta intuitiva, divina, superior?" Não 
quero fazer nada disso. Digo entre mim: “Acabei com tudo isso." 
Qual, pois, é o estado da mente que assim procedeu? 

INTEBROGANTE: Acha-se completamente livre de influência, de 
condicionamento, sem temor. 

KRISHISIAMURTI: Um momento: Se ela está assim, então não há 
contradição nenhuma. Quando já não existe dualidade, temos então 
a resposta. Por favor, não me respondais, olhai! Estais vivendo nu- 
ma dimensão diferente. Assim, o descobrir uma coisa fundamentai, 
como a resposta a esta pergunta, significa não ter medo, não dizer 
“Queira ensinar-me a resposta”; não ter medo de nada. Sois capaz 
disso? Se não sois, continuareis condenado a viver uma vida dua- 
lista, uma vida contraditória, dolorosa, amargurada. 

Infelizmente, nós não gostamos de ser colocados numa situação 
difícil como esta. Queremos uma saída fácil, uma fácil via de fuga. 
Eis, pois, a questão: Por que quereis viver dessa maneira, agora que 
sabeis ciaramente o que significa uma vida dualista, e sabeis também 
que dela podeis libertar-vos completamente se não tiverdes medo? 
Que ides fazer? Continuar a viver como antes? Parece-me que não 
o sabeis. Ou lestes o que está escrito em algum livro sobre este 
assunto, e tal é lamentável. Existe a verdadeira meditação e eia é 
isto que estamos fazendo: esvaziar a mente do conhecido, do medo. 
Desejais falar sobre mais outro assunto? 

ÍNTERRQGANTE: Faiastes ontem a respeito da Rússia e Tcheco- 
-Eslováqula. Não achais que, se as superpotências não deixarem de 
odiar-se rnuíuamente, de competir pelos mercados mundiais, etc., es- 
tamos condenados à destruição? 

KRISHNAMURTI: Como podemos impedir a Rússia ou a América 
de se prepararem para a defesa, conforme alegam? Podeis dizê-lo? 
A Rússia, com três milhões de homens em pé de guerra, e a América 
com seus “tantos” milhões — como podeis impedi-lo? Há enormes 
interesses em jogo, não é verdade? — no meio do exército, entre os 
ofjciais, no Pentágono, no Kremlin — grandes interesses pessoais. 
Ora, achais que o almirante e o general irão renunciar aos seus inte- 
resses porque é necessário haver paz no mundo? Que direis vós? 
Que ides fazer? Continuai a examinar esta questão até o fim, se não 
estais muito cansado. Como podemos impedir o que se observa no 
mundo: duas grandes potências, superpotências, com as respectivas 
esferas de influência, seus interesses — pensai no quanto ambas 
investiram em armamentos! — que irão fazer? Esta divisão existirá 
sempre, enquanto os cidadãos daqueles e de outros países forem 
patriotas, nacionalistas, não é verdade? 

INTERROGANTE: (Inaudível). 

KRISHNAMURTI: Se detestais os russos e gostais dos americanos, 
se tendes sentimentos nacionalistas e dizeis “Em primeiro lugar, mi- 
nha pátria", e se não podeis contar com aqueias grandes potências 

para acabar com as guerras, então esse trabalho deve ser iniciado 
por nós, não? A minoria, os poucos que sentem muito intensamente 
as coisas, a minoria sempre deu o primeiro passo para a frente, e 
criou uma situação diferente no mundo. Mas não desejamos fazer 
parte da minoria. E isso significa que esse assunto é muito complexo; 
não é um problema de fácil solução, porém uma questão complexa. 
Pois bem; este orador, pessoalmente, não é hindu; é uma coisa ter- 
rível, medonha, uma pessoa denominar-se hindu. Entretanto, aqui te- 
nho meu passaporte, um passaporte indiano; sem ele eu não poderia 
viajar. E, se viajais de avião ou de trem, se comprais um selo postal, 
estais contribuindo para a guerra. Não? 

Pagando impostos, estais sustentando a guerra. Assim, que se 
pode fazer? Deixar de pagar impostos? De viajar? De comprar se- 
los postais? Conheço gente que não o faz, que não viaja, reduzindo 
suas atividades a um campo muito limitado. Mas é absurdo não pa- 
gar impostos, pois, se não os pagardes, ireis para a prisão. Seria 
absurdo não comprar selos, pois não poderíeis escrever cartas. E 
assim por diante. Mas, não demos importância a coisas secundárias 
— impostos, selos postais e outras bagatelas tais; interessemo-nos 
na questão principal: não ser nacionalista ou patriota, não aprovar o 
preconceito de cor ou qualquer das outras coisas com que nos com- 
prazemos, na confusão em que vivemos. Isso requer muita inteligên- 
cia. Decidir deixar de ser nacionalista nada exprime; mas considerar 
o problema em seu todo significa que temos de ser bem inteligentes, 
quer dizer, muito sensíveis a todos os fatos. Mais perguntas? 

INTERROGANTE: Qual a vossa posição, qual a minha posição se 
a pátria ou o exército me chama, alista ou recruta, e eu não quero 
matar? 

KRISHNAMURTI: Isso é uma cilada para mim? Se sentis verda- 
deiramente que não quereis matar; se não estais meramente dizendo 
"Não quero matar” e estas palavras significam realmente que não 
quereis matar, nesse caso tendes de viver pacificamente, não? Não 
mateis animais. Mesmo para vossa alimentação, não os mateis. Não 
mateis com palavras, não digais "aquele homem é insuportável, aquele 
homem é estúpido”. Verbalmente, estais matando; estais matando com 
palavras, com gestos, com pensamentos; em vossas ocupações, na 
igreja, em toda parte estais matando. Assim, se de fato não desejais 
matar, tendes de iniciar uma vida realmente pacífica. Porém, isso 
não quereis. Ouvis o que se está dizendo, dizeis coisas que não sen- 
tis ou ficais escutando calado; depois, voltais para casa e continuais 
a fazer as mesmas coisas de sempre. Por conseguinte, estais apoian- 
do a guerra. 

INTERROGANTE: Muitos jovens estão protestando na América e, 
sem dúvida, há quem proteste na Rússia. 

KR1SHNAMURTI: Não sei se lestes aquele artigo de um dos mais 
eminentes cientistas russos, protestando contra muitos dos atos do 
governo soviético. A mesma coisa se está verificando em todo o 
mundo, não apenas na Rússia e na América. Na índia, a opinião pú- 
blica exige que sejamos nacionalistas e, quando falo naquele país 
sobre a necessidade de não ser nacionalista, dizem: “Ide pregar nou- 
tra freguesia, não aqui.” Estais cansados? Tendes muita pressa em 
dizer “não”. Ora, nós estamos tratando de um assunto muito sério, 
e quem é verdadeiramente sério não pode, de repente, dizer H Não, 
não estou cansado", pois sua mente deve achar-se em tremenda ati- 
vidade. A questão é que não estais percebendo, não estais cônscios 
de vossa vida fragmentária. Dela só podeis tornar-vos conscientes 
se prestardes atenção à vossa maneira de viver. E — que é atenção? 
Esta questão é importante, não achais, senhor? Ela vos interessa? 
Mas, por favor, deveis sentir verdadeiro interesse; não simplesmente 
dizer "sím” e depois não pensar mais no assunto. Que significa 
"atenção"? — Estar atento. Quando é que a atenção é um processo 
intelectual? Que entendemos por atenção — não a atenção do sol- 
dado, mas o que é que nós entendemos por atenção, por “estar aten- 
to”? Quando estais atento? Só estais atento ao consagrardes vossa 
mente e coração, todo o vosso ser, a uma dada coisa. Se, ouvindo 
aquele choro de criança, há alguma resistência a ele, resistência ao 
barulho, estou desatento. Percebeis? Quando prestamos atenção, 
isso significa que nossos nervos, nosso corpo, nosso coração, nossa 
mente inteira, estão atentos àquilo de que desejamos tornar-nos côns- 
cios. Mas isso nós nunca fazemos. Não sei se alguma vez já fizes- 
tes, isto é, se prestastes atenção, por exemplo, àquela árvore, isso 
significa o quê? Prestar atenção significa não classificar a árvore, 
não estar enredado na asserção verbal relativa à árvore. Se emprego 
a palavra "cipreste”, esta palavra é uma distração, não achais? Im- 
pede-me de olhar a árvore atentamente. Estar atento significa estar 
atento intelectualmente, emocionalmente, com os nervos, os olhos, os 
ouvidos, com tudo o que possuímos: prestar atenção, olhar. Isso 
jamais fazemos, porque vivemos em fragmentos. Só quando sobre- 
vém uma crise terrível em nossa vida, pode acontecer que lhe pres- 
temos atenção durante alguns segundos, mas logo tratamos de fugir. 

Pois bem; se uma pessoa é verdadeiramente séria e deseja desco- 
brir se existe uma realidade, Deus — ou como quiserdes chamá-lo 
— não recorre a nenhuma autoridade, nenhum sacerdote, nenhuma 
crença, pois isso é infantil, imaturo. Temos de aplicar toda a nossa 

atenção para descobrir alguma coisa. Não podemos dar essa atenção 
completa se temos medo de, com esse descobrimento, perder o nosso 
emprego. Não podemos ficar completamente atentos para descobrir 
a verdade relativa a essa questão, se estamos dependendo de qual- 
quer crença, de qualquer condicionamento, do que foi dito por outrem. 
Tudo isso precisa ser abandonado. Para sermos capazes de descobri- 
da, não podemos pertencer a nenhuma sociedade, nenhum grupo, ne- 
nhuma cultura. E isso significa que devemos estar completamente 
sós, interiormente sós. Então, sim, descobri-la-emos. Mas, se não 
prestarmos atenção, no sentido profundo da palavra, nenhuma possi- 
bilidade teremos de encontrar aquela realidade. 

INTERROGANTE: Atingistes esse estado de espírito? 

KRISHNAMURTI: Pergunta o interrogante se eu me acho nesse 
estado espiritual. Em primeiro lugar, por que fazeis tal pergunta? 
Não estou tergiversando, senhor; a ela responderei. Por que fazeis 
essa interrogação? 

INTERROGANTE: Por que se trata de uma questão difícil. 

KRISHNAMURTI: “Faço esta pergunta", diz o interrogante, "por- 
que a questão é um tanto difícil. ” Eu não a reputo difícil. Um mo- 
mento, senhor, vou responder. Em primeiro lugar, se eu responder 
"sim”, isso não terá valor nenhum, terá? Para vós nenhum valor terá, 
porque que vantagem tereis se eu disser "sim"? Aceitareis ou re- 
jeitareis a minha resposta. Direis, porventura, "Coitado, não está 
regulando” ou “Ele é um homem sério, e isso pode ser verdade". 
Por conseguinte, minha declaração de existir em mim um tal estado 
não tem para outrem nenhum valor. O que tem valor é vós mesmo o 
descobrirdes; vós, e ninguém mais. E, dizendo ser difícil a questão, 
com a própria palavra “difícil” estais obstando vosso próprio desco- 
brimento. Senhor, se aceitamos a vida tal como está, com suas tris- 
tezas e conflitos e agonias, se aceitamos esta vida, então, não há so- 
lução nenhuma; é a norma da vida. Mas, se não a aceitarmos, se 
nos recusarmos a pertencer ao rebanho, ao grupo, começaremos a 
viver diferentemente. É absolutamente necessário fazermos esse des- 
cobrimento, se desejamos ter outra vida. 

INTERROGANTE: Pode-se desenvolver a atenção peio exercício? 

KRISHNAMURTI: Exercício significa repetição, fazer uma coisa 
vezes sobre vezes. Isso é atenção? Não é um ato mecânico? Assim, 
se estais investigando seriamente, tendes aqui duas coisas para con- 
siderar: a atenção e a desatenção. Ora, quase todos nós somos 
desatentos. E dizemos ser importante não estar desatento, que deve- 

mos estar atentos. Desejamos então exercitar a atenção. Mas, se 
disserdes “Vou ficar vigilante, atento à minha desatenção" — sabeis 
o que isso significa: estar atento? Nós aceitamos as coisas como 
estão, nossa vida, nossa maneira de viver, nossas emoções violentas 
— tudo o que há realmente. Ficar atento é tornar-se cônscio da 
desatenção; não é tentar ficar atento, porque isso causa conflito, luta; 
por conseguinte, quando se exercita a atenção, ela se torna mecânica, 
deixa de ser atenção. Mas, se a pessoa está atenta, cônscia da desa- 
tenção, daí sim, florescerá a atenção. 

Para hoje, isto não é suficiente? Vede que eu estive trabalhan- 
do, este orador esteve trabalhando; esta palestra já durou uma hora e 
meia. O orador trabalhou, porém vós não trabalhastes, ficastes ape- 
nas escutando, despreocupadamente. Estivestes escutando, como se 
ela fosse uma espécie de entretenimento, como se estivésseis numa 
sessão de cinema, a dizer "não concordo, concordo, bom filme, não 
foi bom", etc. Se, como vos cumpria fazer, tivésseis trabalhado com 
o orador, já seriam horas de dizerdes: “Pelo amor de Deus, paremos 
aqui! " 

15 de setembro de 1968. 

PALESTRAS NOS COLÉGIOS DE CLAREMONT 
CALIFÓRNIA 

0 OBSERVADOR E A COISA OBSERVADA 
(1) 

Seria bem interessante saber por que vos achais aqui — a maio- 
ria de vós. Provavelmente por curiosidade, ou porque desejais veri- 
ficar o que tem para dizer um homem que vem de !á do Oriente. Em 
primeiro iugar, deve ficar bem esclarecido que este orador não está, 
a nenhum respeito, representando a índia, o pensamento indiano, a 
filosofia indiana, ou qualquer coisa de oriental e misterioso. 

Considero importante estabelecer-se entre nós uma comunicação 
de certa espécie; hoje em dia, muito se faia em comunicação, muito 
barulho se faz sobre isso. Ora, decerto, é bem simples comunicar- 
-nos uns com os outros; a dificuldade reside em que, Infelizmente, 
cada um trata de traduzir, de comparar, de julgar o que se está di- 
zendo. Nós, em verdade, não escutamos. Mas, se escutamos com 
atenção e seriedade, a comunicação se torna muito simples. Eu te- 
nho alguma coisa para dizer e, não importa o que ela apresente de 
estranho, se sois ardorosos, se tendes o desejo de descobrir, ficai 
escutando com interesse e atenção, com uma certa afeição, não só 
apreciando intelectualmente o que se diz (e isso naturalmente deveis 
fazer), mas também examinando-o e expiorando-o minuciosamente. E, 
para explorar e escutar atentamente, deveis ser livres — livres da 
imagem, da tradição, da reputação que o orador infelizmente tem, por- 
que assim podereis escutar direta e imediatamente, e compreender. 
Se, entretanto, estais seguindo um determinado padrão de pensamen- 
to, com certas tendências que vos dominam, certas conclusões e pre- 
conceitos, então, é claro, cessa toda comunicação. 

É de grande relevância que, desde o início, presteis atenção, não 
só às palavras do orador, mas à maneira como escutais. Se escutar- 
des com uma tendência a tirar certas conclusões do que o orador vai 
dizer, a compará-lo com o que já disse, nesse caso o que ele disser 
se tornará mera questão de concordar ou discordar, matéria de exame 

mental ou entretenimento Intelectual. Nessas condições, se, durante 
estas palestras, puderem estabelecer-se relações corretas, uma cor- 
reta comunicação entre vós e o orador, haverá então, talvez, uma pos- 
sibilidade de examinarmos profunda e seriamente este complexo pro- 
blema do viver, de verificarmos se é possível, ou não, aos entes hu- 
manos, que andam tão condicionados, transformar-se, promover em si 
próprios uma revolução psicológica. Eis o que principalmente nos in- 
teressa, e não uma dada filosofia oriental, um certo padrão conceptual, 
concebido pela imaginação, conducente a conclusões várias e substi- 
tuindo velhas idéias por novas. 

Espero não vos desagrade lembrar-vos que muito importa aprender 
a arte de escutar. Nós não escutamos, ou, se o fazemos, escutamos 
atrás de uma cortina de palavras, de pensamentos conceptuais, de 
conclusões coloridas por nossa própria experiência. Essa cortina, 
obviamente, nos impede o escutar, que, como já vimos, é uma arte 
relevante, à qual, parece, não damos nenhuma atenção. Devemos es- 
cutar tão intímamente, tão completa e intensamente, que possamos, 
não só estabelecer um estado de comunicação, mas também ir mais 
longe e entrar em comunhão, uns com os outros, como amigos since- 
ramente interessados numa certa questão. A comunhão difere sobre- 
modo da comunicação; para comungar, cumpre não só compreender 
a significação das palavras, estar bem ciente de que a palavra não é 
a coisa e a descrição não é a realidade, senão ainda devemos achar- 
mos naquele estado mental cuja característica é a atenção, o zelo, 
um sentimento de íntimo interesse. Isso só é possível quando am- 
bas as partes, vós e eu, são verdadeiramente aplicadas. 

A vida exige muita seriedade; não uma atenção ocasional, for- 
tuita, porém constante alertamento e vigilância, porque nossos pro- 
blemas são imensos, altamente complexos. Só a mente que é séria, 
realmente ardorosa, capaz de investigação e, por conseguinte, livre, 
só essa mente pode achar para eles uma solução; e eis o que vamos 
fazer: procurar solucioná-los. Vamos comunicar-nos não apenas ver- 
balmente, senão também, num diferente nível, estar em comunhão, 
e isso é mais importante do que a mera comunicação verbal. Des- 
sarte, se durante estas palestras pudermos olhar com olhos límpidos 
essa complicada coisa que é o viver, olhá-la com olhos novos, puros, 
“inocentes", então nossos problemas poderão mudar totalmente de 
significado. Como disse, devemos não só escutar as palavras, mas 
ainda compreender que a palavra não é a coisa, e a descrição jamais 
é o fato descrito. E, para esse escutar, necessita-se de liberdade — 
precisamos estar livres de conclusões, de preconceitos, de imagens 
e símbolos, a fim de podermos, vós e eu, olhar diretamente, intima- 

mente, intensamente, os problemas de nossa vida diária, de nossa 
existência, e averiguar, assim, se ela tem alguma significação. 

Observa-se que, no mundo inteiro, os entes humanos, de todas 
as cores, credos e nacionalidades, têm problemas — problemas de 
relação, problemas de viver numa sociedade tão corrupta como esta 
que o homem veio edificando no decurso dos séculos. 

É o próprio homem o responsável por esta estrutura, por esta 
sociedade que é o produto de suas próprias esperanças e exigências, 
resultado de sua própria violência, conseqüência de seus temores e 
ambições; nesta estrutura, nós, os entes humanos, nos vemos apri- 
sionados. E a estrutura não difere do próprio homem. 

A sociedade, seja na Europa, seja na Ásia ou aqui, na América, 
não é diferente nem separada de cada um de nós. Nós somos a so- 
ciedade, somos a comunhão; não somos apenas indivíduos, entidades 
humanas, mas também a totalidade, a coletividade. Não há, pois, di- 
visão ou separação entre nós e a sociedade; nós somos o mundo, ele 
é constituído por nós, e para se realizar uma revolução radical na 
sociedade — revolução absolutamente necessária — deve, em primei- 
ro lugar, haver uma profunda transformação nas pessoas. Por conse- 
guinte, cumpre-nos investigar se essa revolução é de algum modo 
possível. 

Não estou empregando a palavra "revolução" no sentido comunis- 
ta ou socialista, no sentido sanguinário; estou falando da revolução 
que efetuará a completa transformação da própria psique, da inteira 
estrutura do coração e da mente. Esta é a questão central — e não 
o que pensam os filósofos ou o que dizem os psicólogos e analistas; 
tampouco o que afirmam os teólogos ou imaginam os crentes e não- 
-crentes. 

A questão real, portanto, é se nós, entes humanos, vivendo, como 
agora estamos, nesta sociedade complexa e corrupta, com suas guer- 
ras, suas lutas, suas ambições e competição, podemos produzir em 
nós uma total mutação, não gradualmente, aos poucos, no decurso 
de dias ou de anos, mas se podemos transformar-nos imediatamente, 
sem depender de tempo. 

O homem, pelo visto, aceitou a guerra, a violência; essa violên- 
cia existe em todas as partes do mundo, ainda que na Ásia, e princi- 
palmente na índia — onde as ideologias nascem como cogumelos em 
terreno úmido — muito se fale sobre não-violência. E nós, seres hu- 
manos, aceitamos a violência, aceitamos uma maneira de vida que 
leva à guerra, uma maneira de vida que foi dividida, peias religiões 

e nacionalidades, em crenças, dogmas, rituais e monstruosos precon- 
ceitos. O homem aceitou esse estranho padrão de existência, “vir- 
tuosamente" condenando uma guerra e disposto a tomar parte noutra. 
Eie próprio é violento, brutal e agressivo, qualidades, dizem os an- 
tropologistas, herdadas do animal. Entretanto, o que dizem os antro- 
pologistas ou os especialistas pouco significa, porque nós mesmos 
temos a possibilidade de examinar e descobrir a natureza de nossa 
violência, nossa brutalidade uns para com os outros, não só no plano 
verbal, mas também por pensamentos e atitudes. Há milhares de 
anos, vimos aceitando uma forma de vida que leva inevitavelmente à 
guerra, ao morticínio em grande escala, e ainda não conseguimos alte- 
rá-la; os políticos sempre o tentaram, sem nenhum êxito. 

Nós, criaturas comuns, que não somos especialistas ou “entendi- 
dos", vivemos nesta sociedade com um enorme fundo de condiciona- 
mento; aceitamos este modo de viver corrompido, não sem amor e 
compaixão. Considerando-se tudo isso, o problema que se nos apre- 
senta é se, como entes humanos, temos possibilidade de operar em 
nós uma radical transformação interior, e passar além, alcançar o es- 
tado que o homem incansavelmente vem buscando e a que chama 
Deus — ou qualquer nome que lhe quiserdes dar: nomes não importam. 

Pois bem; podemos nós descobrir aquela entidade, ou isso está 
reservado somente a uns poucos? Devemos, primeiramente, interro- 
garmos sobre qual o lugar que compete à mente religiosa no mundo 
moderno, e se há possibilidade de descobrir o Amor. Esta palavra 
se tornou muito feia, tal como a palavra "Deus". Todos a usam: o 
teólogo, o merceeiro, o político; o marido diz à esposa, o namorado 
à namorada, etc. Mas, se a olhardes, a examinardes bem, vereis que 
ela tem sido a causa de muita aflição e conflito, de muitas torturas, 
e gera, também, a inveja, o ciúme e o medo. Perguntamos, por con- 
seguinte, se a mente pode iibertar-se de tudo isso, de modo que possa 
existir um amor não corrompido, não deformado pelo pensamento. 

Eis alguns de nossos problemas: as relações entre um homem 
e outro; se há possibilidade de se viver em paz íntima e com o pró- 
ximo; se existe uma realidade não criada peio pensamento; se existe 
amor, compaixão e afeição não contaminados pelo ciúme, maculados 
pelo medo, pela ansiedade e a "culpa”. Poderá a mente, tão condi- 
cionada como está, libertar-se, e, nessa liberdade, descobrir se existe, 
ou não, uma realidade suprema? Se não cuidarmos de explorar e 
descobrir, diretamente, a verdade relativa a tudo isso, então, é inevi- 
tável, faremos de nossa vida uma coisa mecânica, uma vida de luta 
constante, uma vida sem sentido. 

Disso, por certo, todos estão cientes; pelo menos os verdadei- 
ramente ardorosos devem ter feito a si próprios esta pergunta, ou 
seja se é possível descondicionar a mente para que possamos olhar 
a vida de diferente maneira, não mais sejamos cristãos, nem budis- 
tas, nem muçulmanos, nem hinduístas, etc., etc. Tem a mente con- 
dicionada a possibilidade de ser livre e, por conseguinte, vulnerável? 

A principal dificuldade é esta, que o homem vive fragmentado, 
não só em seu interior, mas também exteriormente: ele é cientista, 
médico, soldado, sacerdote, teólogo, especialista desta ou daquela 
matéria. Interiormente, sua vida está fragmentada, fracionada; sua 
mente, seu intelecto, é sutil e sagaz; por vezes, ele é brutal, agressi- 
vo, enquanto outras vezes pode mostrar-se bondoso, manso, afetuoso; 
esforça-se por ser um ente moral, embora a moralidade social seja 
de todo em todo imoral, e seus inúmeros desejos antagônicos são a 
causa dessa fragmentação existente por dentro e por fora, dessa con- 
tradição interior e exterior. E o homem forceja incessantemente por 
lançar uma ponte sobre o abismo e realizar uma integração, o que 
naturalmente é absurdo; a integração é impossível. Se examinardes 
essa palavra e descobrirdes todo o seu conteúdo, sereis forçados a 
perguntar a vós mesmos quem é a entidade capaz de realizar a integra- 
ção. Por certo, a própria entidade que irá integrar os múltiplos frag- 
mentos faz parte deles e, portanto, não poderá efetuar sua integração. 
Vendo-se isso claramente, ou seja que as parcelas de desejo, nesta 
nossa vida tão dividida e fragmentada, jamais poderão ser unidas, in- 
tegradas, porque a própria entidade, o próprio observador que está 
tentando ajuntá-las faz parte da fragmentação — se bem o percebe- 
mos, torna-se óbvio que deve haver um diverso modo de proceder; 
e ele consiste em ver a contradição, os fragmentos, as exigências e 
desejos contrários, observá-íos, para ver se há possibilidade de ul- 
trapassá-los, de transcendê-los. É este transcender que constitui a 
revolução radical. Então, a mente já não se verá dividida, torturada; 
já não estaremos em conflito interior, nem com o nosso próximo, onde 
quer que ele viva, na casa vizinha, na Rússia ou no Vietnã. Oxalá 
possamos observar esse fato! — pois estamos tratando apenas de 
fatos, e não de suposições ou ideais. Os ideais não têm significado 
algum; são contra-sensos, invenções do espírito solerte ao ver-se im- 
possibilitado de resolver um problema tal como, por exemplo, a vio- 
lência; inventa ele, assim, o ideal da não-violência. Dada a sua in- 
capacidade de resolver o problema da violência, criou o ideal da não- 
violência, ou seja nos tornarmos pacíficos, um dia, no futuro, e acon- 
tece então que a própria criação de um ideal produz mais conflito, 
mais luta, mais contradição. 

Importa, por conseguinte, observar este fato, que os entes hu- 
manos são terrivelmente violentos, que a cultura, a sociedade em que 
vivemos, toda a nossa maneira de vida, com sua avidez, sua inveja e 
competição, geram inevitavelmente a violência. Mais importante ainda 
é que nos tornemos cônscios da violência em nós existente, cônscios 
do que é e não do que devería ser; porque o deveria ser é uma ficção, 
um mito, uma idéia "romântica” que as religiões e os idealistas de 
todas as épocas sempre sustentaram e exploraram. De que serve o 
ideal da não-violência, se eu sou violento? Vede o quanto importa com- 
preender isto! Escutai em silêncio, atentos; não rejeiteis automatica- 
mente o que se está dizendo! Talvez sejais grandes idealistas, dedica- 
dos a uma certa causa ou ligados a uma determinada fórmula, teoria 
ou mito, e agora vos achais em presença de um homem que — deli- 
cadamente, porém com firmeza — vos está mostrando como tudo isso 
é absurdo. Cíaramente podeis ver que os ideais separaram os homens 
— o ideal cristão, o ideal hinduísta, o ideal comunista. E, segundo suas 
crenças, eles próprios estão divididos em numerosas seitas — cató- 
licos e protestantes, etc. O homem, por conseguinte, está sendo to- 
lhido por seus ideais, deles é escravo e, conseqüentemente, incapaz 
de observar o que é, e sempre a pensar no que deveria ser. 

Assim, a primeira exigência, o primeiro desafio que se vos apre- 
senta é este, que deveis observar-vos tal como realmente sois, e não 
como deveríeis ser, pois é um jogo muito infantil, uma luta pueril e 
sem nenhuma significação; olhar, observar a violência. Sois capazes de 
olhar, e como o fazeis? Eis um problema dificílimo, porquanto há cer- 
tos fatores que precisam ser bem compreendidos. Primeiro, devemos 
observar sem identificação, sem a palavra, sem o espaço entre o ob- 
servador e a coisa observada; devemos olhar sem nenhuma imagem, 
sem o pensamento, de modo que possamos ver as coisas como real- 
mente são. Isto é muito importante, porque, se não sabemos olhar, se 
não sabemos observar o que somos, então, inevitavelmente, criaremos 
conflito entre o que vemos e a entidade que vê. Espero que isso esteja 
mais ou menos claro. Observo que sou violento, no falar, nas atitudes, 
e em minhas atividades cotidianas, tanto em casa como no trabalho. 
Ora, só posso observar que sou violento, se não procuro fugir ou evi- 
tar esse fato, e decerto estou fugindo dele se busco refúgio num 
Ideal que prescreve que não devo ser violento, visto que esse ideal 
nada significa. Quando, entre mim, digo que não devo ser violento, 
tenho então o fato — a minha violência — e o ideal, isto é, o que 
deveria ser — não violento. Conseqüentemente, dá-se um conflito 
ontre o que é o o que deveria ser. Assim é, em geral, com a nossa vida. 

Deste modo, se a encaramos com seriedade, cumpre observar a 
natureza e estrutura da violência em nós existente e descobrir por 
que razão somos violentos. O mero descobrimento da causa da violên- 
cia não põe fim à violência; tampouco a análise, por mais hábil e 
sutil que seja, pode acabar com ela, e muito menos pode a violência 
ser dominada peio pensarmos na não-violência. “Violência” é uma 
mera palavra, e a descrição da violência, obviamente, não é o fato. 
Acompanhai o que estou dizendo. Talvez não estejais habituados a 
esta espécie de observação ou investigação, ou prefirais que ela fique 
a cargo dos especialistas, para os seguirdes cegamente, criando, desse 
modo, esta coisa terrível que é a autoridade. Se, entretanto, quereis 
libertar-vos da violência, tão profundamente radicada em vós, deveis 
primeiro aprender sobre vossa pessoa. Isso só podeis fazer se vos 
observardes, não segundo Jung ou Freud ou outro especialista, pois 
nesse caso estareis apenas a aprender o que eles já vos disseram, e 
isso, de modo nenhum, é aprender. Se, efetivamente desejais conhe- 
cer-vos, deveis pôr de lado a confortante autoridade de outrem, e tra- 
tar de observar. 

Essa observação é bem complexa, eriçada de dificuldades. A pri- 
meira delas é esta: o observador difere da coisa observada? Noto 
que sou violento, não apenas superficiaímente, conscientemente, po- 
rém a fundo; em todo o meu ser, sou violento. Observo-o no meu 
faiar, no meu andar, nos meus gestos, e no meu impulso ambicioso 
de sucesso. Neste país, principalmente, o bom êxito é exageradamente 
encarecido; temos de alcançá-lo, custe o que custar — o que implica 
violência, agressão, brutalidade. Vejo, pois, que sou violento, e essa 
entidade que observa é diferente, separada, da violência, da coisa que 
ela observa? Por favor, trabalhai também, ao mesmo tempo que o 
orador vai explicando. Permiti-me sugerir-vos que não fiqueis apenas 
escutando suas palavras, pois palavras são sem importância; o impor- 
tante é ver se a mente pode, ou não, iibertar-se desse terrível mal 
que se chama “violência"; e, quando se vê isso, a entidade que vê, 
o observador, difere da coisa que se está vendo, ou o observador e 
a coisa observada são uma só entidade? Compreendeis? O observador 
que diz “eu sou violento” é diferente da própria violência? Não é, 
naturalmente, e, portanto, que acontece? Atentai para isto, se sentis 
interesse! Que sucede quando o observador percebe que ele próprio 
é a violência que ele esteve observando? E que lhe cabe fazer para 
Iibertar-se dessa violência? Espero estejais compreendendo a com- 
plexidade deste problema, e que vós e eu estejamos em comunicação. 

Notai, por favor, que não estou tentando analisar-vos — que é uma 
coisa muito diferente e sem nenhuma relação com esta nossa investi- 

gação. Pois bem; entremos na questão, passo a passo! Quando o ob- 
servador, por si próprio, descobre que ele é a coisa observada, que 
ele é a violência, e esta não existe separada dele, não é uma coisa 
que ele possa alterar ou controlar — cessa então a divisão entre o 
observador e a coisa observada e, conseqüentemente, o observador 
eliminou a causa do conflito e da contradição em si existentes. Entre- 
tanto, o fato — a violência — subsiste; sou ainda violento por natu- 
reza, todo o meu ser é violento, e é puro absurdo que uma parte de 
mim mesmo é pacífica e amorávei, e outra parte violenta. Violência 
significa divisão, contradição, conflito, separação e falta de amor; mas 
percebi agora o fato central, ou seja, que o observador e a coisa 
observada são um só todo. Ora, pode a minha mente observar a ima- 
gem do que ela considera “violência”, e bem assim os meus “direitos 
adquiridos” nessa violência? — pois a imagem que tenha a respeito 
de mim mesmo e da violência deve desaparecer inteiramente, para que 
minha mente fique livre para observar. E, depois de observar, perma- 
nece ainda o fato de que sou violento, mesmo se digo que eu e a 
violência formamos um conjunto. Que cumpre fazer? Quando observo 
que sou violento e vejo claramente que o observador é essa violência, 
compreendo então que não posso fazer absolutamente nada, porque 
toda ação, positiva ou negativa, faz ainda parte da violência. 

Por outras palavras: há o problema do egocentrismo; somos imen- 
samente egoístas, somos egocêntricos. Podemos dar-nos ao incômodo 
de ajudar o nosso próximo, mas, bem no fundo, trata-se daquela ati- 
vidade egocêntrica. É coisa semelhante a uma árvore cuja raiz prin- 
cipal tem inúmeras raízes, e tudo o que a mente faz ou deixa de fazer 
nutre essa raiz. Está claro isto? Estamos considerando um problema 
complexo; portanto, permiti-me lembrar-vos o que dissemos anterior- 
mente, ou seja que a descrição nunca é a coisa concreta. Com isso 
em mente, percebe-se a necessidade de estar em contato com o fato, 
que é aquela ação egocêntrica, existente a todas as horas dentro de 
cada um de nós. Essa ação é que causa a separação, o isolamento, a 
divisão e a fragmentação, e tudo o que fazemos dela faz parte. Assim, 
perguntamos a nós mesmos se não há uma ação de qualidade dife- 
rente. Entretanto, como o próprio ato de perguntçr faz parte da frag- 
mentação, compreende-se que temos de olhar para a violência em 
completo silêncio. (Pausa) — O orador vos está transmitindo alguma 
coisa? (Sim) — Por favor, não concordeis, senhor! A questão, aqui, 
não é de concordar nem de discordar, porém, sim, de percepção de 
vossa parte. Este orador pouco importa; o importante é que vós mes- 
mos descubrais as coisas, a fim de serdes livres e não entes humanos 
“de segunda mão”. Cumpre olhar para descobrir — descobrir se a 

mente pode, ou não, libertar-se por inteiro de sua violência, orgulho 
e arrogância e assumir uma natureza bem diversa. Para apurardes isto, 
deveis olhar intimamente, e descobrir diretamente; o descobrimento 
será então vosso, e não de outrem, coisa ensinada por outrem — 
pois não há instrutor nem discípulo. Por infelicidade, a palavra "guru" 
anda de boca em boca neste país; em sânscrito ela significa "aquele 
que indica" — qual um indicador de direção, na estrada. Ora, vós não 
adorais esse indicador, não depositais flores a seus pés; tampouco 
seguis as suas indicações como se fossem ordens misteriosas, ema- 
nadas de um suposto guru; ele é um simples indicador, que ledes e 
deixais para trás. 

Tendes, pois, de ser vosso próprio mestre e vosso próprio dis- 
cípulo, porquanto, fora de vós, não existe nenhum instrutor, nenhum 
Salvador, nenhum Mestre; vós mesmos tendes de transformar-vos e, 
por conseguinte, cabe-vos aprender a observar e a conhecer-vos. Esse 
aprender acerca de si próprio é uma atividade fascinante, proporcio- 
nadora de grande alegria; é aprender sobre a violência, que faz parte 
da estrutura de vossa vida. E, para aprender, a mente deve ser livre; 
ela não pode aprender algo da violência se previamente acumulastes 
conhecimentos a seu respeito. Pensamos que acumular conhecimentos 
é aprender; adquirir conhecimentos e aprender são duas coisas dife- 
rentes. O médico, o cientista, o engenheiro, acumularam conhecimen- 
tos, que vão aumentando à medida que se fazem novas descobertas; 
sua ciência, por conseguinte, se torna um depósito, uma tradição. Isso 
não é aprender. Só é possível aprender num estado de constante mo- 
vimento; só há aprender no presente ativo. Aprender é um movimento, 
quer estejais aprendendo em conjunto com outros, quer aprendendo 
sozinho. Tem-se de aprender constantemente, e não, tendo aprendido, 
aplicar o que se aprendeu, o que se acumulou. Isso não é aprender, é 
mera acumulação de conhecimentos. 

Encerra o aprender um grande júbilo; não há desesperar-vos com 
o que vedes, porque não o comparais com o ideal, que deveria ser: só 
há o que é, e observar o que é é aprender infinitamente. Tudo está 
contido em vós; como este que vos faia, não tendes necessidade de 
ler nenhum livro, porque o homem é tão velho como aqueles montes 
— • mais velho ainda. Ele é um ente vivo, e um ente vivo não deve ser 
condicionado. Mas nós o condicionamos, e eis por que nossa vida se 
tornou uma tortura, uma luta sem nenhuma significação. 

Não sei se desejais fazer perguntas. Fazer uma pergunta requer 
que sejais completamente céticos a respeito de tudo, inclusive do que 
está dizendo este orador, que não é nenhuma autoridade. Devemos 
ser céticos, embora, naturalmente, devamos saber quando "soltar o 

freio”, a fim de não sermos sempre céticos. Naturalmente, deveis fa- 
zer perguntas, perguntas corretas, o que é dificílimo. Notai que não 
quero impedir-vos de interrogar-me. Muito importa fazer uma interroga- 
ção fora do comum, que exija tudo de vós, a qual seja verdadeira para 
vós, não para o orador ou outro qualquer. Cumpre, naturalmente, for- 
mular questões dessa espécie, porém, ao mesmo tempo, não deveis 
aguardar a resposta de outrem, porque ninguém pode responder-vos. 

Só os tolos dão conselhos. Assim, peço-vos fazer perguntas sérias, 
e não perguntas descabidas, sem profundeza nem significação. 

INTERROGANTE: Falastes sobre o silêncio, e há ocasiões em que 
minha mente fica em silêncio; mas, que é esse silêncio a que alu- 
distes? 

KRISHNAMURTI: O orador pode dizer-vos o que é esse silêncio; 
porém, se não é vosso silêncio, ele pouco significará! 

O silêncio é absolutamente necessário, para olhardes, escutardes, 
observardes; se vossa mente está a fazer barulho — e nossa mente 
está perpetuamente a tagarelar — que possibilidade tendes de es- 
cutar? Que possibilidade tendes de olhar uma árvore, uma nuvem ou 
um pássaro, sem aquele silêncio? Se desejais olhar uma árvore ou 
a luminosidade de uma nuvem, vossa mente deve estar em silêncio; 
mas não deveis forçá-la, só porque desejais ver a beleza da árvore. É 
muito importante olhar, ver, sem a imagem, e deveis estar em silêncio 
para olhardes vosso marido ou vossa esposa. É só em silêncio que 
se aprende, e o Amor é o silêncio absoluto. 

Esse Amor nos é desconhecido, porque o pensamento, que gerou 
o prazer e o medo, projeta sua sombra em tudo. Aquele silêncio faz 
parte da meditação (não vamos tratar desta matéria agora, porque é 
vasta demais], mas se não compreendemos a meditação, sua beleza, 
seu êxtase, a verdadeira bênção que eia é, a vida é sem significado. 
A meditação não é uma coisa separada da vida cotidiana, nem consiste 
em aprender um certo artifício num mosteiro, seja do Zen, seja de 
outra religião; a meditação é uma maneira de vida, e faz parte daquele 
imenso silêncio a que nos estamos referindo. Durante estas três pa- 
lestras públicas, talvez possamos considerar a meditação, e também 
o amor e a morte. 

INTERROGANTE: Podemos examinar a questão da observação sem 
observador? 

KRISHNAMURTI: Que é o observador? Vejamosl Examinemos jun- 
tos esta questão. Não vos limiteis a ouvir e aceitar ou rejeitar. Façamos 
juntos a jornada. Que é o observador? O observador é a experiência, 
não importa se de ontem se de há um milhar de “ontens”. O obser- 

vador é conhecimento acumulado, memória; o observador é, essencial- 
mente, a tradição, o pretérito, as cinzas frias de muitos milhares de 
dias idos. O observador é aquele que diz: “Fui ofendido, estou enrai- 
vecido, insultaram-me, este é meu ponto de vista, esta é minha opi- 
nião"; aquele que pensa, e vive emaranhado em fórmulas; tudo isso 
constitui o observador. Assim, o observador é essencialmente o pas- 
sado; e pode-se olhar, observar sem o passado? Podeis observar uma 
árvore — comecemos com uma coisa simples! — podeis observar 
uma árvore, uma nuvem, um pássaro no ar, sem o passado, quer dizer, 
sem a palavra, sem vossos conhecimentos, sem as imagens que ten- 
des sobre a árvore, sobre o pássaro? Podeis olhar sem o passado? 
É relativamente fácil olhar um objeto familiar sem o pretérito, sem o 
ontem, mas podeis olhar vossa esposa ou vosso marido sem a imagem 
do passado, sem a lembrança de ofensas, importunações, disputas, 
brutalidades, de prazeres e deleites, e sem as exigências, as esperan- 
ças e temores ocultos, não-manifestados? Podeis olhar sem nada dis- 
so, de modo que estejais olhando com olhos novos? Isso é bem 
difícil, porque exige atenção, requer a energia do aprender. 

Nós, entes humanos, não estamos em relação uns com os outros, 
com os nossos maridos ou nossas esposas, por mais intimamente que 
estejamos vivendo, por mais vezes que tenhamos dormido juntos. Nós 
temos imagens, e a relação é entre imagens e não entre seres huma- 
nos, pois estes são entes vivos e é perigoso, inseguro, ter relações 
com um ser vivo. Acima de tudo, queremos estar bem seguros em 
nossas relações. Eis por que dizemos “Conheço minha mulher, meu 
marido, meu vizinho, meu amigo”. Olhar sem o observador, isto é, 
olhar sem o passado, sem a memória, sem as esperanças, os temores, 
os prazeres e gozos, tristezas e desesperos, acumulados através do 
tempo — olhar dessa maneira é o começo do amor. 

8 de novembro de 1968. 

O MEDO 
( 2 ) 

Em nossa última reunião estivemos considerando a questão da vio- 
lência e quão preponderante ela se tornou em nossa vida, da infância 
à morte. Essa violência, essa agressividade, essa brutalidade, preva- 
lece em todo o mundo — não só no indivíduo, traduzida em ódio e 
falsa lealdade, mas também exteriormente, com a nossa aceitação da 
guerra como a norma da vida. A violência se originou do direito de 
propriedade, dos direitos sexuais, e das diferentes crenças ideológicas. 
Com tudo isso estamos bem familiarizados, vemo-lo muito claramente. 

Todas as religiões mandam: não matar, ser bondoso, compassivo, 
etc., mas as religiões organizadas não têm nem nunca tiveram signi- 
ficação. Vemo-nos pois, em presença deste problema — o problema 
da violência — e não podemos deixar de perguntar se o ente humano 
tem alguma possibilidade de, não só em suas relações pessoais, mas 
também em suas relações com a sociedade, libertar-se completamente 
dessa violência. Esta não é uma pergunta teórica ou intelectual, por- 
quanto se trata de um problema real que se apresenta a cada um de 
nós, tanto psicologicamente, interiormente, como exteriormente, no lar 
e no trabalho. Em todas as atividades existe esse espírito agressivo, 
gerador de ódio e animosidade. Indagamos, pois, se é possível desar- 
raigar completamente, não só no nível superficial, consciente, senão 
também nos níveis mais profundos da mente, essa violência, para po- 
dermos viver em paz uns com os outros e ultrapassarmos as divisões 
nacionais, a separação religiosa, os dogmas, crenças, teorias e ideo- 
logias. 

Consideremos agora o problema sob outro aspecto. Uma de nos- 
sas principais dificuldades parece-me ser esta que, embora dotados de 
abundante energia, carecemos do impulso, da vitalidade e do entusias- 
mo necessários a operarmos a transformação de nós mesmos. Afinal 
de contas, o conhecimento próprio (não de acordo com este ou aque- 

ie especialista) é dentre todas a coisa mais importante, a base de 
qualquer ação. Se não nos conhecermos, se não nos penetrarmos do 
espírito meditativo em nós existente, nenhuma base teremos e toda 
ação se tornará fragmentária, contraditória. É desse estado de contra- 
dição que nasce o conflito que aflige cada um de nós. Tudo o que 
fazemos, tudo o que pensamos, tudo o que tocamos, gera conflito e 
luta, desperdiçando-se assim, de várias maneiras, a energia de que tan- 
to necessitamos para a revolução interior, a revolução psicológica. Es- 
ta revolução significa libertar-nos completamente do nosso conflito; 
mas isso não quer dizer que iremos viver satisfeitos, vegetando ou 
levando a plácida existência de uma vaca. Pelo contrário, quando não é 
utilizada para fins maléficos, como acontece atualmente, essa energia 
é o elemento transformador no autoconhecimento. Embora os antigos 
gregos, e também os hinduístas e budistas, tenham dito “Conhece-te 
a ti mesmo", muito pouca gente até hoje cuidou disso. Para nos co- 
nhecermos não necessitamos de nenhuma autoridade, seja da Igreja, 
seja de um Salvador ou Mestre, seja de um especialista; o que se tem 
de fazer — quando se é realmente sério e ardoroso — é, tão-só obser- 
var — não apenas criticamente, mas também com uma mente que es- 
teja livre para aprender. (Uma criança começa a chorar), Quem pode 
fazer-se ouvir? 

Na índia, onde falo ao ar livre, três ou quatro mil pessoas trazem 
consigo os filhos; também comparecem estudantes, mendigos — se- 
res humanos de toda espécie. A maioria não entende inglês, porém 
acha importante, louvável, tomar parte numa assembléia religiosa. Con- 
seqüentemente, faz-se muito barulho, para o qual ainda contribuem os 
corvos e outras aves. Todos participam nesse gênero de reunião, não 
só os pássaros e as crianças, mas também os que sabem pouco e não 
entendem muito; mas, ainda assim, é sempre bom tomar parte numa 
reunião dessas. Aqui, onde se fala e entende o inglês, vale a pena e 
tem importância que crianças e velhos, e também indivíduos de meia- 
-idade, se reúnam para considerar séria e intimamente os problemas 
que defrontam cada um de nós. 

Por infelicidade, não somos suficientemente sérios, pois temos 
preconceitos e conclusões, que nos impedem de examinar-nos; nossa 
experiência e bem assim o nosso saber atuam como barreiras e, por 
conseguinte, se pudermos escutar com uma mente ardorosa e disposta 
a investigar, então, nesse estado de comunhão, não ficaremos mera- 
mente a ouvir palavras ou a colecionar idéias novas, porém estaremos 
penetrando fundo em nós mesmos e aprendendo a nosso respeito. 

Por certo, aqui nos reunimos com o intuito de estudar-nos pro- 
fundamente e descobrir-nos, e não de ser informados sobre o que 

devemos fazer e o que devemos pensar Icoisa tão pueril), nem de criar 
mais uma autoridade, mais um guru, etc., etc. O autodescobrimento 
não consiste em perguntarmos “quem sou eu?”, mas, sim, em nos 
observarmos, tal como observamos nosso rosto num espelho; obser- 
varmos nossas ações, nossos gestos e as palavras que empregamos; 
observarmos a maneira como olhamos uma árvore, um pássaro ou uma 
nuvem que passa; observarmos nossa esposa, nosso marido, nosso 
vizinho. Começamos, assim, por meio da observação, a descobrir o 
que somos, pois nunca somos estáticos; não há em nós nada de per- 
manente, embora os teólogos e outros indivíduos “piedosos” afirmem 
que há — mas isso não é mais do que uma teoria, uma idéia. Cumpre, 
pois, investigar, com alegria e liberdade, se a mente — a mente hu- 
mana que vive há milhões de anos, que tão condicionada foi por mi- 
lhares de experiências, que abraçou e aceitou tantas idéias e ideolo- 
gias — se essa mente é capaz de penetrar em si própria e descobrir 
se tem, ou não, possibilidade de libertar-se compietamente da vio- 
lência. 

Consideremos agora de maneira diferente este problema. Enquan- 
to houver medo, haverá necessariamente violência, agressão, ódio e 
cólera. A maioria das criaturas têm medo, não só exterior, mas tam- 
bém interiormente, conquanto o exterior e o interior não sejam sepa- 
rados, sendo em verdade um só movimento. Assim, se compreender- 
mos o interior, sua configuração e natureza, e a inteira estrutura do 
medo, será então bem possível criarmos uma sociedade diferente, 
uma diferente cultura, já que a sociedade atual está corrompida e sua 
moralidade é imoral. 

Cabe-nos, pois, averiguar, não ideológica ou intelectualmente (co- 
mo uma espécie de entretenimento), cabe-nos averiguar, descobrir por 
nós mesmos se temos, ou não, a possibilidade de nos libertarmos do 
medo. Há diferentes formas de medo: medo do escuro, medo de per- 
dermos o nosso emprego ou os meios de sustento, medo de que se 
descubra que praticamos no passado um certo ato vergonhoso, medo 
da esposa ao marido, medo do marido à esposa, medo dos pais aos 
filhos, medo de não ser amado, medo da velhice, da solidão, da morte 
— tantas formas de medo! Assim, a menos que o compreendamos, 
este fato central que é o medo, ficaremos vivendo na escuridão e, por 
conseguinte, jamais nos livraremos de nossa brutalidade, de nossa 
agressividade, nossa inveja e competição. 

Que é o medo? Qual o estado real, não as várias formas de medo? 
Qual a causa do medo? Notai, por favor, como já dissemos, que este 
orador não é nenhum analista, não está fazendo uma espécie de aná- 
lise coletiva. A análise não nos interessa, absolutamente, porque. 

como vereis mais adiante, análise é desperdício de tempo. A análise 
pede um analista e uma coisa para analisar, enquanto o próprio analista 
é a coisa analisada. O analista não pode separar-se da coisa que 
deseja analisar e, assim, observando-se esse fenômeno, pode-se ver 
o enorme desperdício de tempo que é a análise. Podeis, se sois rico e 
vos dá gosto, entreter-vos com ela, como uma espécie de jogo; mas, 
se desejais verdadeiramente transcender a natureza e a estrutura do 
medo, extirpá-io de todo, não deveis observá-lo por meio de nenhum 
processo analítico ou com um propósito intelectual, porém diretamen- 
te. Para compreenderdes qualquer coisa, principalmente uma coisa 
viva, cumpre-vos observá-la com uma mente viva, e não com o saber 
morto, com uma coisa já aprendida e sabida. 

É isso, pois, o que vamos fazer aqui e, escutando, não estareis 
escutando este orador, que nenhuma importância tem. Ele é como o 
telefone: sem nenhuma importância! O importante, sim, é o que o 
telefone transmite. É necessário, pois, observardes a vós mesmos, 
observardes vossa própria mente mediante as palavras do orador, dele 
vos servirdes como se fosse um espelho. E, quando vos observardes 
como um ente humano fortemente condicionado pelo passado, todo 
emaranhado nas redes da tristeza e da aflição, dessa observação re- 
sultará uma compreensão que produzirá uma ação de qualquer bem 
diferente. Esta ação é que juntos vamos explorar, examinar, considerar 
— não como mestre e alunos ou como guru e discípulos, mas como 
amigos desejosos de resolvèr os imensos problemas da vida cotidiana. 
Se não lançarmos uma base sã, adequada, justa, não será possível ir 
longe, não haverá possibilidade de meditar ou de descobrir o verda- 
deiro. 

Para lançarmos a base correta, de modo que possamos ser a luz 
de nós mesmos, cumpre-nos compreender o medo. Que é o medo? Não 
se trata de dominar o medo. Não sei se já notastes que tudo aquilo 
que precisa ser dominado tem de ser dominado de novo, vezes sobre 
vezes. Se alguma vez conseguistes vencer alguma coisa — qualquer 
coisa, qualquer inimigo interno ou externo — vos vedes constante- 
mente obrigado a tornar a vencê-lo. Nós aqui não queremos dominar 
o medo, nem tampouco reprimi-lo ou aiterá-lo, porém estamos tentan- 
do compreendê-lo, descobrir o que ele realmente é e como se origina. 
Que é, pois, este medo — medo do que foi, medo de ontem, medo do 
amanhã, medo de não ser e de não vir a ser, isto é, o medo dentro do 
tempo. Se vos vedes frente a frente com um desafio, com uma enorme 
crise em vossa vida, não há então nem ontem nem hoje: agis instan- 
taneamente, não é verdade? É o pensar no que ontem sucedeu ou no 
que poderá acontecer amanhã, que gera o temor; porém, quando vossa 

ação é imediata, não podeis pensar no que está acontecendo agora, 
neste instante; o pensamento não tem entrada no presente ativo. Só 
depois de acabada a ação pode-se pensar no que poderia ter aconte- 
cido, pode-se pensar no passado ou no futuro. Por conseguinte, a causa 
do temor é o pensamento: o pensar no passado e no futuro, o pensar 
no ontem e no amanhã. Ontem padecestes dores, e amanhã elas po- 
derão voltar; amanhã poderei perder o meu emprego; por isso, sinto 
medo. Observai vossa própria mente e coração! Fazei vós mesmos 
esse exame e vereis como tudo se tornará simples! Se não o fizerdes, 
neste caso tudo se tornará extremamente complexo e sem nenhuma 
significação. O pensamento, pois, gera medo — o pensar que eu tal- 
vez não consiga alcançar sucesso na vida; o pensar que não sou ama- 
do e na minha extrema solidão; o pensar que se descubra um certo 
ato vergonhoso que cometi; o pensar em perder alguma coisa que me 
é preciosa e cara. Dessarte, o pensamento traz sempre, na sua esteira, 
pesares e desespero. Além de ser a fonte do medo, o pensamento é 
também a fonte do prazer. O pensar numa coisa que vos proporciona 
deleite dá nutrição e substância a esse prazer. Quando vedes o pôr- 
-do-sol, por uma bela tarde, ou a luz do alvorecer nos montes, e 
absorveis toda a beleza e encantamento desse espetáculo; ou quando, 
no meio de completa quietude e silêncio, ouvis o grito de uma co- 
dorniz — quando isso acontece, não há, no exato momento da percep- 
ção, nenhum pensamento, mas, tão só, uma apreensão tota! das coisas. 
Entretanto, tão logo começais a pensar nesse deleite, tão logo voltais 
a ele, dizendo: “Preciso repeti-lo, prender de novo sua beleza” — 
então, esse pensar vos faculta mais prazeres. Como vemos, o pensa- 
mento gera prazer e gera medo. Este é um óbvio fato psicológico que 
aceitamos intelectualmente, mas tal aceitação não tem valor, porquan- 
to o prazer contém o germe do medo; por conseguinte, prazer é medo. 

Reparai nisto! Não digo que deveis privar-vos do prazer. Todas as 
religiões do mundo sempre condenaram o prazer, sexual ou de outra 
espécie; nós não o estamos condenando. O homem verdadeiramente 
religioso não nega nem reprime: aprende, observa. 

Assim, o pensar no que sucedeu ou poderá suceder produz medo, 
como, por exemplo, o medo da morte — que queremos muito longe de 
nós, no futuro distante, mas que sempre está presente. O mesmo 
acontece ao pensarmos em algum erro que antes cometemos, do qual 
outros possam tirar vantagem, ou quando pensamos no prazer do sexo 
e mantemos viva a sua imagem. Esse pensamento a respeito de uma 
coisa causa medo ou prazer. 

Apresenta-se, assim, a questão: É possível vivermos a vida de cada 
dia sem nenhuma interferência do pensamento? Esta pergunta não é 

tão absurda como parece; ao contrário, é uma pergunta muito impor- 
tante, porque, através das idades, o homem sempre endeusou o pen- 
samento e o intelecto, em tantos livros, com suas brilhantes teorias, 
em tantas obras teológicas, com seus conceitos relativos a Deus e à 
maneira de viver virtuosamente. Esses "entendidos” e especialistas vi- 
vem como atados a uma estaca, impedidos de ir longe pelo seu con- 
dicionamento. Quaisquer que sejam os seus pensamentos, são entes li- 
mitados. E seus deuses, seus dogmas e rituais, visto que resultam de 
dez mil anos de propaganda, nada significam. O homem endeusou o 
pensamento, colocou-o num pedestal. Considerai a imensa quantidade 
de livros que já se escreveram! 

Pois bem; que é o pensamento, e qual a sua importância? Sei que 
há indivíduos que mandam “matar a mente”. Não se pode matar a 
mente, não se pode abandonar o pensamento tão facilmente como se 
despe uma peça de roupa. Tendes de compreender esse extraordinário 
processo do pensar — do vosso próprio pensar — não pelo estudo de 
livros ou pelo ouvirdes conferências a respeito do pensamento. Ao 
pensardes, de onde vem esse pensar? Quando é necessário o pensa- 
mento, e quando não é? Quando é ele um impedimento e quando uma 
ajuda? Tendes de descobrir essas coisas diretamente, sem serdes guia- 
dos por este orador ou outra autoridade qualquer. 

Como bem sabeis, o mundo se está tomando cada vez mais 
autoritário, não só religiosa e politicamente, mas também psicologica- 
mente. Necessita-se, é natural, de uma certa espécie de autoridade em 
assuntos técnicos; porém, exercer autoridade em matéria religiosa e 
psicológica é uma verdadeira abominação; o homem não é então livre 
e jamais poderá sê-lo. E a liberdade é de absoluta necessidade. Como 
pode ser livre a mente medrosa? Anuviada por seu perpétuo pensar e 
“tagarelar”, como pode a mente ser alguma vez livre, para olhar, inves- 
tigar, viver, e conhecer aquele êxtase que não é prazer? Que é, pois, 
o pensamento, e pode o pensamento cessar num certo nível e continuar 
a funcionar, noutros níveis, de maneira racional, sã, objetiva, sem emo- 
ção, impessoalmente? Isto é, o conhecimento do universo e das coisas 
é necessário — a ciência. Mas, observa-se também que o pensamento 
gera medo e prazer; portanto, pergunta-se: “Este pensamento pode 
terminar?" — Assim, mais uma vez, cabe-vos descobrir, por vós mes- 
mos, para que deixeis de ser entes humanos “de segunda mão” — 
como agora sois. Que é o pensamento? Ora, isto é muito simples: O 
pensamento é a reação da memória. Alguém vos faz uma pergunta 
familiar e respondeis imediatamente; e, se a pergunta é um pouco mais 
complexa, precisais de tempo para responder. Durante o intervalo entre 
a pergunta e a resposta, a memória está em ação e, dessa base, res- 

pondeis, O pensamento, pois, é reação da memória, e a memória um 
depósito de milhares de experiências, tanto conscientes como incons- 
cientes. Isto é, o inconsciente é o imenso repositório da memória da 
raça, da tradição, seja cristã, seja hinduísta ou budista, onde se oculta 
a acumulação de muitos séculos; e a mente consciente é o deposito 
dos conhecimentos que adquiristes. Em virtude dessa estrutura da 
memória estais condicionados, e reagis com esse condicionamento; se 
estais condicionados como republicanos, democratas ou comunistas, é 
com esse fundo, com essa memória, que reagis. Se fostes criados co- 
mo cristãos, doutrinados pela propaganda da igreja, com seus dogmas 
e rituais, é de acordo com essa memória, com esse condicionamento, 
que reagis. Ou, se sois hinduístas, reagis com vosso fundo de deuses e 
pujas e ritos do templo, etc. Acompanhai, por favor, esta explicação. 
Poderá parecer muito complicada, mas só verbalmente o é. O pensa- 
mento, pois, é a reação das células cerebrais, que acumulam conheci- 
mentos como experiência; e, tendo-se separado, o pensamento se divi- 
diu em pensador e pensamento. O pensador diz: "Eu tenho medo”; o 
pensador, o eu, está separado da coisa de que tem medo, do próprio 
medo, e, conseqüentemente, existe esta dualidade, esta divisão: pen- 
sador e pensamento, observador e coisa observada, experimentador e 
coisa experimentada. Essa dualidade ou divisão, essa separação é a 
causa do esforço, a fonte de onde emana o esforço. Além da óbvia 
dualidade — homem e mulher, preto e branco — existe uma dualidade 
interior, psicológica, representada pelo observador e pela coisa obser- 
vada, o experimentador e a coisa experimentada. Nessa divisão, em que 
estão compreendidos o tempo e o espaço, acha-se contido todo o 
processo do conflito. Isso vós mesmos podeis observar. Vós sois vio- 
lentos — um fato — e tendes também o conceito ideológico da não- 
-violência e, conseqüentemente, dualidade. "Ora”, diz o observador, 
"eu posso tornar-me não-violento”; esse esforço para tornar-se não- 
-violento é conflito, desperdício de energia; mas, se o observador es- 
tiver totalmente cônscio dessa violência — sem o conceito ideológico 
da não-violência — estará então em condições de resolver imediata- 
mente o problema da violência. 

Cabe-nos, por conseguinte, observar esse processo dualista em 
ação, em nosso interior: a divisão em "eu” e "não eu", observador e 
coisa observada. Foi o pensamento que efetuou essa divisão. É ele 
quem diz: "Estou insatisfeito com o que é e só poderei satisfazer-me 
com o que deveria ser; é o pensamento que, tendo fruído uma certa 
experiência, diz: "Preciso repeti-la". Existe, pois, em cada um de nós, 
esse processo dualista, contraditório. Esse processo é um desperdício 
de energia. Por conseguinte, perguntamos a nós mesmos (espero o 

estejais fazendo) por que existe esta divisão? Por que existe este es- 
forço constante entre o que é e o que deveria ser? É possível erradicar 
de todo o que deveria ser, o ideal, que é o futuro e também o que foi, 
o passado, com o qual se constrói o futuro? Existe reaimente um ob- 
servador a não ser o próprio pensamento, dividido em observador e 
coisa observada? Podeis olhar esta questão e pô-!a de lado, ou podeis 
olhá-la e examiná-la profundamente, porque, enquanto existir observa- 
dor tem de haver divisão e, por conseguinte, confiito. O observador é 
sempre o passado: nunca é novo. A coisa observada pode ser nova, 
mas o observador a traduz sempre de acordo com o "velho”, o passa- 
do, e, assim, o pensamento nunca poderá ser novo e, portanto, livre. 
Ele é sempre “o velho" e, dessarte, quando endeusais o pensamento, 
estais endeusando uma coisa morta. O pensamento é como os filhos de 
uma mulher estéril. E os que são tidos por grandes pensadores estão, 
em verdade, vivendo do passado: por conseguinte, são entes humanos 
mortos. 

O pensamento, pois, criou o prazer e também o medo, e este gerou 
a violência. Deste modo, o problema é: existe o medo e existe a vio- 
lência; e, se os consideramos meramente na base de palavras, de 
descrições, não lhes poremos fim. Vejo claramente como o pensamento 
gerou esse medo. "Posso perder uma certa coisa que me é muito pre- 
ciosa" — eis o pensamento a gerar medo! Se o pensamento reprime 
a si próprio, dizendo "Não quero pensar nisto” — o medo continua exis- 
tente. Existe medo, e o pensamento não pode ser reprimido; isso po- 
deria resuitar numa forma aguda de neurose. 

Que sucede quando o observador é a coisa observada? Compre- 
endeis esta pergunta? O observador é o resultado do passado, do pen- 
samento; e a coisa observada, ou seja o medo, é também resultado do 
pensamento e, assim, tanto o observador como a coisa observada são 
produtos do pensamento. Ora, não importa o que o pensamento faça 
em reiação a esse estado de medo — se o aceita ou reprime, se in- 
terfere e tenta sublimá-io — o que quer que ele faça só irá dar con- 
tinuidade ao medo, em forma diferente. Assim, o pensamento obser- 
vando esse processo em sua inteireza; aprendendo profundamente a 
respeito de si mesmo (sem ser ensinado por outrem); vendo, por si 
próprio, a natureza e a estrutura do medo — percebe então que tudo 
o que faz em reiação ao medo só dá nutrição ao medo. Que acontece 
então, que resuita dessa compreensão? 

Espero estejais prestando atenção a tudo isto. Já observei o me- 
do — que é pensamento — e já observei o prazer. Pois bem; o ob- 
servador é a coisa observada, embora o pensamento tenha separado 
o observador e a coisa observada. Vejo isso com clareza; há uma 

compreensão desse fato, não como conceito intelectual, porém como 
uma realidade verdadeira, e, assim, que sucede? A compreensão não 
é intelectual e, por conseguinte, é a mais elevada forma da inteligên- 
cia; ser inteligente dessa maneira significa ser altamente sensível, 
cônscio da natureza e da inteira estrutura do medo. Se reprimo o medo 
ou fujo dele, não há então a percepção sensível do medo e de tudo 
o que ele implica. Por conseguinte, cumpre-nos aprender a respeito do 
medo, e não fugir dele; só posso aprender acerca de alguma corsa 
quando estou em direto contato com ela, e isso só pode ocorrer se 
sou capaz de olhar livremente. Essa liberdade é a mais alta forma de 
sensibilidade, não só física, mas também intelectualmente; o próprio 
cérebro se torna aitamente sensível. Essa compreensão é inteligência, 
e esta inteligência é que irá atuar; com eia não existe medo; o medo 
só aparece na ausência da inteligência. Isso precisa ser compreendido 
num nível muito profundo e não apenas verbalmente, porque, como já 
dissemos, a palavra não é a coisa, e a descrição nunca é a coisa descri- 
ta. Podeis descrever um prato de comida a um homem faminto, mas 
as palavras, a descrição não lhe matarão a fome. Essa inteligência é 
a mais alta forma de sensibilidade, não só no nível físico (aqui estão 
implicadas muitas coisas que infelizmente não temos tempo para exa- 
minar), mas também no nível psicológico, profundo, e é essa inteli- 
gência que constitui a base da virtude. Hoje em dia, ao que parece, 
quase todo o mundo menospreza a palavra “virtude”, ta! como menos- 
preza as palavras “humildade” e “bondade"; perdeu-se de todo o sig- 
nificado dessas palavras. Mas, sem virtude não pode existir ordem; 
não nos referimos à ordem política ou econômica, porém a uma coisa 
inteiramente diferente. A ordem a que aludimos é virtude — não a cha- 
mada virtude ou moraiidade da Igreja ou da sociedade, baseada na 
autoridade. A moralidade da Igreja e das religiões organizadas é imoral, 
porque transige com a sociedade; para essas organizações a virtude 
é um ideal, mas a humildade não é cultivável. A ordem, pois, é virtude, 
e essa ordem só virá ao compreendermos o processo negativo da de- 
sordem em nós existente, ou seja a contradição, a divisão criada pelo 
processo do pensamento. A menos que compreendamos a fundo esse 
estado de ordem, de virtude, e estabeleçamos as suas bases em nós 
mesmos, não teremos possibilidade de examinar a questão da medi- 
tação, nem de descobrir o que é o amor e o que é a Verdade. 

E, agora, se tendes tempo e disposição, podeis fazer-me perguntas, 
para exminarmos juntos estes assuntos. 

INTERROGANTE: Podeis explicar a verbalização ocorrente em nos- 
so interíqr ao desejarmos olhar com clareza determinada coisa? 

KRISHNAMURT1: A mim me pergunto se já nos observamos inte- 
riomente, se já objervamos quanto estamos escravizados às palavras, 
à verbafização. Por quê? Somos incapazes de olhar qualquer coisa — 
uma nuvem, uma ave, aqueles montes maravilhosos, nossa esposa ou 
nosso marido — sem esse processo de verbalização. Por quê? Por que 
razão não podemos olhar alguma coisa sem nenhuma imagem? A com- 
preensão disso constitui um problema bastante complexo. Por que é que 
tudo olhamos através de uma imagem, ou seja da palavra? Por que olho 
minha esposa, ou meu marido, ou meu amigo, com uma idéia anteci- 
pada? Minha esposa faz-me tantas coisas — possuiu-me, irritou-me, 
ameaçou-me ou importunou-me, insultou-me e abandonou-me. E, gra- 
dualmente, com o decorrer do tempo, fui juntando tudo isso, que se 
tornou memória; e recordando-me de todos esses agravos, eu a con- 
templo. Se me é permitido dizê-lo, este orador goza de certa reputação 
e, mediante essa imagem, vós o olhais; por conseguinte, não estais de 
modo nenhum olhando o orador; olhais através da imagem que dele ten- 
des, sendo essa imagem a palavra, a idéia, a tradição. Assim, pode-se 
olhar alguma coisa sem nenhuma imagem? Podeis olhar alguém dessa 
maneira? Podeis olhar, sem a imagem, para vossa esposa, ou vosso 
marido, para o homem que mora do outro lado do vale, para o homem 
que vos insultou ou elogiou? 

Só tendes a possibilidade de olhar sem imagem quando com- 
preendestes a natureza da experiência. Que é experiênca? (Pausa) 
Espero que estejais trabalhando junto comigo, e não apenas a ouvir 
palavras! Deveis compreender o que é experiência, porque é esta 
experiência acumulada que está a todas as horas a formar imagens. 
Que é, pois, experiência? A palavra "experiência" significa “viver um 
estado completamente", mas isso nunca fazemos. Consideremos o 
assunto no nível mais simples: vós me insultais e a experiência fica, 
deixa uma marca em minha mente, torna-se parte de minha memó- 
ria e, por conseguinte, sois meu inimigo, não gosto de vós. A mesma 
coisa acontece se me lisonjeais; sois então meu amigo, a memória 
da lisonja fica, tal como ficou a do insulto. Tende a bondade de acom- 
panhar-me atentamente! Posso, no momento em que sou lisonjeado, 
"viver esse estado plenamente ", de modo que a experiência não 
deixe marca nenhuma no meu espírito? Isso significa que, ao me diri- 
girdes um insulto, eu o ouço, o olho totalmente, compietamente, ob- 
jetivamente e sem emoção, assim como estou olhando este micro- 
fone; significa que lhe dispenso inteira atenção, com toda a minha 
mente e coração, a fim de verificar se o que estais dizendo é verda- 
deiro e, se não o for, por que razão conservá-lo? isso não é uma teo- 
ria; a mente nunca será livre enquanto houver qualquer forma de 

pensamento conceptual ou formação de imagens. A mesma coisa faço 
se me lisonjeais, se dizeis que sou um maravilhoso orador. Escuto-o, 
com todo o meu ser enquanto falais, e não depois, a fim de desco- 
brir por que o estais dizendo e que valor tem o dizerdes que sou ou 
não um extraordinário orador; desse modo, ponho fim tanto ao insul- 
to como à lisonja. Entretanto, a coisa não é tão simples assim, por- 
quanto gostamos de viver num mundo de imagens, imagens de gosto 
e de desgosto; vivemos com essas imagens e nossa mente está 
perpetuamente a fazer barulho, a verbalizar, de modo que nunca olha- 
mos para nossa esposa ou nosso marido, para a montanha, com uma 
mente livre, e só a mente inocente é capaz de olhar. 

1NTERROGANTE: Como podemos livrar-nos dessa divisão interior? 

KRISHNAMURTI: Em primeiro lugar, permití-me sugerir-vos; Não 
vos livreis de coisa alguma! Livrar-se de uma coisa é fugir. Vós ten- 
des de olhá-fa, de examiná-la! Pois bem; em nós existe essa divisão 
de gosto e desgosto, amor e ódio, meu e não-meu. Por quê? 

Chegamos agora a um ponto importante: Pode-se compreender 
ou descobrir alguma coisa por meio de análise? Vejamos! Existe este 
problema da divisão, da contradição em nós existente, e eu desejo 
compreendê-lo, examiná-lo, descobrir se a mente tem possibilidade 
de ficar de todo livre de fragmentação. Ora, posso descobrir isso 
mediante análise? Essa divisão cessará graças à análise? A análise, 
por certo, implica um analista e a coisa que vai ser analisada; por 
conseguinte, o analista é diferente da coisa analisada e, portanto, há 
divisão. Assim, pode a fragmentação em nós existente cessar por 
meio da análise, a qual naturalmente é pensamento, ou isso acon- 
tece por meio da percepção direta? 

Só podemos ter percepção direta quando não há condenação da 
divisão, quando não há avaliação, dizendo-se “Devo ficar no estado 
em que não há divisão, tenho de realizar a harmonia". Não podemos 
realizar tal harmonia enquanto existir essa divisão entre nós e 
harmonia como idéia, porque essa divisão criada pelo pensamento 
gera mais divisão. 

Desde a antiguidade se dizia que há Deus e o homem — a 
eterna divisão! Posteriormente se disse que Deus não está "lá fora”, 
porém aqui, dentro de nós — mais uma vez a divisão entre nós e o 
Deus existente em nosso interior. O Deus que antes existia numa 
árvore, numa pedra, numa estátua, venerado como o Salvador, o Mes- 
tre, estava dentro de nós: nós somos esse Deus. E, então, Ele nos 
diz: "Não faças isso, sê “harmonioso", sê bondoso, ama o próximo.” 

Mas não podemos fazê-lo porque existe uma separação entre nós e 
o próprio Deus. 

O pensamento, pois, é a entidade que separa e, por meio do 
pensamento, isto é, da análise, esperamos atingir aqueie estado em 
que não existe divisão; não podemos atingi-lo, porque isso só é 
possível quando a própria mente vê e compreende todo este proces- 
so e se torna, assim, completamente tranqüiia. Esta palavra “com- 
preensão” é muito importante; uma descrição não pode criar com- 
preensão, nem tampouco o descobrimento da causa de uma dada 
coisa. O que é que traz a compreensão? Que é compreensão? Já 
alguma vez notastes que quando vossa mente escuta tranqüilamente 
— sem argumentar, julgar, criticar, avaliar, comparar, apenas es- 
cuta — já notastes que, neste estado, a mente está em silêncio e 
só então vem a compreensão? Existe em nosso interior esta divisão, 
esta perpétua contradição, e devemos simplesmente percebê-la, por- 
que qualquer coisa que fazemos causa divisão. Assim, a negação 
total é ação completa. 

10 de novembro de 1968. 

MEDITAÇÃO 

(3) 

Sendo esta a última palestra, desejo tratar de um assunto que 
poderá parecer-vos um tanto estranho, ainda que, talvez, já tenhais 
ouvido a palavra e lhe dado um especial significado. Refiro-me à 
meditação, uma das coisas mais importantes que cumpre compre- 
ender, pois, se formos capazes de compreendê-la, estaremos, talvez, 
aptos a compreender todo o complexo problema da existência, e a 
vivê-la. Na existência se incluem todas as relações, não só as re- 
lações entre nós e nossa propriedade, mas também nossas mútuas 
relações e bem assim a nossa relação, se há, com a Realidade. 

Nesta nossa existência agitada e complexa, a compreensão é 
absolutamente essencial. Não estou empregando a palavra “ compre- 
ensão em seu sentido literal, porquanto, para mim, "compreensão" 
significa o próprio agir; não tendes de compreender primeiro para 
depois agir, mas compreender é agir, é ação. Uma coisa não está se- 
parada da outra. 

Na compreensão de todo este problema é bem possível que se 
nos depare também a palavra "Amor” e, talvez, aquela coisa que 
tanto terror causa à maioria dos entes humanos: a morte. 

Trata-se, pois, de expormos, de examinarmos, todos juntos, esta 
questão da vida, da existência, na qual se incluem todas as relações, 
o amor e a morte. A meditação oferece o meio de acesso à compre- 
ensão deste problema do viver, não apenas como um fenômeno, se- 
não ainda como uma coisa de imensa significação, digna de ser 
amada e profundamente vivida; meditar, com efeito, é viver. Muita 
gente, entretanto, entende a meditação como uma fuga da vida: re- 
colher-se a um mosteiro, adotar trajos especiais, retirar-se completa- 
mente das complexas atividades do viver. Há certas escolas na índia 
e noutros países da Ásia que oferecem métodos, sistemas, práticas, 
que talvez possam dar maior sensibilidade e, se se deseja ter visões, 

possibilitar a fuga para uma certa existência misteriosa, metafísica, 
que, afinal, é a mesma e sórdida existência de antes. Mas, na medi- 
tação não há prática, nem sistema, nem método; ela não é um alhea- 
mento da vida e seus deleites, suas tristezas e desespero, nem tão 
pouco uma fuga para um certo mundo místico, irreal, romântico, criado 
pela imaginação do próprio indivíduo. 

Não estamos, portanto (este orador, pelo menos, não está], em- 
pregando aquela palavra como um meio de fuga, porém sim como 
um meio de compreensão de toda a existência. Tem então a medita- 
ção uma alta significação, torna-se uma bênção, uma coisa maravi- 
lhosa que Impende compreender no nível mais profundo. Essa pala- 
vra está atualmente muito em moda, anda nos lábios de todo o 
mundo, até dos próprios nova-iorquinos e dos cavalheiros que usam 
longos cabelos. Aquelas escolas, pois, nos oferecem um método, 
um sistema, dão-nos palavras para repetir — mantras — e garantem- 
-nos que por esse meio transcenderemos todas as nossas tristezas e 
alcançaremos uma certa e maravilhosa realidade — e tudo isso, 
afinal, é rematado disparate, porquanto uma mente embotada e es- 
túpida, cheia de superstições, preconceitos e conclusões, poderá se- 
guir um certo método e meditar indefinidamente, mas continuará a 
ser embotada e estúpida. Mediante exame,- pode-se ver a extrema 
futilidade do método, do “como", do padrão, não importa se estabe- 
lecido pelos antigos ou pelo moderno guru com suas afetações e o 
absurdo oferecimento de um estado, geralmente chamado “ilumi- 
nação", em troca de uma dada soma de dinheiro. Assim, não nos 
ocuparemos mais dessa espécie de meditação, que é uma forma de 
fuga; podemos afastá-la para o lado, objetiva e inteligentemente. 

Desde já devemos ver que meditação não é uma espécie de 
entretenimento, nem uma coisa que se compra de outrem por um 
dado preço; tampouco é aceitação de qualquer espécie de autoridade, 
até mesmo, e principalmente, a deste orador. Porque, para a compre- 
ensão deste extraordinário problema do viver, não se necessita de 
nenhuma autoridade, nenhum instrutor, nenhum Mestre ou guru; to- 
dos falharam. 

Cada um de nós se encontra num estado de sofrimento, de an- 
gústia; vemo-nos confusos, aflitos, a esforçar-nos por alcançar algu- 
ma coisa. Mais importa compreender isso do que uma certa e mis- 
teriosa visão. As visões são fáceis de explicar, pois, por meio de 
drogas, de palavras e frases, pela prática de diferentes métodos de 
auto-hipnose, a mente é capaz de produzir qualquer fantasia, acredi- 
tar em qualquer coisa, iludir a si própria de inúmeras maneiras. 

Nós estamos interessados na vida, no vivê-la, cada dia, com 
suas penosas lutas e passageiros prazeres; seus temores, esperan- 
ças, desespero e amarguras; sua dolorosa solidão e total ausência de 
amor; suas formas cruas ou sutis de egoísmo; e o medo supremo da 
morte. É, pois, a vida que nos interessa diretamente, e para com- 
preendê-ia a fundo, com toda a paixão de que somos capazes, a chave 
é a meditação — não a meditação ensinada por outrem, aprendida de 
algum livro, algum filósofo ou especialista. A qualidade de meditação 
é sumamente importante. Esta palavra significa: "Ponderar, pensar 
sobre, penetrar profundamente uma questão.” Meditação, pois, não 
é "como pensar" ou "como controlar a mente” para pô-la quieta e 
em silêncio; é, sim, a compreensão dos problemas da vida, para que 
se torne existente a beleza do silêncio, sem a qual a vida não tem 
sentido. Por “beleza” não entendo a beleza daquelas montanhas, da- 
quelas árvores, da luz refletida na água ou do pássaro no ar; entendo 
beleza no viver, em nossa vida cotidiana, seja no escritório, seja no 
lar ou num passeio a sós, em comunhão com a natureza e o mundo. 
Sem essa beleza, a vida é totalmente vazia de significação. 

Examinemos, pois, juntos, esta questão, não só objetiva, externa- 
mente, mas também internamente. O movimento exterior é também 
o movimento interior (não são dois movimentos separados); é como 
o movimento "para dentro” e “para fora”, da maré. Compreender 
esse movimento não-separado, não-dividido — nisso consiste a bele- 
za da meditação. Portanto, o que se requer para vivermos totalmente 
livres de luta e de contradição é equilíbrio e harmonia, e a meditação 
é o caminho que leva a esse estado. 

Muitas coisas estão incluídas na meditação. Espero estejais in- 
teressados nesta questão, porque a meditação é algo que importa 
sobremodo compreender. Se não sabemos meditar, se não sabemos 
viver (em geral levamos uma vida bem superficial; Ir para o escritó- 
rio, exercer um bom emprego, ter família, ter casa, entreter-nos em 
reuniões de coquetel ou no cinema — é o que chamamos “viver”) 

— se não sabemos meditar, nossa vida se torna uma coisa por 
demais estúpida, vazia, insignificante. 

Infeíizmente, a moderna civilização — principalmente neste país 

— torna-se cada vez mais padronizada, sem profundeza. Podeis ter 
todos os confortos do mundo, boa alimentação, boas casas, bons 
banheiros, gozar perfeita saúde, se não tendes vida interior, não uma 
vida interior “de segunda mão”, descoberta por outrem, porém vida 
interior própria, por vós mesmos doscoberta o com desvelo nutrida; 
uma vida que estais vivendo — e que é meditação — se não tendes 
essa vida íntima, vossa vida ó sem valor; e teremos mais guerras, 

mais destruição e mais aflições. A meditação, pois, é absolutamente 
necessária a todo ente humano, como quer que ele seja: um indiví- 
duo altamente sofisticado ou o homem simples que mora na beira da 
estrada. Espero, pois, que possamos viajar juntos. 

A meditação supõe concentração, mas esta última é um método 
de exclusão; isto é, a concentração consiste em forçar o pensamento 
numa dada direção, com exclusão de tudo o mais. É isto o que geral- 
mente se entende por concentração: enfocar e dirigir a mente para 
uma determinada coisa. Essa concentração ergue uma muralha, uma 
barreira, que veda a entrada a qualquer outro pensamento e, em 
conseqüência, entra em funcionamento um processo dualista, uma di- 
visão, uma contradição, a quai se torna bem evidente à observação. 
A meditação, pois, difere da concentração e do controle do pensa- 
mento, embora, naturalmente a concentração seja necessária. Medi- 
tação implica atenção, e esta não é concentração, embora inclua a 
concentração. Prestar atenção significa dar por inteiro, e de modo 
apaixonado, a mente, o coração, o corpo a uma certa coisa. Nessa 
atenção, se a observarmos bem, não há pensador nem pensamento, 
não há observador nem coisa observada, porém apenas um estado 
de atenção. E essa atenção totai requer liberdade. 

Temos, pois, aqui, o problema completo: só a mente livre é 
capaz de perfeita atenção, isto é, de manter-se atenta tanto intelec- 
tual como emocionalmente, e estar ciente de todas as suas reações. 
Daí vem a liberdade. Isto não é tão difícil como parece, desde que 
não se lhe dê um significado sobrenatural. Ao escutardes qualquer 
coisa — música, o uivo noturno dos coiotes, o canto de um pássaro 
ou a voz de vossa esposa ou vosso marido — atentai bem. É isso 
o que fazeis ante um desafio fora do comum, direto; escutais com 
uma atenção extraordinária. Para livrar-vos de uma dor ou auferir 
uma vantagem, ganhar alguma coisa, escutais com toda a atenção; mas 
esse escutar, visando a uma recompensa, gera sempre o medo de 
perder. 

Atenção, por conseguinte, é liberdade; só a mente livre é capaz 
daquela atenção em que não há alcançar, ganhar ou perder, e em que 
não existe medo. É essencial que a mente esteja quieta e atenta, para 
compreender este imenso problema do viver e alcançar o estado de 
Amor. Vamos, pois, aprender, isto é, prestar atenção, porque só a 
mente atenta é capaz de meditar; vamos aprender, e não acumular 
conhecimentos. Acumular conhecimentos é uma coisa, e outra coisa 
bem diferente é o aprender: vamos, pois, aprender, juntos, sobre o 
problema do viver, que é relacionamento, que é amor, que é morte. 

Que é o viver? — não o que ele devería ser f não sua finalidade 
ou alvo ou princípio em que a vida deve basear-se — porém, que é 
realmente o viver, tal como é hoje, agora, neste instante, no insula- 
mento e na intimidade de nossa existência cotidiana? — Porque este 
é o único fato, e nada mais o é; tudo o mais é teórico, irreal, ilusório. 
Que é, pois, esta vida, nossa vida, a vida de um ente humano isolado? 
Que é a vida de um indivíduo em relação com a sociedade que eíe 
próprio criou e que o mantém prisioneiro? Decerto, ele é a socie- 
dade, é o mundo; o mundo não difere dele — outro fato bem óbvio. 

Estamo-nos ocupando, em verdade, com o que é, com a nossa 
vida, e não com abstrações ou ideais, que, afinal, são puros absur- 
dos. Em que consiste, pois, o nosso viver? Do nascimento à morte, 
nossa vida é uma batalha constante, uma luta interminável, cheia de 
medo, solidão e desespero, uma tediosa rotina, e uma total falta de 
amor ocasionalmente aliviada por algum e transitório prazer. Assim 
é nossa vida, nossa cotidiana e torturada existência: — quarenta 
anos a trabalhar num escritório ou numa fábrica, ou no lar, como 
dona de casa; canseiras e sombrias preocupações; inveja e ciúme, 
e extremo aborrecimento; temendo o malogro e adorando o bom 
êxito; pensando incessantemente no prazer sexual. Eis" o padrão de 
nossa vida — se tendes suficiente seriedade para observar o que 
realmente é. Todavia, se estais meramente em busca de entreteni- 
mento, onde quer que seja — na igreja, no campo de futebol, etc. — 
esse entretenimento traz então sua dor peculiar, suas peculiares 
amarguras, seus problemas. A mente superficial, com efeito, busca 
refúgio na igreja ou no campo de futebol, mas não estamos tratando 
aqui da mente superficial, porque ela é incapaz de interessar-se real- 
mente por aiguma coisa. 

A vida é séria, mas nessa seriedade há alegria, mente ardorosa, 
a mente viva, pode resolver os imensos problemas da existência. 
Nossa vida, pois, como hoje a estamos vivendo, é uma agonia, ine- 
gavelmente, e nós não sabemos o que fazer com ela; queremos achar 
uma diferente maneira de viver, pelo menos o dizemos, e alguns ten- 
tam alterá-la. Antes de qualquer tentativa para alterar nossa vida, 
devemos compreender o que realmente é, e não o que deveria ser;, 
devemos, literalmente, tomar nas mãos o que é e olhá-lo; mas isso 
não podeis fazer — entrar intimamente em contato com o que é — 
se tendes um ideal, ou se dizes que isto deve ser transformado 
naquilo, ou se tencionais mudá-lo. Mas, se sois capaz de olhá-lo tal 
como é, encontrareis uma mudança de qualidade completamente dife- 
rente; é isso o que vamos investigar. 

Em primeiro lugar, devemos ver reaimente o que é a nossa vida 
diária neste momento — vê-la, não com hesitação ou relutância, po- 
rém sem dor nem resistência. Eia é isto — uma agonia! Podemos 
olhá-la, “viver com ela"? Podemos estabelecer um íntimo contato, 
uma relação direta com ela? Eis a nossa dificuldade! Para estardes 
em relação direta com alguma coisa, não deve existir nenhuma ima- 
gem entre vós e a coisa que observais; a imagem é a palavra, o 
símbolo, a memória do que foi ontem ou há milhares de anos. Expli- 
quemo-lo muito simplesmente. As relações que tendes com vossa 
esposa ou vosso marido são relações baseadas numa imagem, sendo 
esta imagem a acumulação de muitos dias de prazer, de sexo, de 
conflito, luta, aborrecimento, repetição e dominação; tendes uma ima- 
gem dela e ela tem de vós uma imagem semelhante, e o contato 
entre essas duas imagens se chama "relações”; aceitamos essa de- 
nominação, mas o fato é que não existem relações de espécie al- 
guma. Vemos, pois, que não há contato direto entre um ente humano 
e outro; do mesmo modo, não há esse contato com o real, com o 
que é. 

Por favor, acompanhai mais um pouco esta explicação. Ela poderá 
parecer complexa, mas não é tal quando se escuta quietamente. Há 
o observador e a coisa observada, e uma separação entre eles; e 
essa separação, essa cortina estendida entre ambos é a palavra, a 
imagem, a memória, o espaço onde se verifica todo o conflito — 
sendo esse espaço o “ego", o “eu", ou seja a acumulação de pala- 
vras, de imagens, das memórias de um milhar de “ontens". Assim, 
não há íntimo contato com o que é. Condenais o que é ou o racio- 
nalizais, o aceitais, o justificais; e, sendo tudo isso verbalização, não 
há direto contato e, por conseguinte, não há compreensão nem dis- 
solução daquilo que é. 

Como sabeis, senhores, existe a inveja; inveja é medida, compa- 
ração, e estamos condicionados para aceitá-ia. Determinada pessoa 
é brilhante, inteligente, bem-sucedida, já uma outra não é. Desde 
crianças, somos educados para medir, comparar, e assim nasce a 
inveja. Mas nós observamos essa inveja objetivamente, como uma 
coisa existente fora de nós, ao passo que o próprio observador é a 
inveja, não havendo verdadeira separação entre o observador e a 
coisa observada. Deste modo, percebe o observador que não tem 
possibilidade de fazer coisa alguma a respeito da inveja; vê, claramen- 
te, que tudo o que faz, em relação à inveja, é ainda inveja, porquanto 
ele é a causa e o efeito. Por conseguinte, o que é, ou seja nossa 
vida de cada dia com seus problemas de inveja, ciúme, medo, so- 
lidão e desespero, não difere do observador que diz: “Eu sou estas 

coisas”; o observador é invejoso, ciumento, medroso, solitário, cheio 
de desespero e, portanto, nada pode fazer acerca do que é; porém, 
isso não significa aceitá-lo, viver como ele ou com ele contentar-se. 
O conflito resulta da divisão entre o observador e a coisa observada, 
mas, quando já não há nenhuma resistência ao que é, à realidade, 
verifica-se então uma transformação completa; essa transformação é 
meditação. Dessarte, o descobrirdes individualmente a estrutura e 
natureza do observador — vós mesmos — e bem assim a da coisa 
observada, ou seja, igualmente, vossa própria pessoa, e compreender 
esse todo, essa unidade — é meditação; nela não há conflito de 
espécie alguma e, por conseguinte, ela é a completa dissolução e 
transcendimento daquela realidade. 

£ agora, a vós perguntarei; Que é Amor? 

Já consideramos o medo e, portanto, agora vamos considerar 
juntos a questão do amor. Sabemos que esta é uma palavra — '‘car- 
regada”, uma palavra profanada, deformada, espezinhada e estragada 
pelo sacerdote, pelo psicólogo e pelo político, por tudo quanto é 
jornal e revista; escreve--se e fala-se incessantemente a seu respeito. 
Assim, que é o amor? — não o que ele deveria ser, não o amor 
ideal ou o amor supremo, mas o que é o amor que sentimos, o 
amor que conhecemos? A coisa que denominamos "amor” contém 
ciúme e ódio, está envolta em agonia. Isso não é pessimismo, es- 
tamos apenas observando o que há realmente, o que é essa coisa 
chamada amor. O amor é ciúme? O amor é ódio? O amor é posse, 
é domínio da esposa pelo marido ou do marido pela esposa? Dizeis 
que amais vossa família, vossos filhos, mas é verdade isso? Se 
amásseis os vossos filhos realmente, de todo o coração, e não com 
vossa mente mesquinha, credes que haveria guerra amanhã? Se efe- 
tivamente os amásseis, educá-los-íeis como os estais educando, pre- 
parando-os, forçando-os a ajustar-se à ordem estabelecida de uma 
sociedade corrompida? Se os amásseis mesmo, permitiríeis que fos- 
sem mortos ou horrivelmente mutilados numa guerra — “vossa” ou 
de outrem? Se observais esse fato, ele indica que não existe amor 
nenhum não é verdade? Assim, o amor não é nenhum sentimento ou 
absurdo emocional e, sobretudo, o amor não é prazer. 

Cumpre-nos, pois, compreender o prazer. Para a maioria de 
nós, “amor”, “sexo” e “prazer" são termos sinônimos. Quando fala- 
mos em amor, dividimo-lo em amor de Deus, o que quer que isso 
signifique (e acho que não significa nada, nem mesmo para os sa- 
cerdotes, que também se acham em conflito com suas ambições, 
seus desejos, sua autoridade e suas posses, seus deuses, crenças e 
rituais), e o chamado amor, implicado no prazer sexual. Compreendido 

no amor estão, também, a angústia, a dor e o desespero; o amor, 
pois, não é prazer e, então, que é prazer? Notai que não estamos 
negando o prazer! 

Deleita realmente o contemplar aquelas belas montanhas, ilu- 
minadas pelo poente, o ver aquelas árvores miríficas, que resistiram 
a incêndios florestais e ao pó de muitos meses, todas rutilantes e 
lavadas pela chuva; é maravilhoso olhar as estrelas à noite (se de 
fato olhais as estrelas). Mas isso, para nós, não é prazer, porque só 
nos interessam os prazeres sensuais. Importa, pois, interrogar-nos: 
Que é o prazer? Nós não o estamos condenando; estamos tentando 
compreendê-lo, ver o que há atrás da palavra. 

O prazer, como o medo, é gerado pelo pensamento; estivestes 
contemplando o imponente espetáculo dos montes distantes, expe- 
rimentando naquele momento um grande deleite, Vem agora o pen- 
samento e “diz”: como seria bom repetir aquela experiência de on- 
tem; assim, o pensar na experiência anterior — não importa se a 
de admirar uma bela árvore, os céus, os montes, se a de um gozo 
sexual — esse pensar é prazer. A imagem, o vivermos em pensa- 
mento com a coisa que ontem nos deleitou, o pensarmos nessa 
imagem é o começo do prazer; do mesmo modo, o pensarmos no 
que poderá acontecer amanhã, na possibilidade de nos serem nega- 
dos nossos prazeres, de perdermos nosso emprego, de adoecermos 
ou sofrer um acidente, com as conseqüentes preocupações e sofri- 
mentos, é o início do medo. O pensamento, pois, cria tanto o prazer 
como o temor, mas, para nós, amor é pensamento. 

Reparai bem! O amor é pensamento porque, para nós, amor é 
prazer, prazer produzido pelo pensamento, por ele alimentado. O 
pensamento não está presente no momento do pôr-do-sol ou do ato 
sexual, mas o prazer consiste em pensar nisso. Assim, o amor é ge- 
rado pelo pensamento, e também nutrido, sustentado e prolongado 
pelo pensamento como prazer. Isso, se o observardes, é um fato 
óbvio. 

E então interrogamo-nos: O amor é pensamento? Sabemos que 
o pensamento pode cultivar o prazer, mas não pode, em circustâncía 
alguma, cultivar o amor, tal como não pode cultivar a humildade. O 
amor, portanto, não é prazer, nem, tampouco, desejo. Entretanto, 
não se pode negar nem o prazer nem o desejo. Ao olharmos o mun- 
do, a beleza de uma árvore ou de um rosto, encontramos, nesse 
momento, um grande deleite; depois, o pensamento interfere e lhe 
dá tempo e espaço para florescer como prazer. 

Se compreenderdes a natureza e estrutura do prazer em relação 
ao amor, se o perceberdes realmente — e isso faz parte da medita- 
ção — descobrireis então que o amor é uma coisa toda diferente; 
amareis então os vossos filhos, criareis então um novo mundo. Quan- 
do alcançardes esse estado, conhecerdes o amor, podereis fazer o 
que quiserdes, e nada estará errado; é só quando estamos em busca 
do prazer, como atualmente estamos, que tudo sai errado. 

Temos também o problema da morte. Estivemos considerando 
o que é o nosso viver real de cada dia e — assim o espero — 
fizemos juntos uma viagem às profundezas de nós mesmos para 
descobrir o que é o amor; portanto, tratemos agora de descobrir o 
que é a morte. Só sereis capazes de compreender este tremendo pro- 
blema da morte (não o que há além da morte), quando souberdes 
morrer; e quando souberdes morrer, o que acontece após a morte 
será de todo em todo irrelevante. Verifiquemos, pois, o que signi- 
fica morrer. 

A morte é inevitável. O corpo, o organismo, como qualquer má- 
quina submetida a uso constante, acabará por gastar-se, consumir-se. 
Infelizmente, a maioria das pessoas morrem de velhice ou de doença, 
sem jamais terem sabido o que é morrer. Há o problema da velhice, 
e esta é para nós uma coisa horrível. Não sei se já notastes a folha 
que cai da ávore no outono: tão bela de colorido, tão linda e delicada, 
para ser tão facilmente, tão passivamente destruída! Mas nós, ao 
envelhecermos, que feios nos tornamos, desfigurados, e como nos 
disfarçamos! E, se não vivemos corretamente na juventude ou na 
meia-idade, a velhice se torna um enorme problema. O fato é que 
realmente nunca vivemos, porque temos medo, temos medo de viver 
e medo de morrer e, quando envelhecemos, estamos sujeitos a uma 
porção de coisas. Este é, pois, um dos nossos maiores problemas. 
Por conseguinte, vamos averiguar o que significa morrer, perfeita- 
mente cientes de que o organismo tem de acabar e, também, que a 
mente, no seu desespero ante o fim, buscará inevitavelmente con- 
solação e esperança em alguma teoria, alguma crença, em geral a 
ressurreição ou a reencarnação. 

Toda a Ásia está condicionada para aceitar a teoria da reencar- 
nação; muito se faia e escreve a respeito dela; milhões de indivíduos 
consagram suas vidas à esperança de preenchimento na vida futura, 
mas descuidaram-se de um ponto bem relevante. Se temos de nas- 
cer de novo, então muito importa viver corretamente nesta vida; por 
conseguinte, tem grande importância o que agora fazemos, pensa- 
mos, como nos comportamos, como falamos e como funciona o nosso 
pensar, pprque a próxima vida será determinada de acordo com nossas 

ações na atual. Poderá haver alguma retribuição, entretanto eles 
parecem esquecer-se daquele ponto e, em vez de lhe dar atenção fa- 
lam incessantemente sobre a beleza e a justiça da reencarnação e 
tantas outras trivialidades. 

Nós não estamos fugindo ao fato com uma teoria; estamo-io 
enfrentando sem medo. Oue significa morrer psicologicamente, in- 
teriormente? Na morte do organismo, não há discussão, não podemos 
dizer: “Por favor, esperai mais uns dias até eu me tornar o dirigente 
da firma!” ou "Não podeis esperar um pouco, até eu me tornar ar- 
cebispo?”. Não há discutir, a morte é peremptória. Cabe-nos, pois, 
descobrir como morrer interiormente, psicologicamente. Morrer in- 
teriormente significa que o passado deve terminar de todo — tendes 
de morrer para todos os vossos prazeres, todas as memórias que 
tendes nutrido com carinho, todas as coisas que vos são caras; e 
deveis morrer todos os dias, não em teoria, porém realmente. Morrer 
para o prazer que ontem sentiste significa morrer para ele instanta- 
neamente, sem lhe dar continuidade como pensamento. E viver des- 
sa maneira, com a mente sempre nova, pura, inocente, e sempre 
vulnerável — é meditação. 

Uma vez lançada a base da virtude, a qual é ordem nas relações, 
torna-se existente aquele amor e aquele morrer que é o todo da vida; 
a mente está então sumamente tranqüila, naturalmente silenciosa, e 
não posta em silêncio à força de repressão, disciplina e controle; e 
esse silêncio é infinitamente rico. 

Além daí, as palavras e descrições não valem nada. A mente já 
não busca o absoluto, porque não tem necessidade deie, porquanto 
naquele silêncio está aquilo que é. E isso, no seu todo, constitui a 
bênção da meditação. 

17 de novembro de 1968. 

PALESTRAS NA "NOVA ESCOLA DE ESTUDOS SOCIAiS" 

NOVA IORQUE 

DA MUDANÇA NECESSÁRIA 
(1) 

Há numerosos problemas, não só neste país, mas em todo o 
mundo, e eles parecem tornar-se cada vez mais graves. 

Nota-se a necessidade de mudança — econômica, social, comu- 
nal, etc.; vê-se também que quanto mais mudamos as coisas, tanto 
piores elas se tornam. 

Evidentemente, é necessária uma transformação radical, Interior, 
uma total mutação psicológica, a qual parecemos incapazes de efe- 
tuar. Entrementes, prescrevem-nos os especialistas o que devemos 
fazer, e os intelectuais redigem artigos sem conta, os quais, suponho, 
são líderes de movimentos diversos. Mas, quer-nos parecer que 
ninguém lhe dá muita atenção; limitamo-nos a aceitar ou a rejeitar, 
a colecionar os “trechos" que nos agradam, esperando que de algu- 
ma maneira se transforme esta desgraçada sociedade. 

Antes de tudo, peço vénia para declarar que não sou nenhum 
especialista, nem estou representando a índia e sua filosofia, seus 
deuses, seus sistemas de meditação, seus gurus, etc. Nós somos 
entes humanos — vós e eu — interessados em descobrir, não só o 
que cumpre fazer no mundo, na sociedade em que vivemos, mas 
ainda em descobrir, individualmente, a significação das coisas, e, 
também, o que é meditação e a maneira de esvaziar a mente para 
torná-la “inocente" e pura. 

Estamos por igual tentando averiguar se há possibilidade de nos 
descondicionarmos totalmente, a fim de podermos olhar a vida dife- 
rentemente, com outro sentimento, isento de contradição e esforço. 

Se estamos atentos aos problemas que se nos deparam, precisa- 
mos descobrir a forma de promover a unidade humana, sob um go- 
verno único (e não manobrada por políticos, pois assim ela é impos- 
sível), unidade que nos permita uma nova maneira de agir e de viver. 

fazendo com isso desaparecer as divisões raciais, religiosas e nacio- 
nalistas. 

Temos à nossa frente um imenso e complexo problema. Não é 
um problema existente fora de nós, mas, sim, um problema que faz 
parte de nós, pois nós é que somos nacionalistas, católicos, protes- 
tantes, comunistas socialistas e sabe Deus que maisí Estamos todo 
fragmentados; cada um adota um dado fragmento e fica vivendo ideo- 
logicamente em conformidade com ele, em oposição a outros frag- 
mentos, outras idéias. 

Humanos que somos, e sujeitos a tantas agonias, desejamos sa- 
ber o que é a morte e se alguma coisa existe de extra-mental — não 
um certo absurdo místico ou coisa inventada por algum espírito es- 
treito e pretensioso. Pretendemos também descobrir, por nós pró- 
prios — caso tenhamos o necessário ardor e determinação — se den- 
tro de nós existe um estado atemporal, uma outra dimensão. 

Durante estas palestras iremos aprender — não deste orador, 
que nenhum valor tem — iremos descobrir pessoalmente, a alegria de 
penetrar nossas próprias complexidades. Descobrir significa apren- 
der, e aprender é uma alegria, e não uma coisa dolorosa; essa alegria 
gera energia, e dessa energia necessitamos para irmos muito mais 
longe, penetrarmos mais profundamente. 

Deixai-me sugerir-vos que não fiqueis apenas a ouvir uma pa- 
lestra, um montão de palavras e de idéias; a descrição não é coisa 
real, mas, infelizmente, nos deixamos enredar na descrição e pensa- 
mos ter descoberto tudo. Devemos ter em mente que a palavra não 
é a coisa, e a descrição não é aquilo que se descreve. Se isto está 
mais ou menos claro, são horas de começarmos a aprender. 

Aprender é uma coisa das mais difíceis. O aprender dos livros 
e a repetição do que deles se aprendeu não encerram nenhuma espécie 
de alegria, de vida. Nossa educação baseia-se nessa espécie de apren- 
der. O computador pode operar com muito mais eficiência do que o 
ente humano intelectualmente adestrado, com todo o seu acervo de 
conhecimentos e idéias; mas, a isso não chamamos aprender. Aprender 
é descobrimento, de momento a momento, e cada descobrimento acer- 
ca de nós insufla-nos um certo entusiasmo, uma certa alegria, uma 
energia de certa espécie e o estímulo a descobrir mais. Em tudo isso 
está implícito o amor ao descobrimento e suas alegrias. 

Portanto, não vamos meramente aceitar a descrição, porém, antes, 
ultrapassá-la, penetrar mais fundo, tendo em vista que o importante 
é aprendermos sobre nossa pessoa ou seja o conhecimento próprio, 
o conhecimento de nossos modos de vida, nossos “motivos", nossas 
exigências, nossos apegos, desesperos, amarguras, etc.: aprender. 

Somos, assim, descobridores e não entes humanos de “segunda mão”, 
que só sabem repetir os ditos alheios, que até podem ser muito en- 
genhosos, lógicos e judiciosos. Esse aprender não é anáíise; é percep- 
ção direta. Não podeis observar, ter essa percepção direta, se só tendes 
de vós conhecimentos “de segunda mão\ Tais conhecimentos se tor- 
nam vossa “autoridade”. 

Não vamos servir-nos do processo analítico, e isso será um tanto 
difícil. O processo analítico requer tempo; cumpre olhar-me, analisar- 
-me, descobrir a causa de meus desejos, neuroses, complexidades, etc.; 
mediante esse processo analítico, espero descobrir a causa, e, assim, 
libertar a mente, tanto da causa como do efeito. Está mais ou menos 
claro isto? O que vamos examinar exige séria atenção, não é caso 
de aceitação ou rejeição, nem se trata de nenhuma conclusão fantás- 
tica. Estamos examinando e aprendendo, e o aprender não é processo 
acumulativo. Se fazemos o exame com o acúmulo de conhecimento, 
torna-se impossível o descobrimento de aigo puro e novo, porque 
ficamos a traduzir tudo em conformidade com essa acumulação, sem 
olhar de maneira nova e total o processo das relações e do viver. 

Pode-se perguntar: Qual a diferença entre o processo analítico, 
a análise profissional, etc., que requer meses, anos, e o processo a 
que nos referimos? O primeiro implica duração, tempo, um exame 
gradual de nós mesmos por um analista também condicionado como 
nós. Não nos interessa tal método ou a forma de conhecer-nos. Penso 
haver uma maneira completamente diferente de se atender ao pro- 
blema do autoconhecimento. Se não vos conheceis, não tendes razão 
de ser e vossas relações com outrem são meras relações entre 
imagens. 

Para se operar uma revolução básica na sociedade — e é ne- 
cessária uma revolução total, não de ordem econômica ou social, nem 
de acordo com o programa democrático ou republicano, porém uma 
revolução de diferente estrutura — torna-se necessária uma revolução 
fundamentai na própria mente. 

Nós somos a sociedade que criamos; ela não é uma coisa fantás- 
tica que se tornou existente sob pressão e através do tempo; é o que 
somos: avidez, inveja, desespero, espírito de agressão, temores, exi- 
gências de segurança; foi tudo isso que criou esta sociedade. Para 
mudá-la, nós temos de mudar; se nos limitarmos a podar uns poucos 
ramos desta árvore chamada sociedade — como o está fazendo o 
político, o economista, etc. — não se operará em nós nenhuma 
mudança. Nós somos a sociedade; a sociedade não difere de nós. 

11
Nós somos o mundo — este mundo que dividimos em tantos frag- 
mentos. 

A vida é dos que são ardorosos e sérios, e não dos levianos, nem 
daqueles que só se aplicam ocasionalmente; ela é daqueles que reve- 
lam seriedade, perseverança e firmeza. Se temos seriedade, podemos 
ver que não existe isso de “comunidade e indivíduo"; só existe o ente 
humano, condicionado pela sociedade, pela cultura em que vive. Ambas 
são criações do homem. Assim, a pergunta: “Que adianta eu mudar; 
isso influirá na sociedade?” — é completamente sem valor. O va- 
lioso é descobrirmos uma maneira (não gosto da palavra "maneira”, 
que implica método, tempo, um fim em vista, etc., etc. — mas temos 
de fazer uso de palavras tais; depois as “quebraremos"], o que impor- 
ta mesmo é descobrirmos como nos transformarmos de imediato, para 
que nossa mente se torne pura e “inocente", para que o amanhã, 
com suas agonias e temores, nada mais signifique. Eis, portanto, uma 
de nossas questões fundamentais: É possível vivermos neste mundo 
estúpido, louco, insano, sem recolher-nos a um mosteiro ou a um 
retiro de Zen-budistas, etc.; é possível vivermos neste mundo — com 
suas agitações e guerras, suas imposturas, as manobras de seus po- 
líticos, ávidos de posição e de poder — levando uma vida totalmente 
diferente, com amor? O amor não é prazer, o amor não é desejo; mas 
o momento não é oportuno para tratarmos deste assunto. 

Estamos, pois, interessados no ente humano e não no indivíduo. 
O "indivíduo" não existe; pode haver a "entidade local", supersticiosa 
e condicionada, porém essa entidade faz parte do ser humano. Inte- 
ressa-nos libertar o homem de seu condicionamento, da sociedade em 
que vive e que o está degradando, uma sociedade perpetuamente em 
estado de guerra, uma sociedade que produz antagonismo, ódio e 
violência. Consequentemente, nossa questão é: Temos possibilidade 
de mudar, não gradualmente, não no fim de certo tempo — pois quando 
nos servimos do tempo há sempre decadência, estiolamento? 

Estamos indagando, juntos, se vós e eu, neste mesmo instante, 
podemos mudar completamente e ingressar numa dimensão de todo 
diferente, isso requer meditação. A meditação é uma coisa que exige 
abundância de inteligência e sensibilidade, capacidade de amar e de 
perceber o belo; não consiste meramente em observar um sistema 
inventado por um certo guru. É dela que precisamos para uma Investi- 
gação da vida e da morte. O Investigar exige liberdade; sem liber- 
dade, é óbvio, não é possível Investigar. Se temos preconceitos, con- 
clusões fixas, opiniões, juízos e padrões de valores, não podemos 
Investigar. Se queremos descobrir, precisamos estar livres para olhar. 
Olhar os coisas tais como em nós se apresentam — sem procurarmos 

desculpas e justificações, sem mentirmos a nós mesmos ou aparentar- 
mos o que não somos — é trabalho dos mais difíceis. O observarmos, 
o vermos a nós próprios constitui um dos mais relevantes problemas 
— o ver. Considero importante examinarmos esta questão: Que é ver? 

Quando olhais uma árvore (não sei se alguma vez o fazeis, aqui 
em Nova Iorque), olhais realmente a árvore, ou tendes uma imagem 
dela e essa imagem é que estais olhando? 

Em verdade, não olhais diretamente a árvore. Ao contemplardes 
uma nuvem, as estrelas, à noite, ou ao encantar-vos com o poente, já 
formastes um juízo a seu respeito, já dissestes: "Que belo!”; o próprio 
fato de dizerdes "Que belo!” vos impede de olhar. Desejais comunicar 
a outro o vosso sentimento, mas essa mesma comunicação, no mo- 
mento de olhar, vos impede o efetivo contato com as coisas que 
olhais. Está mais ou menos claro isto? Se tendes uma imagem deste 
orador, uma imagem criada pela propaganda, etc., vós o olhais através 
dessa imagem, e, por conseguinte, não o estais realmente olhando ou 
escutando; olhais e escutais mediante um crivo de palavras e imagens 
que impedem a percepção real de o que é. 

Eis um dos pontos mais importantes de todas as nossas palestras: 
como observar. É possível observar sem um acervo de conhecimentos 
e experiência, vale dizer, sem o passado? A observação está sempre 
no presente; se olhais o presente com as lembranças do passado — 
e todas as lembranças representam obviamente o pretérito, tal como 
o conhecimento o representa — estais, nesse caso, olhando o novo 
com olhos empapados por todas as experiências do velho e, conse- 
qüentemente, com olhos que perderam a penetração. 

Assim, se me permitis alvitrá-lo, a primeira coisa que nos cabe 
aprender é como nos tornarmos capazes de olhar nossa esposa ou 
marido sem a imagem que formamos no decorrer de anos a respeito 
dela ou dele. Isso é dificílimo. Nossa vida é uma série de experiências, 
e todas essas experiências se tornaram conhecimento, deixando suas 
marcas na mente; as próprias células cerebrais estão “carregadas" 
dessas memórias e, quando olhamos nossa esposa ou um amigo, ou 
as nuvens, ou a luz da alvorada, olhamos com as lembranças de expe- 
riências; dessarte, o olhar vem do passado. Com os olhos do passado 
olhamos, e por esta razão não há compreensão da vida tal como é 
no presente. 

Olhar exige muita atenção. Desejo olhar a mim mesmo sem ser 
em conformidade com nenhum padrão, mas verifico que estou forte- 
mente condicionado, sou um escravo do especialista, minha educação 
foi dirigida, controlada pelo especialista. Se desejo aprender sobre 

minha pessoa, aprender a olhar-me e a ver-me tal como realmente sou, 
não posso fazê-lo sem liberdade, sem estar livre de juízos, explicações, 
justificações. E essa liberdade não é possível porque minha mente foi 
fortemente condicionada — pelo analista, pela sociedade em que vivo, 
etc. Oiho-me com conhecimentos trazidos do passado e, por conse- 
guinte, não estou olhando a mim mesmo, absolutamente. Ora, é possí- 
vel pormos de lado todos esses conhecimentos (o conhecimento técni- 
co, prático, é necessário), é possível pormos de lado todo o acervo de 
experiência, juízos, valores, através dos quais olhamos e por esta 
razão nunca se verifica mudança alguma? 

Há sempre separação entre o observador e a coisa observada. 
Relações significam contato direto — mental, físico, etc. — contato 
efetivo, e não mediante uma série de imagens, conclusões ou ideolo- 
gias. Assim, é possível termos liberdade completa, estarmos livres 
de nosso condicionamento como cristãos, comunistas, católicos, etc.? 
Do contrário, não haverá possibilidade de olharmos, pois o que olhar- 
mos será traduzido consoante o que já sabemos; a mudança é então 
uma luta para nos ajustarmos ao condicionamento do passado. Afinal 
de contas, o conflito, tanto interior como exterior, é entre coisas: 
o pensamento conceptual e o que realmente é. 

Deste modo, interiormente, a arte de ver e aprender [e a alegria 
e energia resultantes desse ver) é um grande desafio. Isto é, pode a 
mente, tão condicionada que foi pelas revistas, pelo rádio, por tantas 
influências, libertar-se desse condicionamento, não com o tempo, po- 
rém de pronto? Ora, para tanto se requer atenção; tendes de dedicar- 
-vos de corpo e alma a compreender-vos, porque isso é de primacial 
importância e exige, não concentração, porém atenção. 

Transformando-vos interiormente, produzireis por certo uma radical 
mudança na corrupta sociedade em que vivemos. Para haver autocom- 
preensão, precisamos estar livres do condicionamento de ontem, e da 
projeção do ontem, ou seja o amanhã; hoje é, para a maioria de nós, 
a passagem entre ambos (o ontem e o amanhã). A atenção implica 
percebimento, perceber com a sensibilidade. Não podeis perceber com 
a sensibilidade se tendes conclusões — isto deve ser, isto não deve 
ser — ditadas por uma ideologia. As pessoas que têm ideologias e 
princípios e vivem de acordo com eles são as mais insensíveis, por- 
quanto estão vivendo no futuro, e a este tentando ajustar o presente. 
A ideologia, qualquer que ela seja — do comunista, do socialista, do 
capitalista, etc. — se torna a “autoridade”. Assim, pode a mente ser 
livre de ideais, de conclusões? Cumpre investigar e descobrir, indivi- 
dualmente, por que temos esses ideais, por que há esse pensar con- 
ceptual, utopias e tantas estruturas religiosas a dividir os homens 

em todo o mundo. Esses ideais baseiam-se em tais ideologias con- 
ceptuais e nada significam. E f todavia, gostamos disso — não sei por 
quê! Conceitos — todo pensar é conceptual, não achais? Penso numa 
certa coisa que me proporcionou prazer ou dor, e esse pensar é pen- 
samento conceptual. E a nós perguntamos: Por que vivemos no futuro, 
ou no passado? Por que olho com meus conhecimentos acumulados — 
que constituem meu “eu”, que é só palavras, memória e nada mais? 
Por que vivo de acordo com isso que se chama tradição, cultura, etc.? 
Por quê? Em gerai, nem sequer percebemos que estamos condiciona- 
dos. Um indivíduo é católico, condicionado por uma propaganda de 
dois mil anos (isso, para mim, é uma coisa fantástica); outro está 
condicionado por palavras como “protestante”, “hinduísta", “muçulma- 
no”, etc. Isso se verifica no mundo inteiro. Crescemos nesse condi- 
cionamento, aceitamo-lo, mas não vivemos conforme ele: aceitamos 
o preceito verbal de amarmos o nosso próximo e, entretanto, é óbvio 
que não amamos o nosso próximo: damos-lhe pontapés, destruímo-lo 
no escritório, no campo de batalha, etc. 

Estamos divididos em cristãos, muçulmanos, hinduístas, cada um 
desses sistemas contra os outros e, no entanto, sabemos intelectual- 
mente que essas divisões acarretaram ao homem terríveis aflições * — 
guerras religiosas, etc. Contudo, continuamos do mesmo modo. Por 
quê? Observai. Por quê? Que aconteceria se não tivéssemos nenhuma 
ideologia? Seríamos materialistas? — Ora, eu acho que somos ma- 
terialistas, e muito, apesar de nossas ideologias. Ideologias são meros 
brinquedos, sem nenhuma importância em nossa vida. O importante 
é esta constante batalha da ambição, da avidez, da inveja, etc.: eis o 
que é real, e não o crer em Deus, nisto ou naquilo. 

Se não houver, no viver diário, uma fundamenta] mudança naquilo 
que é, nunca teremos seriedade. E a situação exige espíritos ardorosos, 
pessoas aplicadas, e não entes humanos instáveis, fragmentários. Ora, 
estamos cônscios do próprio condicionamento? 

Ele, afinai de contas, constitui nossa psique, a base de nossa 
maneira de vida, de nossos pensamentos, atividades, sentimentos — 
nossa psique. O amor não provém do condicionamento, mas torna-se 
condicionado quando o traduzimos em prazer — assunto de que talvez 
possamos tratar noutra oportunidade. Assim, que devo fazer? Sei que 
estou condicionado como hinduísta, etc.; sei também que meu des- 
condicionamento não requer tempo, não representa uma coisa que será 
alcançada gradualmente. Quando digo gradualmente, estou, no ínterim, 
semeando os germes da aflição, para outros e para mim mesmo, pois 
ter uma ideologia de não-violência e mostrar-se violento a todas as 
horas é obviamente insensatez. 

Podemos servir-nos da propaganda da não-violência como instru- 
mento político, mas por que razão nutrimos o ideai da não-violência? 
Por causa da tradição: aceitamo-lo como parte de nossa vida, assim 
como aceitamos o costume de comer carne, de fazer guerras, de 
saudar a bandeira; aceitamos — e essa aceitação se tornou um hábito. 
Podemos ficar crentes desse hábito, simplesmente cônscios de que 
estamos condicionados, cultivando inumeráveis hábitos: podemos sim- 
plesmente olhá-los, de maneira livre, de modo que nessa liberdade o 
hábito desabroche e vejamos tudo o que ele implica? Se condenamos 
um hábito, sufocamo-lo. Se dizemos: "Não devo ter este hábito", 
isso significa que o estamos controlando, e ele nada nos revelará. 

Podemos ter percepção imediata? Posso perceber esse condicio- 
namento, esse hábito, essa norma estabelecida, essa tradição, sem 
dizer "Dele me livrarei lentamente, retirando-lhe uma a uma as ca- 
madas"? É possível olharmos de maneira completa, sem fragmentação 
alguma, de modo que não haja separação entre o observador e a coisa 
observada? Porque uma divisão entre o observador e a coisa obser- 
vada, nesse espaço, nesse intervalo, está o problema inteiro. 

Vede, senhores, nós vivemos num estado de resistência e de 
conflito; é só Isso que conhecemos. E a resistência, tal como o confli- 
to, produz uma certa forma de energia. Onde há conflito e resistência 
está uma mente fragmentada, torturada, embaciada, confusa. O con- 
flito — tanto interna como externamente, em todas as nossas relações 
— é por certo prejudicial, obviamente destrutivo; e, enquanto o obser- 
vador separar-se da coisa observada, o conflito será inevitável. Ao 
dizerdes “Amo alguém", não há aí uma divisão? E nessa divisão exis- 
te ciúme, ânsia de posse, de domínio, agressividade e tudo o mais 
que bem conheceis e que gera conflito. Mas, é possível olharmos 
de maneira que a separação entre ambos — o observador e a coi- 
sa observada — deixe de existir? isso é meditação. E para saber- 
mos por que existe essa divisão, necessita-se de muita exploração, 
profunda auto-investigação. Uma das razões de sua existência é o 
sermos educados erroneamente, o termos ideais, o ajustar-nos a 
um padrão de respeitabilidade, etc. O investigarmos, por nós mes- 
mos, por que ela existe — não investigá-lo ocasionalmente, porém 
a todas as horas, num ônibus, num carro, em conversa com alguém — 
produz uma extraordinária alegria. O observador é então a coisa ob- 
servada — não mais do que isso. E tal não significa que, ao observar- 
mos uma árvore, nos convertemos em árvore — Deus nos livre! Seria 
estúpido nos identificarmos com a árvore. Mas, quando cessa aquela 
divisão, vemo-nos numa dimensão completamente diferente (isso não 
é uma promessa, uma esperança). Se se percebe o término dessa di- 

visão, não há então observador nem coisa observada, porém, tão-só 
observação. Para esta, precisamos de paz e liberdade — estar livres 
do medo. 

Já são horas de pararmos. Tendes perguntas pertinentes aos as- 
suntos de que estivemos tratando? 

INTERROGANTE: Podemos libertar-nos do medo? 

KRISHNAMURTI: A resposta a esta pergunta exige muito tempo. 
Dela trataremos na próxima reunião. 

INTERROGANTE: (gravação inaudível) 

KRISHNAMURTI: Eu disse, senhor, que a observação exige que 
olhemos. Só podemos olhar com a mente livre para olhar e aprender a 
respeito da coisa que estamos olhando. Aprender é uma viagem de 
descobrimento que proporciona imensa alegria. Essa alegria dá-nos 
energia. Um monge, por exemplo, fez voto de celibato, pobreza e 
obediência — só Deus sabe por quê! — e pensa que em virtude desse 
voto terá muita energia para viver uma vida cristã, etc. Fez tal voto, 
mas ele é sexual, é ambicioso, é um macaco como nós outros, em- 
penha-se em batalhar dentro de si. Essa batalha é um desperdício 
de energia; ele obedece a um padrão estabelecido pela igreja ou peia 
tradição, etc., e essa obediência é uma forma de resistência; quando 
resistimos, há batalha, inevitavelmente, e isso não dá energia a nin- 
guém. Estamos falando de coisa inteiramente diferente. 

Em gerai, temos pouquíssima energia, porque nossa vida se con- 
some em lutas. No emprego ou em casa, somos impelidos por nossas 
ambições, há conflito constante, opinião contra opinião, etc. E, embora 
esse conflito gere uma certa qualidade de energia, essa energia é su- 
mamente destrutiva, como se observa em todo o mundo. Em toda pro- 
fissão existe o espírito de competição, o qual, conquanto dê energia, 
está criando uma sociedade onde há os que estão “por cima" e os 
que estão "por baixo", onde há, portanto, batalha. Pergunta-se, então: 
A vida foi criada para ser assim — uma batalha com minha mulher, 
com meu próximo — batalha, batalha, batalha? Não haverá outra forma 
de energia que não seja produto da dor, do sofrimento, da agitação, da 
ansiedade, do medo, do sentimento de culpa? Há — quando sabemos 
aprender, quando sabemos olhar realmente o que é. Não podemos 
olhar o que é, se não temos liberdade; por conseguinte, temos de cien- 
tificar-nos do nosso condicionamento. É bem simples estarmos côns- 
cios, quando estamos pensando nisto ou naquilo. Se puderdes dispen- 
sar tempo (tempo, no sentido cronológico), se puderdes dispensar cin- 
co minutos por dia ao ato de olhar, muito aprendereis. Não necessitais 

procurar um analista, a menos, naturaímente, que estejais sofrendo 
de aguda neurose; neste caso, deixastes-vos “afundar". Mas, quase to- 
dos nós somos mais ou menos desequilibrados (não inteiramente, tal- 
vez) e tornar-nos cônscios do desequilíbrio, assim como, ao entrarmos 
aqui, nos inteiramos deste salão, de suas proporções, sua altura, sua 
iluminação, das cadeiras, das pessoas presentes, da cor dos seus 
casacos, seus jerseys etc., inteiramo-nos das diferentes cores e de 
nossas reações a elas — o cientificar-nos de tudo isso faz-nos a mente 
sobremodo sensível. E, olhando-vos, em vós mesmos encontrareis toda 
a história, todo o saber, e os livros se tornam sem importância. 

INTERROGANTE: Eis o que desejo perguntar: Um homem passa 
8 horas por dia a cortar cabelos, ou quarenta anos de sua vida num 
escritório; isso se torna horrivelmente entediante. Que pode ele fazer? 

KRISHNAMURT1: Pensai nisto — um homem passar quarenta anos 
num escritório (Não sei por que o faz! Os jovens estão-se revoltando 
contra isso) para acabar gerente ou chefe de seção. Meu Deus, eles 
não poderiam deixar de revoltar-se! Ficai ciente do tédio e da razão 
por que nos entediamos; penetrai bem nisso e talvez descubrais que 
não mais necessitareis de ser barbeiro ou de lutar para alcançar o 
posto mais aíto; é possível que não queirais mais fazer nenhuma des- 
sas coisas, que desejais ser um ente humano e não uma máquina. 
Mas, descobri tudo por vós mesmo, tratai de compreender integral- 
mente o problema do tédio. O tédio impele ao divertimento. Descobri 
o que se subentende na necessidade de divertimento. Aprofundai esta 
questão com toda a energia e ficareis livre do tédio. 

INTERROGANTE: Tenho uma preocupação que gostaria de comu- 
nicar. Nenhum percebimento poderá criar um estado de mútuas rela- 
ções. Vejo que os bispos abençoam o matrimônio e a vida de família. 
Alguma coisa em mim resiste a qualquer maneira de proceder que 
desconsidere as relações recíprocas. Percebo a importância desse re- 
lacionamento. 

KRISHNAMURTi: De acordo. Se não tendes relações de espécie 
alguma, deixais de existir. A vida são relações. Cabe-nos, pois, averi- 
guar o que são relações. Sei que temos necessidade de relacionamento, 
como sei que a maioria de nós não se acha num estado de relação. 
Vivemos no isolamento, embora sejamos casados e tenhamos filhos; 
vivemos interiormente isolados e, por conseguinte, não estamos rela- 
cionados. 

Assim, aprofundando a questão, podemos descobrir em que con- 
siste o verdadeiro relacionamento e o que é que consideramos rela- 

ções. 0 que se chama "relações" é a relação existente entre duas 
imagens, uma imagem que tenho de minha mulher, e outra que ela 
tem de mim. Essas imagens são as conclusões e as lembranças de 
insultos, de importunações, de atitudes dominadoras, etc. 

É isso, pois, o que denominados "relações". Pois bem, é possível 
relacionarmo-nos sem nenhuma dessas coisas? Isto é, deve o amor ser 
sempre um conflito? O amor é idéia? É uma forma de prazer a que 
demos o nome de amor? Para compreender este problema te eis-nos 
de volta ao ponto essencial), tenho de compreender por que formo 
imagens. Minha mulher me insultou, me aborreceu; por que guardo a 
lembrança disso? Por que não posso morrer para o insulto e o abor- 
recimento na mesma hora em que me são infligidos, e não posterior- 
mente? É possível isto — nunca deixar acumularem-se insultos, ex- 
periências, importunações, nunca armazená-las? Isso significa que de- 
vemos estar sobremodo vigilantes no momento do insulto, cônscios 
das palavras, do quanto elas implicam; penetrar tudo no mesmo ins- 
tante, e não mais tarde. Temos de ser sensíveis e vigilantes. 

1.° de outubro de 1968. 

AÇÃO COMPLETA 
( 2 ) 

Podemos comunicar-nos uns com os outros com relativa facilidade, 
aceitando certas palavras com os respectivos significados segundo o 
dicionário, escutando intelectuaimente o que se está dizendo, e con- 
cordando ou discordando. A comunicação verbai é necessária, por- 
que, sem eia, não poderíamos entender-nos. Mas a profunda compre- 
ensão depende da intenção de cada um — pois pode acontecer que 
não desejamos compreender-nos mutuamente, caso essa compreensão 
possa acarretar-nos perturbação; ou que desejemos compreender ape- 
nas parcialmente, intelectuaimente, sem aprofundarmos o problema: 
nesse caso, não agiremos. 

A compreensão é um problema realmente interessante; este ora- 
dor pode desejar transmitir-vos alguma coisa, mas vós deveis estar 
dispostos a escutar não só com o intelecto, mas também com o cora- 
ção, com o sentimento: então, haverá possibilidade de nos entender- 
mos real e completamente. Porém, a comunhão é coisa bem diferente. 
Não é nada de misterioso ou de místico, como certas igrejas, em todo 
o mundo, procuram inculcar. 

A comunhão só é possível ao se estabelecer entre nós a completa 
compreensão verbal, tendo-se em vista que a palavra não é a coisa, 
e a descrição nunca é a coisa descrita; então a palavra “comunhão" 
tem um amplo e profundo significado. Quando duas pessoas comungam 
uma com a outra, a expressão verbal talvez nem seja necessária: elas 
se compreendem diretamente. 

Parece-me importante estabelecermos, nestas palestras, este pro- 
cesso: comunicar-nos uns com os outros o mais profunda e ampla- 
mente possível, e também estarmos em comunhão. Isso só é possível 
quando ambas as partes — vós e o orador — têm firmeza de propó- 
sllo, lucidez e uma “intensidade" capaz de receber o que se diz — 

com a mente e o coração inteiros, sem opiniões, juízos, avaliações. 
Afinal, só pode haver comunhão havendo certa afeição. 

Já deveis ter notado que, se duas pessoas se amam reaimente 
(sendo este um diferente problema, e uma coisa bem difícil), cria-se 
entre elas um estado de comunhão; não há necessidade de dizer-se 
coisa alguma: há compreensão e ação instantâneas. 

Como vamos examinar e palestrar sobre vários problemas da vida, 
devemos, naturalmente, se desejamos compreender-nos mutuamente, 
estabelecer a comunhão, bem como a comunicação entre nós. Ambas 
essas coisas deverão coexistir o tempo todo, para escutarmos, não só 
com a capacidade crítica, exame instantâneo, percebimento da verdade 
ou falsidade do que se está dizendo, mas também com a mente livre 
para estar em comunicação e simultaneamente em comunhão, de mo- 
do que vós e eu vejamos a coisa num momento e essa percepção seja 
pronta ação. Eis o que é a comunhão entre duas pessoas: não existem 
barreiras, não há inclinação para resistir ou ceder, porém cada uma 
delas está sutilmente aberta para a outra; então, penso eu, torna-se 
existente uma ação de singular espécie. 

Como antes dissemos, nossa vida está fragmentada; sois artista, 
e nada mais sois; sois especialista num determinado campo, o conhe- 
ceis a fundo, e nada mais sabeis; sois esposo; no escritório tendes 
inúmeros problemas — como advogado, engenheiro, negociante — e, 
voltando ao lar, sois de novo marido; nessas relações existe uma di- 
visão. Nossas culturas diferem, como diferem os nossos sistemas de 
educação, nossos temperamentos e tendências; nosso condicionamen- 
to — embora fundamentalmente o mesmo — varia conforme somos 
católicos, protestantes, comunistas, capitalistas, ou ainda empresários, 
cientistas, professores, etc. Nossa vida está fracionada, e cada cam- 
po tem sua atividade própria, seus próprios costumes, opostos aos de 
outro campo. Se observássemos os fatos de nossa vida, veríamos que 
somos brutais, violentos, depravados e, todavia, no lar podemos mos- 
trar-nos amáveis e desejosos de não magoar ninguém; temos uma de- 
terminada afeição e ao mesmo tempo sentimos medo; temos ideais 
e conceitos, que contradizem nossa vida cotidiana; temos crenças e 
superstições inumeráveis, também em discrepância com nossa exis- 
tência diária. Podemos observar esses fatos óbvios — vivemos em 
fragmentos, em distintos campos de atividade, todos em contradição 
entre si — embora possam tocar-se ocasionalmente. 

Ao observarmos as diversas atividades dos diferentes campos de 
nossa vida, somos inevitavelmente levados a perguntar se existe al- 
guma possibilidade de ajuntá-los, uni-los, produzir uma integração, de 

modo que o que fizermos em casa ou no escritório — qualquer coisa 
que façamos — revele coerência, não seja contraditório e, por con- 
seguinte, não crie dor. Isto é: existe uma ação verdadeira e plena em 
todos os campos? Não sei se já refletistes neste problema, ou seja 
se existe uma possibilidade de integrar, unir, harmonizar as ações, 
desejos, propósitos e impulsos contraditórios de nossa vida. Afinal, 
nossa vida, taí como a estamos vivendo, é uma série de contradições; 
e onde há contradição há dor, há luta, há sofrimento e aflição. 

Nós vamos explorar juntos — esta responsabilidade cabe-vos 
tanto quanto ao orador — vamos investigar se existe uma ação que 
seja sempre total, completa, e que abranja todos os campos. Qualquer 
idéia de operar a integração de duas atividades contraditórias é obvia- 
mente absurda; o ódio e o amor — os dois não podem ser integrados; 
não há possibilidade de integrar ou harmonizar a ambição e a bran- 
dura, a placidez; não se podem integrar a violência e a não-violência. 

Ao abandonarmos a idéia de integrar várias contradições, vemos, 
contudo, que ela envolve esta questão: Quem é o integrador? Quem é 
o integrador que irá unificar, harmonizar os impulsos contraditórios, 
as exigências e desejos contraditórios, os elementos opostos? Quem 
é ele? Para a maioria de nós é o pensamento. O pensamento, vendo 
essas contradições, “diz”: "Elas deverão ser harmonizadas”. “Devo 
achar uma maneira de estabelecer a harmonia em todos estes cam- 
pos" — e o pensamento parece ser nosso único instrumento. Diz ele: 
" Vendo-se tantas contradições, tantas lutas e dores, talvez eu tenha 
a possibilidade de extrair daí uma grande harmonia, uma grande 
quietude.” Mas, foi decerto o pensamento que criou todas essas con- 
tradições. O pensamento, que é a reação da memória, a reação do co- 
nhecimento acumulado, esse próprio pensamento é um fragmento. E 
é sempre um fragmento porque ele resulta do passado e o passado 
é um fragmento do tempo total. O pensamento, “pensando" no ama- 
nhã, cria a divisão entre o passado e o futuro. Assim, o pensamento, 
não importa o que faça, é necessariamente fragmentário e produzirá 
sempre divisão. Sem dúvida é ele o observador” que diz haver em 
mim várias entidades contraditórias e q^e tenho de agir de modo frag- 
mentário a fim de viver completamente. Por conseguinte, o próprio 
observador é a causa da fragmentação. 

É essencial se compreendam estas questões, porque, para nós, 
o pensamento é de enorme importância; e é óbvio que cumpre pensar 
racionalmente, ciaramente. Mas, fomentar a guerra, constituir um exér- 
cito, dividir o mundo em esferas de influência, nacionalidades, crenças 
religiosas organizadas — todas essas divisões foram produzidas pelo 
pensamento. E, entretanto, o pensamento diz: “A unidade é neces- 

sária", e começa a organizar diferentes grupos políticos, com as res- 
pectivas ideologias, oj diz que deve haver um governo mundial. O 
pensamento, observando esse fato que é a contradição, interna e ex- 
terna, se põe em ação e tenta tornar existente uma vida organizada 
e isenta de contradição. Isso implica ajustamento a um padrão de 
atividade, a um princípio, a uma ideologia — que se deve seguir, 
obedecer, imitar. Mais uma vez se nos depara aqui uma contradição 
entre o que é e o que deveria ser. Essa é a única ação que conhece- 
mos, uma ação sempre produzida pelo pensamento e sempre contra- 
ditória. 

Por favor, deixai-me sugerir-vos que não fiqueis apenas a escutar 
verbalmente, mas, servindo-vos do orador como se ele fosse um es- 
pelho, observeis este fato de vossa vida — o fato de que sois escravos 
do pensamento; e quanto mais hábi! e sagaz ele é, tanto mais valor 
tem essa escravidão, pelo menos no mundo. Para irdes à Lua, neces- 
sitais de pensamento organizado; para matardes vossos semelhantes, 
o pensamento tem de trabalhar com o máximo de prontidão. E o pen- 
samento inventou as inúmeráveis ideologias existentes, criando, dessa 
maneira, a contradição, a divisão, a separação. E essa é a única ação 
que conhecemos — produto do pensamento. 

A questão agora é esta: existe outra espécie de ação, indepen- 
dente do pensamento? Uma ação que seja lógica, harmônica, verda- 
deira, completa, e encerre a essência da morte e do amor — saben- 
do-se que o pensamento é sempre velho e nenhuma possibilidade 
tem de produzir uma ação completamente nova, já que ele é a reação 
do passado, jamais pode ser novo, jamais livre? Esta claro Isto? Se 
é óbvio que foi o pensamento que produziu, em todo o mundo, a divisão 
entre o homem e o homem, e que, por mais habilmente que o mundo 
seja organizado, jamais haverá possibilidade de se estabelecer a uni- 
dade humana, temos então de verificar se existe uma ação que não 
seja produto do pensamento. Isso precisa ser compreendido, porque, 
quando falarmos sobre a questão do medo precisaremos compreender 
todo o processo do pensar — compreendê-lo completamente. 

Por que somos escravos do pensamento? Em certos campos da vida 
temos de pensar íntensamente, com muita clareza, racional e logica- 
mente, de maneira completa; de outro modo, toda a ciência desapare- 
ceria, cessaria todo o conhecimento. Vemos, pois, que o pensamento 
é necessário em certos níveis, e que noutros níveis ele é prejudicial. 
A mente que está condicionada pela cultura da sociedade, pela edu- 
cação, por todas as atividades da vida cotidiana, sente-se impelida 
a pensar e a funcionar na área do pensamento. E nós estamos fazendo 
uma pergunta inteiramente contrária à nossa habitual maneira de vi- 

ver. Ora, como poderemos descobrir se existe realmente uma tal ação? 
— pois, sem ela, teremos de viver eternamente nesta contradição e 
aflição. Porque vida é ação, e, embora se tenha feito uma separação 
entre os “ativistas” e os “contemplativos", etc., o processo do viver 
é todo de ação; ir ao mercado, ler, fazer qualquer coisa, é ação, e 
nessa ação há contradição. Existe uma ação constantemente nova e, 
por conseguinte, sempre “inocente, sempre pura, juvenil, viva, vigo- 
rosa? Se existe, como poderemos descobri-la? Devo dizer-vos, em 
primeiro lugar, que não vou mostrar-vos a maneira de fazê-lo — isso 
destruiria o vosso descobrimento; se eu a mostrasse e vós a seguís- 
seis, estaríeis apenas dando continuidade ao pensamento, à imitação, 
ao ajustamento e todas as respectivas e perniciosas atividades. 

Cabe-nos ver claramente como tem início o pensamento, qual a 
origem do pensar, o papel do pensamento na vida diária; cumpre per- 
ceber como ele separa todas as atividades; temos de ser sensíveis — 
prestai atenção a isto — temos de ser sensíveis às atividades do pen- 
samento; isto é, dar-nos conta, não resistir ao pensamento, mas cien- 
tificar-nos de como ele funciona, sentindo-ihe, assim, a total estrutura 
e natureza. Observar, perceber, ter sensibilidade ao pensar, ao pen- 
samento, sem condenação nem julgamento — observar. E, nessa ob- 
servação, nesse percebimento, não formar conclusões, porque ao ti- 
rarmos uma conclusão deixamos de ser sensíveis, atingimos o ponto 
de onde nasce a divisão. 

Estais compreendendo? 

É bem de ver, senhor, que para estardes cônscio da cor da saia da 
pessoa ao lado, necessitais de um certo grau de sensibilidade e de 
receptividade. Em gerai não somos observadores verdadeiramente in- 
teressados, não sabemos sequer olhar; somos insensíveis, porque 
vivemos envolvidos em nossos problemas, nas aflições, nas ansiedades 
e sentimentos de culpa, em nossas exigências, nossos impulsos sexuais 
e mais uma dúzia de coisas. 

A continuidade de um problema, é inevitável, embota a mente. 
Assim, uma das coisas implicadas nesse percebimento é a terminação 
de cada problema, cada problema psicológico, instantaneamente. Isso 
é possível? Um problema envolve uma certa coisa que psicologica- 
mente não pudestes resolver; não estamos falando dos problemas 
tecnológicos e, sim, dos problemas psicológicos que todos temos e 
conosco carregamos, de dia para dia, sem jamais examiná-los e neles 
nos tornamos profundamente interessados. Podemos dar fim aos pro- 
blemas psicológicos no mesmo instante em que surgem? — pois, do 
contrário, ficaremos sob a pesada carga de sucessivos problemas, e 
a mente se tornará embotada e insensível, e isso impossibilitará o 

estado de vigilância, de alertamento, de atenta percepção. A percep- 
ção. como já dissemos, é também a mais elevada forma da sensibili- 
dade, da inteligência. A inteligência nada tem em comum com o saber; 
não precisais ler um único livro, para serdes inteligentes, se vos man- 
tiverdes bem atentos aos que se está passando no mundo e altamente 
sensíveis a todos os movimentos de vossos pensamentos e senti- 
mentos. 

Quando há sensibilidade — a mais alta forma da inteligência — 
quando a mente alcançou aquele elevado grau de sensibilidade, que 
significa "agir”, sabendo-se que o pensamento divide, limita? Então 
essa mente que se tornou profunda, e altamente sensível, observando 
toda a estrutura e natureza do pensamento, é sobremodo inteligente. 
Essa inteligência é ação completa. Certo? Conseguiu o orador trans- 
mitir-vos esse estado — não apenas verbalmente, mas, conseguiu ele 
comunicar-vos este fato, que o pensamento não é inteligência? O pen- 
samento, sempre velho, jamais possuirá aquela inteligência perene- 
mente nova e pura, aquela inteligência que nunca divide, de modo 
que a ação jamais é contraditória. 

1NTERROGANTE: Podeis falar sobre o medo? 

KRISHNAMURTI: Se não compreendermos a natureza e a estru- 
tura do pensamento, não teremos possibilidade de acabar com o 
medo. O pensamento gera medo, assim como gera prazer, não é exa- 
to? Ao verdes qualquer coisa que proporciona prazer — um rosto de 
mulher, um pôr do Sol, um riso de criança, ficais pensando nessa 
coisa. O pensar nesse fato que por alguns segundos proporcionou 
deleite é a gênese do prazer. 

Vejo um carro, vejo uma mulher, vejo um belo quadro ou obra de 
tapeçaria; no momento do ver, que sucede? Naturalmente — a menos 
que eu seja insensível às cores ou tenha outra qualquer deficiência 
— reajo. Essa reação ou é neurologicamente dolorosa, ou é agradável 
Então, o pensamento (acompanhai-me passo a passo), então o pensa- 
mento diz: “Que belo foi aquilo!", ou “Que sentimento maravilhoso 
experimentei!”. O pensar na coisa dá continuidade àquele prazer que 
experimentastes por alguns segundos; amanhã pensareis no prazer que 
hoje fruístes. Considerai o ato sexual, a imagem que dele formastes, 
a prazer desse ato, e o ficar pensando nele. Assim o pensamento 
produz e nutre ou dá continuidade a um determinado incidente que 
momentaneamente proporcionou deleite; isso é bem evidente. E, igual- 
mente, o pensamento suscita ou dá continuidade ao medo. Temo o 
que irá acontecer amanhã. O pensamento cria a imagem do que ama- 
nhão poderá ocorrer e o teme. Aprofundaremos este ponto noutra oca- 

slão. O que nesta tarde nos Interessa é a compreensão Integral da 
natureza do pensamento. Enquanto não estivermos bem familiarizados 
com nosso próprio pensamento (não com o pensamento de outros, com 
o pensamento deste orador), percebendo como se origina ele, sua 
natureza e sutileza, sua estrutura, sua configuração e conteúdo — não 
teremos possibilidade de resolver a questão do medo. Pode-se acabar 
com o medo, mas tão-só ao compreendermos esta coisa estranha, por 
nós adorada, chamada pensamento. 

Cada um, pois, deve descobrir, em si e individualmente, a origem 
do pensamento, seu começo (não há um milhão de anos); pegá-lo Ime- 
diatamente, ao surgir, olhá-lo, ver de onde proveio. Apresenta-se então 
um problema mais profundo, ou seja se a mente tem possibilidade de 
estar quieta, completamente em silêncio; vazia de pensamentos, po- 
rém, sobremodo vigilante. Este é um dos nossos principais problemas 
na vida; ver que o pensamento produziu tremendas devastações no 
mundo, dividindo-o em nacionalidades, religiões, culturas, engendran- 
do brutalidades de toda espécie, salvadores, igrejas, deuses, ideolo- 
gias. Tudo isso foi inventado peio pensamento conceptual. Temos pos- 
sibilidade de libertar-nos? Esse é o único ato virtuoso no qual há a 
liberdade completa que cria sua peculiar disciplina. Cumpre-nos pene- 
trar em nós mesmos, explorar, perceber (não neuroticamente, nem 
introspectíva ou analiticamente) nosso próprio conteúdo, seu florescer. 
Não sei se já alguma vez observastes a cólera, no exato momento 
em que surge, proporcionando-lhe espaço para florescer, a fim de 
aprenderdes tudo a seu respeito. 

1NTERROGANTE: Pode-se deduzir, do que tendes dito, que existe 
no homem uma certa coisa, uma certa “qualidade" que se poderia 
descobrir imediata e precisamente, se não houvesse obstrução por 
parte da mente? 

KR1SHNAMURTI: Como responderíeis a esta pergunta? O in- 
terrogante indaga: Existe no ente humano algo de transcendente, que 
virá a florescer se o pensamento silenciar? Qual a vossa resposta? 
Tende cuidado; se disserdes "existe”, isso poderá ser um preconceito 
vosso, uma esperança que nutris; vossa esperança irá então inventar 
e a essa invenção chamareis "intuição”. E se disserdes "tal coisa não 
existe”, estareis Igualmente na mesma situação. Tanto a assserção 
positiva como a negativa é ininteligente. Só uma coisa se pode fazer: 
investigar, explorar, descobrir, sem aceitar autoridade alguma (há uma 

(1) A pergunta ó dirigida ao auditório em geral. (N. do T.). 

multidão de autoridades no mundo, todos a dizerem "sim, sim”, “não, 
não". E os que dizem "sim" nos levaram pelo caminho errado, tal 
como o fizeram os que dizem “não"). Só uma coisa cumpre fazer: 
descobrir; e, havendo autocompreensão, torna-se existente a mais alta 
forma de meditação. Ora, a compreensão própria é um processo lento 
que requer tempo, dias, anos; ou podemos compreender-nos total- 
mente neste mesmo instante? Percebeis o problema? Se precisardes 
de tempo, aprendendo sobre vossa pessoa de modo gradual, passo 
por passo, vede o que isso significa. Todo exame de vós mesmos, em 
cada minuto, deve ser completo, para o não transportardes ao minuto 
seguinte, pois nesse intervalo surgem novos problemas. Não sei se 
estais percebendo. Ou aprendeis, observando e conhecendo-vos, por 
meio da análise (uma total impossibilidade, porque, quando estais a 
analisar-vos, há um intervalo entre o analista e a coisa analisada, o 
espaço onde existe a contradição, a resistência e a dor), ou vos vedes 
completamente, integralmente, de imediato. Este último é o único pro- 
blema; o primeiro não é problema, porquanto o processo analítico não 
é o caminho certo. 

Nossa questão é esta: Tenho possibilidade de me ver completa- 
mente, integralmente, por inteiro — em todos os recessos e esconde- 
rijos? Posso ver a inteira estrutura do “eu", do “ego", do “centro" — 
o centro, que divide, que tem diversas tendências, desejos contraditó- 
rios, propósitos, ansiedades, sentimento de culpa, e medo? — ver 
instantaneamente a coisa em sua inteireza, porque esse próprio ato 
de vê-la põe-lhe fim. Para compreender isso, ou seja se é possível ver 
a inteira estrutura do “eu", do “ego", temos de aprender a arte de 
ver, que apenas consiste em ver, escutar — só isso. Já escutastes des- 
sa maneira a alguém? Isso significa escutar com o coração, com a 
mente, com os nervos, com todo o ser, não apenas agora: escutar os 
políticos, por este mundo, escutar a esposa, os filhos, o vento entre 
as árvores — escutar. Há nesse escutar uma extraordinária atenção, 
atenção sem limites. Não necessitais, então, de drogas- de espécie 
alguma para expandirdes a consciência e vos enganardes com ilusões. 

1NTERROGANTE: Podeis explicar o que a mudança implica? 

KRISHNAMURTI: Tenho de ser breve. Em primeiro lugar, observa- 
-se no mundo, no moderno mundo tecnológico, uma mudança fantásti- 
ca. Aí temos — a mudança tecnológica. Mas, há necessidade de uma 
revolução psicológica e, por conseguinte, social. O homem que tem 
dez filhos e vive numa favela, que possibilidade tem ele de descondi- 
cionar a sua mente e tudo o mais? Nenhuma! Faz-se necessária a 
mudança social; mas, psicologicamente, interiormente, apresentam-se 

dois problemas. Psicologicamente, torna-se necessária uma revolução 
completa, porque atualmente somos ávidos, Invejosos, ansiosos, me- 
drosos, aflitos. Psicologicamente, é isso o que somos, Esse estado 
precisa mudar. Precisamos libertar-nos completamente de tudo isso; 
necessitamos de liberdade completa e, portanto, de uma completa 
mudança na estrutura, no âmago de nosso ser, de nosso pensar e de 
nosso sentir. Este é um dos problemas. O outro é: Existe aiguma espé- 
cie de mudança, ou só existe um “modo" eterno, intemporal, de nós 
desconhecido, a que chamamos "mudança"? Não tratarei agora deste 
assunto, por demais complexo. 

Nosso problema principal é este: podemos operar uma mudança 
imediata em nossa vida, de maneira que cada um possa sair deste 
salão transformado num ente humano novo, "inocente", puro r lúcido, 
incontaminado pelo tempo — não na forma de uma idéia, esperança 
ou ideologia, porém realmente? 

É isso o que está implicado na palavra “mudança", e não mera- 
mente uma revolução econômica, social, não conducente a parte algu- 
ma. Já tivemos revoluções, comunistas e outras, e todas estão vol- 
tando ao mesmo e velho padrão. E, assim, a nós mesmos perguntamos 
se a mudança depende das circunstâncias, das pressões sociais, do 
tempo e da cultura, ou se existe mudança sem compulsão e sem "mo- 
tivo" algum. Esta é, com efeito, a verdadeira mudança. Isso significa 
que temos de examinar atentamente a questão dos "motivos”. Em 
palavras muito simples: Podemos morrer para o passado? é nossa 
mente suficientemente inocente e vulnerável? Não sei se alguma vez 
experimentastes morrer para um dado prazer, pondo-lhe fim sem ar- 
gumentação, sem luta, sem resistência, dizendo simplesmente "Aca- 
bou-se". Já experimentastes fazê-lo? Queremos morrer para uma certa 
tristeza, e nunca para um certo prazer; mas o prazer e a tristeza se 
acompanham sempre. 

3 de outubro de
TEMPO E AMOR 
( 3 ) 

Não parecemos pessoas responsáveis — a maioria de nós; ten- 
demos a deixar que outros pensem por nós, digam o que devemos 
fazer. Cria-se assim um estado de conformismo, obediência e aceita- 
ção. A meu ver, seria errôneo ficarmos aqui a concordar ou a discordar 
do que se está dizendo. Aqui estamos para empreender juntos uma 
viagem de exploração, para investigar e considerar juntos os numero- 
sos problemas humanos. Há dias, estivemos considerando a questão 
do temor e se os homens, que sempre viveram sujeitos ao medo, à 
ansiedade, à tristeza, podem libertar-se dele. Mas, cumpre conside- 
rarmos o medo de um novo ângulo. Falaremos também a respeito do 
tempo, do amor e da morte. Para compreendermos o que é o amor, ou 
a morte, precisamos compreender — não intelectuafmente, verbalmen- 
te — a inteira estrutura e natureza do tempo. 

Quase todos vivemos em conflito; nossa vida diária, conforme se 
observa, é um campo de batalha, uma luta constante, um incessante 
esforço, um interminável consumo de energia, aplicada a dominar, a 
resistir ou a ceder. Nisso está implicada a questão dos opostos — 
resistir ou ceder. Tanto no resistir como no ceder há conflito. Nossa 
vida é uma série de conflitos, e a mente que se acha em conflito, em 
luta, é por certo uma mente torturada, incapaz de ver com clareza, 
incapaz de compreender integralmente os problemas da vida e de des- 
cobrir se é mesmo possível vivermos neste mundo sem nenhum es- 
forço e nenhum sofrimento. 

Vê-se que toda forma de luta — que implica violência — deforma 
â mente. Perguntamos a nós mesmos se é de alguma maneira possível 
vivermos sem esforço e aflição, isto é, vivermos na mais completa 
paz, não só interior mas também exteriormente. Para examinarmos 
esta questão, sobre ela conversarmos, temos de considerar a fundo o 
problema da dualidade, dos opostos, descobrir se precisamos dessa 

dualidade, desses opostos, e também se, psicologicamente, ela é ne- 
cessária. Vivemos numa galeria de opostos, constantemente arrastados 
numa direção ou impelidos na direção contrária; divididos por desejos 
diferentes, opostos — contradições. Temos possibilidade de viver sem 
a luta dos opostos e, no sentido psicológico, realmente oposto? Ou 
há apenas “o que é" e nenhum “deveria ser"? Só existe o presente 
ativo e nenhum futuro verbal ou psicológico, gerador do oposto? Se 
interiormente, psicologicamente, “da pele para dentro", por assim di- 
zer, não há opostos, eliminamos então completamente o conflito e 
existe apenas M o que é". 

Podemos ver “o que é", com ele viver e não com a contradição a 
“o que é\ o oposto de “o que é", causador de conflito, luta, contradi- 
ção? É possível isso? Eis um problema verdadeiramente interessante. 
Temos de compreendê-lo, por que dividimos a vida em viver e morrer, 
em ódio e amor, coragem e covardia, a bondade como oposto da mal- 
dade, etc. — uma infinidade de opostos. 

Os opostos geram o tempo. Há evidentemente duas espécies de 
tempo: o tempo cronológico e o tempo psicológico. O tempo psicoló- 
gico existe como "não ser" ou “vir a ser”: eu sou isto e serei aquilo, 
sou violento, e serei não-violento. A divisão entre “o que é" e o que 
“deveria ser" é obra do tempo. Neste está implicado o “vir a ser". Sou 
violento e, para tornar-me não-violento, pacífico, necessito do tempo. 
A não-violêncla é o oposto da violência, e esta divisão produz conflito 

— conflito entre o que eu sou e o que deveria ser. O tempo medido 
pelo relógio existe, obviamente; mas, existe a outra espécie de tempo? 

— pois tal espécie de tempo gera medo. Isto é, interiormente sou de- 
pravado e rancoroso; psicologicamente, sou violento, e o pensamento 
projeta a Ideologia da não-violência, que cumpre alcançar, uma ideologia 
de aperfeiçoamento, etc. O pensamento, por conseguinte, exige o tem- 
po e produz medo. Gera o medo ao amanhã — do que poderá acontecer. 
O pensamento conserva o passado, a memória do que foi, e cria dife- 
rentes possibilidades de futuro — do que será. Teme o passado a o 
futuro. O pensamento é tempo, e o tempo, psicologicamente, é a divi- 
são entre o que foi, o que é,eo que deveria ser 

Tratamos da possibilidade de vivermos no presente atuante tão 
compietamente, que só ele exista, e nada mais. E para descobrirmos 
essa possibilidade, teremos não só de Investigar a fundo a questão do 
tempo psicológico, mas também a maneira pela qual o pensamento se 
serve do tempo como meio de alcançar alguma coisa, e como, em 
conseqüência, ele cria medo. 

Já perguntamos: Existe o oposto, o ideal? Ou meramente se trata 
de uma projeção do pensamento, do oposto irreal de “o que é”, pensa- 
mento que assim procede por ignorar a maneira correta de lidar com 
a realidade? Como esclarecer isso e compreender o presente? 

O pensamento cria o futuro, o ideal, e, como já dissemos, os ideais 
são absurdos, sem qualquer significação, e já levaram o homem a 
guerras de toda espécie, à divisão, ao ódio, à compulsão sob várias 
formas, em nome do Estado, em nome de Deus, etc. Infelizmente, 
estamos cheios de ideais, oposto daquilo que tem existência. E, não 
sabendo atender à coisa existente, compreendê-la e ultrapassá-la, re- 
corremos às fugas para o que "deveria ser”. 

Ora, podemos viver com "o que é" e ultrapassá-lo, sem inventar 
um oposto e, dessa maneira, aumentarmos nossos conflitos, aflições e 
lutas? Somos violentos, brutais, agressivos, ambiciosos; eis o fato, o 
que é, a realidade e todos os opostos que o homem tem inventado 
nenhuma realidade têm. Pode a mente viver com "o que é" — sem o 
oposto — e compreendê-lo, transcendê-lo? Porque, para compreender- 
mos a questão do amor e da morte [um dos mais importantes proble- 
mas da vida), devemos, natural e realmente, viver com “o que é n . 
Posso olhar-me, tal como sou, com meus rancores, ansiedades, temo- 
res — todas as inumeráveis torturas pelas quais está passando a mente 
humana; viver com o meu ser, compreendê-lo e ultrapassá-lo, sem 
esforço algum? Isso só será possível se se eliminarem completamente 
os opostos. Está claro isto? 

Auditório: Está. 

KRJSHNAMURTl: Senhores, ao dizerdes "sim" ou "compreendo", 
talvez estejais entendendo verbalmente, intelectualmente. Compreen- 
são intelectual não é, de modo nenhum, compreensão. É compreender 
o que o orador está dizendo em inglês e, como também falais em 
inglês, compreender suas palavras, compreendê-lo verbalmente. Com- 
preensão é ver instantaneamente, é percepção e ação instantâneas. É 
como ver uma coisa perigosa e de pronto agir, sem nenhuma argu- 
mentação intelectual. Temos aqui um problema extremamente com- 
plexo; todos estes problemas são inter-relacionados e, portanto, bem 
difíceis, e mais complexos ainda se tornam quando deles nos ocupamos 
intelectualmente, verbalmente. Como temos dito, a palavra não é a 
coisa, a descrição não é a coisa descrita. O que temos feito é descre- 
ver e, se aceitamos meramente a descrição — uma série de palavras 
puramente conceptuais — não há compreensão nenhuma e, por con- 
seguinte, nenhuma ação. A ação vem com a compreensão; são coisas 
simultâneas, não há primeiro compreender e depois agir. O próprio 

compreender é agir. Compreender é viver com “o que é" — mas isto 
não significa contentar-se com “o que é”; peio contrário. Compreender 
é viver completamente, por exemplo, com a brutalidade e a violência 
que vemos alastrarem-se peio mundo. 

Os entes humanos são violentos; no lar, no trabalho, em toda 
parte; eles são violentos nos atos, são egocêntricos, egotistas. Existe, 
pois, a violência e, se meramente abraçamos uma ideologia de não- 
-violência, isso é uma coisa evidentemente absurda e hipócrita. 

Percebei que nós somos violentos de diferentes maneiras — se- 
xualmente e em nossos pensamentos e ações. Vivei com esse fato, 
compreendei-o inteiramente. Mas só o compreendereis quando não hou- 
ver fuga para uma ideologia, um oposto. Se não houver opostos, como 
saberemos que somos violentos? Esta pergunta não se vos apresenta 
naturalmente ao espírito? Não? Como posso saber que sou violento, 
se não tiver sido condicionado para adotar um conceito de não-violên- 
cia? A violência é conceptual ou real? 

A violência é uma palavra, um conceito, ou é uma realidade? 
Quando estou encolerizado, a palavra "cóiera” não é o próprio senti- 
mento. O próprio sentimento é conceptual, ideal? Não é, decerto; ele 
é “o que é". Posso eu, pode minha mente olhar esse estado de violên- 
cia sem dele fugir para o oposto, “viver com ele”, compreendê-lo inte- 
gralmente? Isso significa que o observador não difere da coisa obser- 
vada, como o é o pensador que diz “estou encolerizado”. Enquanto 
existir essa separação entre o pensador e a coisa pensada, o experi- 
mentador e a coisa experimentada, o observador e a coisa observada, 
etc., existirá necessariamente dualidade. Eliminar o conflito, de maneira 
total significa vivermos na mais completa paz interior, e, por conse- 
guinte, exteriormente. Tal só é possível quando não há opostos, com- 
parações, quando estamos ativamente cônscios de "o que é”, tendo 
eliminado a separação entre o observador e a coisa observada. 

Se vos Interessa realmente pôr fim à guerra, à violência e ao 
ódio existentes no mundo [e isso deve interessar a todo ente humano 
ponderado), como ireis libertar-vos desse antagonismo, ódio e vio- 
lência? Eis um problema multo sério, a que devemos aplicar-nos dili- 
gentemente, a fim de descobrirmos a verdade nele encerrada. Psico- 
logicamente, se existe um amanhã (isto não é uma idéia filosófica), 
se existe um amanhã, como tempo psicológico, existe também, neces- 
sariamente, medo e, por conseguinte, violência. Estar libertado do 
nmanhã significa viver unicamente no presente ativo; isto é, temos 
do compreender todo o mecanismo do pensamento, como passado e 
futuro, oase pensamento que tanto gera o medo como o prazer. A me- 

nos que, como ente humano, resolvais este problema, continuareis, 
inevitavelmente, a contribuir para o ódio, a guerra, a violência. 

Que é o amor, para a maioria de nós? O amor é prazer, desejo, 
ciúme, interesse egoísta? Este é um dos mais importantes problemas 
da vida, e precisamos examiná-io com certa profundeza; precisamos 
investigar se a mente humana, que inclui o coração, etc., tem possibi- 
lidade de conhecer o amor. Estará eia condenada a viver sempre em 
companhia do ódio, do ciúme, da ambição, da competição, com total 
exclusão do amor? 

Perguntamos: O amor é prazer? No mundo ocidental o prazer re- 
presenta uma parte importantíssima da vida (não estou dizendo que 
ele não seja importante também no Oriente; mas aqui exagera-se in- 
devidamente a sua importância, e ele é identificado com o sexo). As- 
sim, ao fazermos a pergunta “O amor é prazer e, portanto, desejo?” — 
devemos também perguntar: Que é o prazer? Como nasce ele? Por 
que razão está a mente sempre, como um animal, a buscar o prazer e 
a evitar toda espécie de perigo; sempre a desejar variados prazeres e 
deleites? Não significa isso que não devamos buscar o prazer, que nos 
abstenhamos de olhar o pôr do Sol, a luz refletida na água, uma ave 
a voar; o próprio ato de olhar, se somos vigilantes e sensíveis é 
deleitante; não podemos negar-nos tai deleite. Não estamos dizendo 
que prazer é uma coisa feia, vitanda, Estamos, sim, a investigar-lhe 
a natureza; porque o prazer, para a maioria de nós, está identificado 
com o amor — amor a Deus, à pátria, amor à esposa ou ao marido, 
aos filhos, etc. 

Que é prazer? Vedes o poente e ele vos deleita; as cores, a cla- 
ridade, a beleza e intensidade da luz e das sombras apresentam-se 
instantaneamente à percepção sensorial, proporcionando extraordiná- 
rio deleite e alegria; depois, lembrando-se de outros crepúsculos, 
outros prazeres, o pensamento se ocupa com o ocaso presente, dando 
continuidade àquele deleite, convertendo-o em prazer. Tende a bon- 
dade de observar; não vos limiteis a “aprender coisas”, como se 
estivésseis numa sala de aulas. Observai os fatos em vós mesmos, 
,na vossa vida diária. Ontem tivestes uma experiência, dolorosa ou 
agradável. Se foi dolorosa, desejais evitá-la, afastá-la de vós; o pensa- 
mento diz: "Esta experiência é desagradável, aflitiva” — e trata de 
evitá-la; mas, se a experiência agradou, o pensamento trata de lhe 
dar continuidade, com ela se ocupando. Mas, fixando-se numa coisa 
aprazível, o pensamento dá continuidade ao medo. O pensamento, pois, 
tanto gera prazer como cria temor. 

O pensamento é amor? Pode-se pensar no amor? Fazê-lo é pensar 
em prazeres passados, sexuais ou de outro gênero. Ora, o amor é 
prazer, coisa engendrada pelo pensamento? Se o amor é prazer, nesse 
caso o pensamento é amor, esse pensamento, que é reação do pas- 
sado, da memória, do conhecimento, da experiência — de coisas idas; 
sendo o pensamento reação do passado, segue-se que o amor resulta 
igualmente do pretérito. É só esse o amor que conhecemos. Ao falar- 
mos em amor, é isso o que temos em mente, um resultado do passado, 
uma coisa que experimentamos como prazer, sexualmente ou de 
outras maneiras. A isso é que chamamos amor — essa coisa onde se 
encontra a dor, o ciúme, a posse, o domínio; nada mais conhecemos. 
E quando uma dessas pessoas chamadas "espirituais" fala em amor, 
tem ern mente uma ideologia — amor de Deus (não sei o que isso 
significa; vós o sabeis?). Eis mais uma invenção, uma outra espécie 
de culto ideológico. 

O amor, ou a compaixão, é produto do pensamento e, por conse- 
guinte, cultivável? É uma coisa enraizada no passado e, portanto, jamais 
inocente, vulnerável, pura, juvenil — uma coisa contida sempre no 
passado? Quando dizeis “Amo minha mulher", ou “meu marido", “mi- 
nha pátria", “Deus” — o que quer que ameis — ao dizerdes “amo”, 
quereis dizer que amais a imagem, a idéia que, através do tempo, 
construístes a respeito de um outro ser. Isso é amor? Ou é amor 
uma coisa inteiramente diversa, pertencente a uma outra dimensão? 
Para descobrirdes algo de verdadeiro, deveis negar completamente o 
falso. Na negação, na compreensão do falso, encontra-se a verdade. A 
verdade não é o oposto do falso; ela se encontra na total compreensão 
do falso, na sua total rejeição; nessa rejeição está a verdade. Isto é, 
no total abandono, com toda a vossa mente e coração, do ciúme, da 
Inveja, da brutalidade e do espírito de domínio, existentes naquilo a 
que chamamos amor, nessa negação e rejeição surge a coisa reai. 
Não há necessidade de a buscarmos: ela desabrocha como uma flor. 
Sem ela, pode-se organizar e legislar à vontade, fazer coisas e mais 
coisas, nunca haverá paz no mundo. 

Para compreender o que é a morte, é necessário saber o que é 
viver. A morte é o oposto do viver? Para nós, é. Daí é que vem a 
batalha, a luta, a dor, a aflição, existentes entre o viver e o morrer. 
Compreendendo o que é viver, talvez venhamos a descobrir que o pró- 
prio viver é morrer. Examinemos este ponto. 

Observando vossa vida diária — e a de vossos amigos, do vosso 
próximo, do mundo, do ente humano — podeis ver que isso que cha- 
mamos “viver” está cheio de aflição, de íuta, frustração, ansiedade — 
com fortuitos lampejos de alegria e de êxtase, que nada têm em 

comum com o prazer. Nossa vida, tal como é, no lar, no trabalho, 
em toda a parte, é um campo de batalha; não estamos exagerando, 
porém apenas mencionando o fato, tal como é. Olhando vossa própria 
vida, a vida que viveis todos os dias, o!hando-a objetivamente — não 
sentimental ou emocionalmente — vedes que ela é, com efeito, hipo- 
crisia, insinceridade, dissimulação, luta, infindos sofrimentos e frus- 
trações, solidão, desespero, brutalidade; vereis que tal é a vossa vida. 
E, naturalmente, há sempre o meio de fugir para Deus, para a crença 
organizada a que chamais religião — e que, absolutamente, não é re- 
ligião, porém mero costume, hábito, propaganda. Eis, pois, o que é a 
nossa vida, o que chamamos “viver". E temos, também, a morte, a 
velhice, a doença, a dor. O que chamamos “morte", isso queremos 
afastar para longe, evitar, apegando-nos às coisas que conhecemos, ao 
que chamamos “vida", nossa vida de cada dia. A vida a que estamos 
apegados é tristeza, ansiedade, dor, aflição, confusão, luta; mas, isso 
é viver? A Ásia inteira crê na reencarnação: tornamos a nascer para 
uma próxima vida, a fim de termos outra oportunidade melhor, renas- 
cermos em condições diferentes. Se credes na reencarnação, isso sig- 
nifica que deveis viver agora virtuosamente, que deveis viver a vossa 
vida tão completa e entusiasticamente, tão virtuosamente, e com tanta 
beleza, que na próxima vida tudo o que fizestes na atua! produza seus 
frutos. Mas não é isso o que fazem os que crêem na reencarnação. 
Trata-se de uma mera teoria, um conceito muito bonito, uma coisa 
própria para confortar suas almas pequeninas. O mundo cristão, por 
sua vez, tem suas próprias modalidades de fuga — ressurreição, etc., 
etc. E quem não crê em nada disso racionaliza a morte. 

Nossa questão, pois, é esta: Existe um diferente modo de viver- 
mos, distanciados desta maneira estúpida e corrupta? É possível viver- 
mos de tal forma, que não haja sofrimento nenhum, nem solidão, nem 
frustração, nem ansiedade, nem desespero; vivermos, não no piano 
ideai ou conceptual, porém reaimente, neste mundo, sem comparação 
ou medida e, portanto, livres? Isso significa, com efeito, que temos de 
tornar-nos tão cônscios do movimento de nossos pensamentos, de nos- 
sas palavras e ações, que nossa mente jamais possa ser colhida peio 
oposto, fique sempre vivendo no presente. Isso equivale a compreender 
o passado e seu movimento através do presente para o futuro; signifi- 
ca morrer todos os dias para tudo o que acumulamos psicologicamen- 
te. Experimentai uma vez — fazei-o por favor — morrer para vosso 
prazer pessoal, instantânea e completamente, para verdes o que acon- 
tece. Só no morrer há possibilidade de tornar-se existente alguma coisa 
nova. O que tem continuidade — por mais modificado que seja pelo 
tempo e por pressões várias — óo que foi; neste, nada existe de novo. 

Só quando há um findar, aparece uma nova energia, uma felicidade, 
um êxtase que não é prazer. 

INTERROGANTE: Eu diria que, se não temos prazer, então só co- 
nheceremos a dor. 

KR1SHNAMURTI: Se só temos dor a todas as horas, que devemos 
fazer? Quereis referir-vos à dor física? 

INTERROGANTE: Digamos dor psicossomática. 

KRISHNAMURTI: Dor psicossomática — como se origina essa dor? 
Qual a natureza da dor? Há dor física (dor de dente, uma doença 
aguda), a dor puramente orgânica. E há a dor causada, psicologica- 
mente, por acidentes vários: sinto-me ofendido porque alguém me 
falou brutaimente; vejo-me só, desorientado, confuso, porque morreu a 
pessoa que eu pensava amar, ou porque minha mulher me abandonou; 
tais coisas contribuem para a dor, a tristeza, afetando o organismo 
físico como dor psicossomática. E dizeis: "Como posso eu, que me 
acho num constante estado de dor psicossomática, libertar-me dela?" 
Em primeiro lugar, todo aquele que dá conselhos em tal matéria é 
insensato. Portanto, não vamos aconselhar ninguém; vamos primeira- 
mente explorar, a fim de descobrir por que razão a natureza interna 
do homem está sujeita ao sofrimento. Reconheço a existência da dor 
física; e, ou trato de suportá-la, ou de fazer alguma coisa para livrar-me 
dela. Mas, por que a dor psicológica? Minha mulher olha para outro 
homem, e fico enciumado. Por quê? Porque subitamente me vejo so- 
zinho, subitamente perco alguém que eu possuía, que me proporcionava 
prazer, sexual e outros, que me confortava, etc. Também, porque me 
vejo obrigado a olhar-me de frente, a ver o que sou; disso eu não 
gosto, de ver-me como sou: insignificante, ansioso, apegado a minhas 
posses. Não gosto de observar o que sou e, por isso, aborreço a pes- 
soa que a tal me obriga. E, igualmente, essa observação revela-me o 
quanto sou dependente. Ver esse fato, essa realidade, em vez da ima- 
gem que tenho de mim mesmo, ver o meu verdadeiro estado, não é lá 
muito agradável. Não quero aceitar “o que é" e preferiria voltar ao 
que foi. Por isso, sinto ciúme, raiva, ressentimento, etc., etc. Torna-se, 
assim, a família uma coisa medonha. 

A por psicológica só se apresenta quando não quero compreender- 
-me como sou, não quero olhar-me de frente, viver com a própria so- 
lidão, sem dela fugir; ficar compíetamente só. E todas as minhas ati- 
vidades e pensamentos geram essa solidão, porque sou egocêntrico; 
só penso em mim, minhas ações me isolam, a pretexto de devoção à 
família, a Deus, à profissão, etc.; psicologicamente, meu pensar é um 

fator de isolamento. E o resultado é a solidão; para compreendê-la e 
ultrapassá-la, rumpre-me “viver com ela”, sem dizer: "Ela é horrível, 
dolorosa, isto e aquilo” — tenho de viver com ela. Não sei se já expe- 
rimentastes viver com alguma coisa completamente. Se o fizerdes, 
vereis como se torna bela essa coisa. 

Pergunta-se: Que é a beleza? — Não sei por que os museus estão 
sempre cheios de gente. Museus, música, quadros, livros, por que se 
tornam essas coisas tão desmedidamente importantes? Já consideras- 
tes isto? Uma pessoa pinta um quadro e dizeis: “Que belo!” — Se 
tendes dinheiro, o adquiris e pendurais em vossa casa; chamais isso 
"beleza”! Provavelmente nunca olhastes para uma árvore; ou, talvez, 
em companhia de um grupo organizado, ides à floresta olhar as árvo- 
res — aprender a olhar uma árvore! Ides para o colégio a fim de 
aprenderdes a ser sensíveis. Que coisa triste, não achais? Isso significa 
ter perdido o contato com a natureza. Indica que “exteriorizastes” todas 
as coisas. Quando há muita prosperidade e nenhuma austeridade, dá-se 
a vazão do estado interior e, por isso, necessitamos de ir aos museus, 
aos concertos, às galerias de arte, para entreter-nos. E tais coisas são 
a beleza? A beleza anda de par com o amor, e só há amor quando há 
morrer. O amor é uma coisa sempre nova, inocente, pura; ele não 
existe para a mente que está repleta de problemas, conceitos intelec- 
tuais e lutas. Interiormente, temos de viver de maneira sobremodo 
simples. 

8 de novembro de 1968. 

A PAIXÃO QUE LIBERTA 
(4) 

A palavra "paixão” — sua raiz — significa "sofrimento”. Para a 
maioria de nós, o sofrimento é uma coisa terrível, que cumpre evitar, 
afastar de todo ou dissolver; e, não sabendo dissolvê-lo, pomo-nos a 
adorá-lo, como se faz no mundo cristão, ou, como acontece na Ásia, 
acha-se para ele uma explicação: usa-se a palavra “karma” para indicar 
ser o sofrimento o resultado de ações passadas. Mas, o sofrimento é 
algo que está sempre a acompanhar-nos, embora possamos nâo reco- 
nhecer-ihe a presença, não estar com ele familiarizados. Esse sofri- 
mento pode originar-se da frustração, do sentimento de completo iso- 
lamento, pela perda de alguém que pensávamos amar, ou pode ser o 
sofrimento infligido por um grande temor que não soubemos dissol- 
ver. Em geral, o sofrimento não engendra paixão; ele apressa a ve- 
lhice, o declínio, traz o sentimento de um profundo e irremediável de- 
sespero. E, assim, ficamos a perguntar-nos como já o deveis ter feito, 
se levais a sério estes assuntos — se podemos eliminar definitiva- 
mente o sofrimento e alcançar aquele estado de profunda e inalterá- 
vel paixão. O sofrimento não traz a paixão; peio contrário, amesquinha 
a mente, veda a clareza da percepção; é como uma nuvem negra em 
nossa vida. Eis um fato óbvio, e não um pressuposto teórico ou psicoló- 
gico. 

É bem perceptível o processo do sofrimento, o que nós entes hu- 
manos temos sofrido, por todo este mundo — guerras, incertezas, falta 
de relações, falta de amor. E faltando-nos o amor, o prazer assume 
toda a importância. Não só existe essa espécie de sofrimento, mas 
há também — se sois capazes de observá-lo bem de perto — o sofri- 
mento causado pela ignorância. Há ignorância, mesmo quando somos 
bem ilustrados, dotados de vasta cultura e experiência, das aptidões 
com que se ganha fama, notoriedade, dinheiro. A ignorância não se 
dissipa com o acumular fatos e informações; isso o computador pode 

fazer multo melhor do que a mente humana. Ignorância é a total au- 
sência de autoconhecimento. Em maioria, somos superficiais e vulga- 
res, com um grande quinhão de sofrimento e ignorância. Mais uma vez, 
isto não é exagero, nem uma suposição, porém um fato real de nossa 
existência diária. Muito se sofre por não nos compreendermos devida- 
mente. Essa ignorância engendra toda espécie de superstição, perpetua 
o medo, gera a esperança e o desespero e todas as invenções e teo- 
rias da mente astuciosa. A ignorância, pois, traz-nos não só a amar- 
gura, mas também uma grande confusão. Com atenta observação, po- 
demos perceber — se nos damos conta do mundo, de nós mesmos e 
de nossa relação com os entes humanos — essa infindável cadeia do 
infortúnio; andamos perpetuamente empenhados em fugir-lhe — mas, 
nascemos com o infortúnio e com ele morremos. Supomos que o pra- 
zer cria a paixão; poderá suscitar paixão sexual, apetite sexual; mas 
nós nos referimos a uma paixão que é uma chama que se acende com 
o autoconhecimento. Finda o sofrer com o autoconhecimento; dele é 
que nasce a paixão. 

Nós necessitamos de paixão — mas não identificada com um certo 
conceito, uma determinada fórmula para a revolução social, ou um 
conceito Ideológico de Deus, porquanto a paixão baseada em conceitos 
e fórmulas inventadas por uma mente hábil, sagaz, depressa se esvai. 
Sem aquela paixão, aquele enérgico impulso, aquela “intensidade", 
nossa vida permanecerá artificial, "burguesa”, insignificativa. É sem 
expressão a nossa vida, como agora a vivemos; se puderdes observar- 
vos, vereis que não há, na vida que estamos levando, um significado 
profundo, inalterável, rico; inventamos diferentes atividades, objetl- 
-vos, vereis que não há, na vida que estamos levando, um significado 
especial para guiar sua própria vida. Se também sois intelectual, ao 
verdes todo esse movimento da vida, tanta luta e fealdade, competi- 
ção, brutalidade, tortura, inventareis uma fórmula para viverdes de 
acordo com ela, pelo menos o tentareis. Não há, nisso, paixão. A 
paixão não é cega; ao contrário, ela só pode surgir com o alargar e o 
aprofundar do autoconhecimento. 

Espero não estejais meramente a ouvir uma série de palavras, 
porém olhando, examinando e investigando realmente vossa própria 
vida, a vida que cada um tem de viver — não a vida de outrem, o 
conceito da vida por outrem formulado, porém a vossa vida de cada 
dia, sua rotina, suas intermináveis lutas, sua total falta de amor e de 
bondade, vida na qual não existe compaixão. Estamos constantemente 
a matar — não apenas animais, mas também com palavras e pensa- 
mentos. Daí resulta mais sofrimentos; isso, também, não é uma supo- 
sição, porém uma realidade — "o que é”. Não podemos fugir de "o que 

é"; cumpre-nos compreendê-lo, penetrá-lo, “cravar-lhe os dentes", va- 
rá-lo por inteiro, e para isso necessitamos de abundante energia. Essa 
energia é paixão, e não pode existir se nos vemos em constante con- 
flito. Nossa vida é uma atividade dualista, uma guerra entre os opos- 
tos. E, havendo violência, atrito entre os opostos, quer no campo das 
idéias, quer na realidade, há desperdício de energia. Existe energia 
quando a mente está toda empenhada em compreender. Essa energia 
é paixão. Só a paixão poderá criar uma sociedade de espécie diferente. 
Nós necessitamos de outra sociedade isenta da corrupção da atual. 

Percebendo bem isso, ficamos a interrogar-nos sobre o que é que 
poderá efetuar uma transformação radical no homem. Que é que po- 
derá transformar-nos bem a fundo, de forma que tenhamos uma mente 
diferente, um diferente coração? Isto não são meras palavras. Se vos 
puserder a investigá-lo com penetração e clareza, fareis inevitavel- 
mente estas perguntas fundamentais. As organizações são evidente- 
mente necessárias — a organização que nos entrega o leite, as cartas, 
e o governo, por mais corrupto que seja. Mas, o pensamento organi- 
zado é muito mais pernicioso; a existência interior, organizada à força 
de repetição, de seguir uma determinada linha de pensamento e de 
ação, torna-se rotina. A destruição do pensamento organizado não sig- 
nifica desordem. Bem ao contrário, se tratarmos de investigar, ve- 
remos que a crença organizada a que se chama religião, com seus 
rituais, não é de modo nenhum religião. Freqüentar a igreja todos os 
domingos, pela manhã (ou o que quer que costumais fazer) e ficar o 
resto da semana a destruir o próximo, a fomentar guerras, a pôr os 
homens uns contra os outros, a venerar a hierarquia, nada disso é 
religião; é propaganda organizada para forçar-vos a pensar e agir se- 
gundo um certo padrão. Tudo isso é produto do medo, e como pode 
existir uma mente religiosa quando há medo? 

Espero não estejais meramente a ouvir o orador; isso é inteira- 
mente sem valor, porquanto o orador não vos está ensinando coisa 
nenhuma, não vos está guiando por uma certa linha de pensamento, 
pois isso é simplesmente fazer propaganda e, portanto, mentir. Mas, 
se vos servirdes do orador como um meio de vos observardes, vereis 
então que, se não possuís uma grande energia e, portanto, grande 
paixão e intensidade, a vida continuará a ser, inevitavelmente, o que 
hoje é: uma busca de prazer e entretenimento, uma acumulação de 
conhecimentos ou coisas. 

O movimento interior organizado, a vida organizada pelo pensa- 
mento para ser vivida em constante repetição, com fortuitas inter- 
rupções, é — não sei se já o observastes — uma coisa horrível, triste. 
E estamos educando nossos filhos para seguirem nossas pegadas. E 

Í40 

a moralidade organizada — que é respeitabilidade, espírito de aquisi- 
ção, avidez, compet ; ção, violência, brutalidade — aceitamo-la como se 
fosse realmente moral. Podemos achar ruim viver assim — mas é 
nossa vida, nossa moralidade. Com a mente dessa maneira organizada, 
continuaremos, por força, superficiais, mesquinhos, egoístas, preocupa- 
dos com nosso sucesso pessoal, nossa família, nossas insignificantes 
atividades. Em tais condições, como pode a mente conhecer o sofri- 
mento ou a paixão? Só pela compreensão do sofrimento nos virá 
aquela paixão. Assim, vendo-se tudo isso, não apenas intelectual ou 
verbaímente, porém como uma realidade concreta — que devemos 
fazer? Qual a vossa resposta? É nossa vida... a fealdade nela exis- 
tente, o envelhecer e as tristezas da velhice, a acrimônia, as frustra- 
ções, a total ineficácia do pensamento superficial, a avidez, a inveja, e 
tantas outras coisas que nos acompanham na vida. Como sair desse 
estado? Esta é que é a questão real, e não o crer ou não crer em 
Deus. 

A beleza vem com a ordem, e não quando nossa vida está em 
desordem. A beleza não se acha no museu, no quadro, na estátua, ou 
em ouvir um concerto; não se acha num poema ou no encantamento 
da noite estrelada, na luz refletida na água, no rosto de uma bela 
pessoa, na imponência de um edifício. Só há beleza quando a mente 
e o coração estão em perfeita harmonia; e essa beleza não é adqui- 
rível peia mente superficial, imersa na desordem deste mundo. 

Em face desse formidável e complexo problema, vós, como ente 
humano, que podeis fazer? Quando a casa está em chamas, não há 
tempo para dizerdes: "Vamos pensar nisso", “Vamos averiguar quem 
ateou o incêndio, se foi um branco, se foi um preto, etc." Quando vos- 
sa casa está a arder, isso vos atinge diretamente. Que fareis? 

É evidente a necessidade da transformação, não só exteriormente, 
na sociedade, mas também em vós mesmos. A transformação social só 
é realizável mediante a transformação interior; a mera reforma ex- 
terior, por mais revolucionária que seja, é sempre superada por nossas 
atitudes interiores, nossos pensamentos e sentimentos; já vistes isso 
acontecer na revolução russa e outras. Que cumpre, pois, fazer? Per- 
gunto a mim qual será a vossa reação, como ente humano, ante tal 
desafio; retirar-vos para um mosteiro remoto, a fim de meditar, ou 
aprender uma nova técnica, tornar-vos budista-zen, fazer votos de po- 
breza, celibato, castidade? Ou vossa reação é de ingressar em outros 
grupos ou seitas religiosas, entreter-vos com psicanalistas, tornar-vos 
reformador social, pôr remendos nesta sociedade que está a desfazer- 
-se? Que ireis fazer? Deveis considerar isto com o máximo de serieda- 

de. Se não podeis retirar-vos ou fugir (por esse caminho não há solu- 
ção); se nada pode ajudar-vos, nem instrutuor, nem guru, nem religião 
organizada, nem Deus, porque Deus certamente não vos acudirá (Deus 
é uma invenção vossa) — que ireis fazer? 

Que faz a mente, que fazemos nós, vendo-nos no meio desta con- 
fusão criada por tantos especialistas, tanto saber acumulado, por nos- 
sas incertezas e nossa busca de certeza? Que se pode fazer quando já 
não confiamos em ninguém (espero não tenhais mais confiança em 
ninguém — em nenhum analista, nenhum sacerdote, etc.)? Interior- 
mente, já tivemos fé em muita gente — no objeto de nosso amor, de 
nossa afeição, de nossa confiança — e todos falharam, como era ine- 
vitável. Assim, quando nos vemos em presença desse enorme proble- 
ma e forçados a resolvê-lo por nós mesmos, sem nenhuma ajuda exter- 
na, ou nos tornamos acrimoniosos — sendo isso o fruto da moderna 
civilização — ou, que fazemos? Estais esperando que o orador vos diga 
o que deveis fazer? Aguardais que ele vos indique o que cumpre 
fazer? Se aguardais, o orador se tornará vossa autoridade e, se nele 
depositardes vossa confiança, posteriormente o substituireis por outra 
autoridade e de novo vos perdereis; estareis destruindo a vós pró- 
prios. 

Assim, não podeis fiar-vos nem no orador (escutai com serieda- 
de) nem em ninguém mais, em autoridade de espécie alguma. Vem 
daí uma grande beleza, e não desespero, acrimônia, sentimento de 
solidão; estais em presença do problema, e cabe-vos resoivê-lo com- 
pietamente; nisso há liberdade e beleza. Estais então livres da autori- 
dade, livre do instrutor e do ensino; já não estais seguindo ninguém, 
sois um ente humano livre, capaz de olhar e de compreender; aí se 
encontra uma grande beleza, alegria, lançastes fora todas as cargas. 

A palavra "responsabilidade" é uma palavra feia. Só a emprega- 
mos quando não há amor. “Responsabilidade" é palavra de que se 
serve o político astuto, a mulher ou o homem dominador, arrogante. 
Mas, nós somos responsáveis, e este é um fato real, somos respon- 
sáveis por tudo o que está sucedendo no mundo, a fome no Oriente, 
a guerra; não se trata de uma guerra americana contra os vietnamitas, 
porém da guerra pela quai cada um de nós — oriental ou ocidental — 
é responsável. Sei que não sentis assim. Podeis chorar a morte de 
vosso filho em batalha — o que espero não aconteça — sentir-vos in- 
vadido pela tristeza, sentir uma certa dose de responsabilidade, e pros- 
seguir pelo mesmo caminho. É quando tendes amor que vos sentis 
responsável. Mas, não amais porque vos sentis responsável: tendes 
responsabilidade porque amais. E a liberdade implica responsabilidade, 

não pelas ações de outrem — como posso ser responsável pelo que 
fazeis ou pensais 7 — porém responsabilidade peias ações oriundas do 
estado de liberdade. Nada significa ser livre sem responsabilidade. 

Vede-vos em presença deste problema, a sós com ele. Acaso já 
estivestes sós — sozinhos na floresta, a sós com vós mesmos em 
vosso quarto, ou estais sempre a ser empurrados por uma multidão de 
indivíduos, por vossos companheiros, vossa esposa ou marido, por pen- 
samentos prementes, problemas profissionais? Tudo isso indica que 
nunca estais sós; e, também, quando tal acontece, sentis medo, Mas, 
agora, tendes este grande problema. Ninguém irá dar-vos a solução 
dele. Estais frente a frente com este imenso problema e, por conse- 
guinte, sós. Desse estado de solidão vem a compreensão, e tudo o que 
fizemos estará certo, porque essa solidão é amor. Nesse estado, a 
mente que está enfrentando esse problema, sem nenhuma fuga, en- 
frentando os fatos diários da vida, a fealdade e a brutalidade de cada 
dia, palavras que desgostam e irritam — está só; estais começando a 
ver o fato real, “o que é". Então é possível ir além; porque passais a 
ser vossa própria luz. Essa é que é a mente religiosa, e não a do ho- 
mem que vai à igreja, que crê nos deuses, que é supersticioso, que 
tem medo; assim não é a mente religiosa. Mente religiosa é aquela 
onde existe liberdade e um grande e inalterável amor. Podeis então 
ir mais longe, ingressareis numa diferente dimensão, e a verdade 
existirá. 

Sabemos fazer a pergunta correta? Em geral achamos fácil inter- 
rogar. É necessário fazê-lo. O perguntar indica uma mente capaz de 
duvidar, uma mente que quer investigar, que não quer aceitar, uma 
mente que nunca diz “sim", jamais obedece, que está sempre a inqui- 
rir, a aprender. Fazer a pergunta correta é uma das coisas mais 
difíceis; isso não significa, entretanto, que tencionamos impedir-vos 
de interrogar-nos. Mas, o fazer a pergunta correta denota que a mente 
está cônscia do entrelaçamento dos problemas e neles interessada, 
não aprisionada neles. Ela indaga por que é capaz de pensar a fundo, 
de investigar ampiamente. Fazendo-se a pergunta correta, encontra-se 
a correta resposta, porque o próprio perguntar constitui a resposta. 

INTERROGANTE: Credes na evolução? Tendes dito que a compre- 
ensão é imediata, o ato de aprender é instantâneo; que papel tem nisso 
a evolução? Negais a evolução? 

KRÍSHNAMURT1: Seria absurdo negar a evolução. Ela é um fato 
— do carro de bois ao avião a jato, isso é evolução; dos primatas a 
isso que se chama M o homem” — evolução. Evolução da ignorância 
para o saber. A evolução exige tempo; mas, psicologicamente, interior- 

mente, existe evolução? Entendeis esta pergunta? Exteriomente, vê-se 
como a arquitetura progrediu da primitiva choupana ao edifício moder- 
no; a mecânica, do carro de duas rodas ao motor, ao avião a jato, às 
viagens à Lua, etc., etc. Não há discutir sobre se essas coisas evol- 
veram ou não. Mas, interiormente, existe evolução? Vós o credes, vós 
o pensais, não? Mas existe? Não digais “existe” ou M não existe”; pro- 
ferir meras asserções é rematada tolice. Mas o investigar é o começo 
da sabedoria. Ora, existe evolução, psicologicamente? Isto é, digo 
"tornar-me-ei alguma coisa", ou não me tornarei nada". O “vir a ser" 
ou o não ser implica o tempo, não é verdade? “Serei menos irascível 
depois de amanhã”, "Serei mais bondoso e menos agressivo, mais 
prestante, menos egocêntrico, menos egoísta.” — Tudo isso envolve 
tempo: “Sou isto e nme tornarei aquilo.” Digo que evoluirei psicologi- 
camente; mas, há tal evolução? Serei diferente daqui a um ano? Se 
hoje sou violento, se minha natureza é essencialmente violenta, se a 
criação e a educação que recebi, se as influências sociais e as pres- 
sões culturais geraram em mim a violência (vioíência que também her- 
dei do animal: direitos territoriais, direitos sexuais, etc.) — pode essa 
violência evoluir para não-violência? Podeis dizer-mo? Pode a violência 
tornar-se amor? 

Se admitimos a possibilidade de evolução e progresso psicológi- 
cos, nesse caso temos de admitir também o tempo. Mas o tempo é 
produto do pensamento. Dizendo: “Ora, eu hoje sou assim, mas serei 
coisa diferente na próxima semana ou em alguma data futura, ou 
amanhã”, trata-se, é óbvio, de uma idéia concebida peio pensamento. 
E o pensamento, como temos dito e redito, é sempre velho. Ele pode 
transformar-se, modificar-se, ser aumentado ou diminuído, mas será 
sempre pensamento, reação da memória, pertencente ao passado. O 
pensamento, o pretérito, gerou o tempo psicológico. Se não há tempo 
psicológico tcomo não há), estais então em contato com “o que é", 
e não com o que “deveria ser", que é pensamento. Repito, “o que 
deveria ser” é uma invenção, uma fuga ao fato — "o que é”. Porque 
não sabemos lidar com "o que é”, inventamos o futuro. Se eu sou- 
besse lidar com minha vioíência agora, hoje, não pensaria no futuro. 
Se eu soubesse o que significa morrer completamente hoje, não teme- 
ria o amanhã, a morte, a velhice, que são produtos do pensar, da idéia 
do futuro. Há, portanto, só uma coisa: o que é; sou capaz de compre- 
endê-lo? Pode a mente compreendê-lo integralmente e transcendê-lo? 
Isso significa não admitir absolutamente o tempo, porque o tempo é 
uma invenção do pensamento. Assim, para compreender “o que é", 
a ele tenho de aplicar, por inteiro, minha mente e meu coração. Tenho 
do compreender a violência. A violência não é uma coisa separada de 

mim: Eu sou a violência. A violência não está "lá”, e eu "aqui”. Eu sou 
a natureza e a estrutura mesma da violência; quer dizer, o observador 
é a coisa observada. O observador que diz "sou violento” separou-se 
da violência. Mas, se observardes atentamente, vereis que o observa- 
dor é a violência. Quando isso é para vós um fato, e não uma idéia, 
cessa o dualismo, a separação entre o observador e a coisa obser- 
vada; termina, por conseguinte, o esforço. Sou então a violência, dela 
nasce tudo o que faço e, conseqüentemente, acaba o esforço. Se não 
existe separação entre o fato — a violência — e o observador que se 
julga diferente do fato, vê-se que o observador é a coisa observada; 
não há dois estados distintos, E ao perceber-se que o observador é a 
coisa observada — a violência — que cabe então à mente fazer? 
Qualquer ação mental no sentido de transformar a violência é ainda 
violência. 

Assim, no momento em que a mente percebe que tudo o que 
pensa a respeito da violência faz parte da violência, cessa o seu pen- 
sar. A percepção desse fato é imediata, e não uma coisa que se pode 
cultivar através do tempo, atingir numa data futura. Vê-se, pois, na- 
quela percepção, urna certa coisa de imediato: não há, nela, tempo, 
nem progresso, nem evolução: é percepção e ação instantâneas. E, por 
certo, o amor é assim, não? O amor não é produto do pensamento; o 
amor, como a humildade, não é cultivável. Não se pode cultivar a hu- 
mildade; só o homem vaidoso cultiva a humildade. E, enquanto a está 
"cultivando", isto é, progredindo no sentido de alcançá-la, continua 
violento. 

O amor, por conseguinte, é aquele estado mental existente quando 
já não existem observador e coisa observada. Quando dizemos que nos 
amamos uns aos outros — oxalá assim seja! — há então uma "inten- 
sidade", uma comunicação, uma comunhão, ao mesmo tempo e no 
mesmo nível; essa comunhão, esse estado de amor não é produto do 
pensamento ou do tempo. 

INTERROGANTE: Para a maioria de nós, “o que é” é uma fuga às 
nossas ocupações tediosas, à sociedade em que vivemos. 

KRISHNAMURT1: Como transcendê-lo? É isso que quereis dizer, se- 
nhor? Como transcender "o que é”? Vós tendes de ganhar a vida, não? 
Na atuai estrutura social, tendes de ir para o escritório, para a fábri- 
ca; e, ou nos ajustamos a esse padrão, ou somos livres para ajustar- 
mos ou não. Senhor, a coisa é assim: A guerra é resultado do naciona- 
lismo, da divisão em superior e inferior; a guerra é, evidentemente, o 
resultado de ideologias, das ambições econômicas de uma nação, etc., 
etc. Para evitar a guerra devo abster-me de adquirir selos postais, via- 

jar de trem? Pois tudo o que fazemos concorre para a guerra. Sobre o 
alimento que compro, pago imposto; também sobre as roupas que me 
vendem, os livros que leio. Tudo leva, por fim, à violência sob este 
ou aquele aspecto. Assim, que me cabe fazer? Recusar-me a pagar 
impostos? Tornar-me pacifista? Que fazer? Seria tolice de minha parte 
não comprar selos, não pagar impostos, etc.; mas posso clamar, pro- 
testar contra o nacionalismo, a bandeira, a divisão religiosa dos ho- 
mens — cristãos, hinduístas, muçulmanos — à divisão racial — pretos, 
brancos, etc. 

Politicamente, só existe um problema: instaurar a unidade huma- 
na. A unidade humana não pode ser realizada pelos políticos; estes 
desejam manter as coisas como estão, separar, a fim de alcançar suas 
próprias e desprezíveis ambições. A unidade humana virá, certamente, 
com a transformação do coração de cada ente humano; o governo 
mundial ficará então a cargo dos computadores. Não riais; esta é a 
única solução. 

Então, não devemos freqüentar escritórios, usar roupas, etc? Es- 
tamos vendo, senhores, que queremos resolver este importantíssimo 
problema fazendo pequenas coisas, porque não percebemos sua inteira 
estrutura e natureza. 

INTERROGANTE: Dizeis que, se o observador está desperto, apre- 
senta-se o Supremo. . . 

KRISHNAMURT1: Perdão, eu não disse que se o observador está 
desperto o Supremo se apresenta; eu nunca disse uma coisa dessas. 
Se quereis citar o orador (e espero não o façais), deveis citá-lo cor- 
retamente. Empregamos palavras tais como "Supremo”, "Onipotente”, 
"Infinito", “Imensurável", sem saber o que elas significam. Não as em- 
pregueis. Só podereis usar uma ta! palavra com verdadeira seriedade, 
e propósito, e beleza, quando viverdes corretamente neste mundo, 
quando tiverdes lançado as bases da conduta verdadeira; sabereis en- 
tão, o que estareis dizendo ao empregardes a palavra "Supremo”. 

INTERROGANTE: Que pode fazer um homem que sofre de um mal 
incurável e padece dores incessantes? 

KRISHNAMURTI: Como posso suportar a dor, o medo à dor, o 
medo à morto? Se sinto dor física, muita ou pouca, se tenho percebi» 
monto dessa dor (atenção, não vou tratar de "sublimação" nu coisa 
parecida), so tonho simplesmente o percebimento dossn dor, sem ne- 
nhuma oaenlhn, ao percebo que tenho dor do donfon, uma dor agudo, 
aom dizer “tstou sofrendo" etc. — so mo cientifico dosao fato, som 

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escolha, terei a dor, mas com eia estarei numa relação completamente 
diferente; não haverá medo. 

Há o medo à morte, a uma doença incurável. Por que esse temor? 
Temo deixar minha mulher, meu marido, minha casa, minhas lembran- 
ças, meu caráter, meu trabalho, os livros que desejo ler, os livros que 
escrevi ou irei escrever; não é isso? — Tudo isso terei de deixar. Por 
causa desse medo crio o céu, uma esperança — o que, por sua vez, 
gera mais medo. Assim, posso livrar-me do temor? Sei que terei de 
suportar dores; certas drogas talvez possam remediá-las, mas há 
aquele medo de profundas raízes, existente no animal e em todo ente 
humano: o medo de morrer. Medo de morrer é medo de viver, não 
achais? Medo de viver; que significa a nossa vida com sua fealdade e 
brutalidade? É a única vida que conhecemos, e até esta vida temos 
medo de perder; tememos o desconhecido. Preferimos ficar apegados 
ao conhecido e, por isso, dividimos a vida em viver e morrer. Não 
sabemos viver, e não sabemos morrer. Quando cabemos viver sem 
conflito, com beleza, com alegria, com lucidez e paixão — e isso só 
é possível se sabemos morrer diariamente para todas as coisas que 
possuímos — então o medo deixa de existir, 

12 de outubro de 1968.